Viva o 25 de Abril!

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Luís Barreira

Muitos acontecimentos nacionais e sobretudo internacionais, mereceriam hoje um meu comentário, mas não podia deixar passar a data histórica do 25 de Abril de 1974, sem evocar a celebração de um dia que representou tanto, para quase toda a gente!

E quando digo quase toda a gente, estou a lembrar-me de dois tipos distintos de pessoas: os privilegiados do antigo regime, que excluo da satisfação geral pela celebração e muitos daqueles que, nas antigas colónias, tiveram que regressar ao País, despojados de tudo o que tinham adquirido, após uma intensa vida de labuta, culpabilizando o golpe militar por tudo o que lhes aconteceu.

Quanto aos primeiros, os antigos privilegiados, reduzidos a uma dúzia de famílias e aos verdugos do antigo sistema, o 25 de Abril perdoou-lhes a infâmia e ainda lhes deixou oportunidades, algumas das quais nos vieram a custar bem caro, ainda hoje!… Quanto aos regressados das colónias, o País metropolitano e paupérrimo que nós éramos, permitiu-lhes uma modesta segunda oportunidade, embora nunca conseguisse fazê-los esquecer os dissabores porque passaram, tornando difícil fazê-los compreender a inevitável mudança histórica, regional e mundial, que se nos impunha e a consequente morte anunciada do regime.

Por tudo isso, o 25 de Abril de 74, a que o Movimento dos Capitães deu um “empurrão” decisivo, foi uma revolução de tolerância e de cravos nas espingardas. Uma transformação pacífica, que apenas foi possível porque o anterior regime caiu de podre, implodiu!

A guerra, que muitos da minha geração viveram em África, não tinha solução a nosso favor durante muito mais tempo, pese embora alguns militares ainda hoje pensem que, nalguns casos, estávamos em vantagem bélica, esquecendo-se no entanto que estávamos em completo isolamento internacional. A continuação da política do “orgulhosamente sós” iria conduzir-nos a um beco sem saída, à inutilidade de mais mortes e, mais tarde ou mais cedo, à consciência popular da necessidade de uma revolta sangrenta contra a ditadura.

Além disso, os movimentos de libertação atingiam o auge do seu reconhecimento pela guerra que travavam, aumentando o seu poder militar e o reforço da sua credibilidade junto das suas populações.

De nada vale pensar-se hoje, que muitas dessas populações passaram por muitos piores momentos depois da nossa descolonização, ou que poderiam estar socialmente melhor, se tivessem permanecido com alguma ligação politicamente estruturada a Portugal. Isso é inverter a análise do decurso da história, depois de ela ter acontecido. Eles estavam motivados para serem donos das suas próprias terras, passaram e passam por duras experiências e são donos do seu destino. Só nos compete aceitá-lo ou criticá-lo, sem qualquer intenção saudosista, mas por imperativo da nossa consciência de valores éticos e humanos que devem prevalecer em todos os regimes!

O 25 de Abril de 74 colocou Portugal no ciclo histórico das outras nações e deu oportunidade aos portugueses de construírem um País melhor. E ele está à vista, para quem ainda não esqueceu de como vivíamos antes!

Sei que alguns contestam esta data histórica, pela barafunda politica que se viveu alguns tempos depois, confundindo deliberadamente duas coisas distintas: o dia 25 de Abril e o período revolucionário que se seguiu. Mas é um erro considerá-las como se fossem uma e a mesma coisa.

O 25 de Abril foi uma explosão colectiva de alegria pela conquista de uma liberdade tanto tempo reprimida, um momento único na vida das gerações que sofreram, de uma forma ou de outra, a pressão física, económica e intelectual, de um sistema caduco, que recusava obstinadamente adaptar-se à modernidade dos tempos, numa cegueira cada vez mais indisfarçável de apelos à pátria, que mais não eram do que súplicas para manter um regime retrógrado e ditatorial.

O que se passou depois, foi o resultado de “apetites” estrangeiros pelo estado de iliteracia politica e cultural em que se encontrava a imensa maioria do povo português, após quase meio século de censura e repressão. Foi o desbravar colectivo de ideologias, sustentadas romanticamente pela defesa dos interesses populares, após uma leitura apressada dos catecismos teóricos que as alimentavam. Foi percorrer, em passo apressado, toda a história mundial que nos tinha escapado. Mas foi também um inevitável contributo, embora com algumas consequências negativas, para a aprendizagem de uma democracia que, mau grado as suas insuficiências e defeitos, preserva o essencial da liberdade humana e dá-nos a capacidade de sermos os autores da nossa própria história, tornando-nos responsáveis pela sua evolução.

O 25 de Abril deve ser lembrado por isso mesmo. O dia da libertação da repressão por se pensar de forma diferente e da censura que nos conduziu ao atraso cultural em que vivíamos. O fim de uma estrutura social corporativa, dominada por um poder autoritário e autocrático, que concentrava o poder legislativo, executivo e judicial e o exercia de forma discricionária.

Razões de sobra para que esta data continue a ser festejada, como o movimento mais importante do meio século que o antecedeu.

Viva o 25 de Abril!

 

Luis Barreira

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