Uma alma alentejana que dedicou e dedica a sua vida ao cante e à viola campaniça – mais que uma paixão (parte 2)

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Este homem de 35 anos respira o Alentejo e as «calmas» desta região: uma força tranquila com já 20 anos de carreira e a vontade de salvaguardar e também mudar as coisas. Mais que uma paixão, uma alma musical que transmite força e amor a este Alentejo que pouca gente conhece verdadeiramente “aquém” do Tejo, além dos Alentejanos. Um dos mais bonitos encontros que eu já fiz, cheio de ensinamento e de sabedoria. O seu novo álbum “Mercado dos Amores” será lançado no dia 29 de março. E o seu concerto na Suíça está marcado para o dia 13 de abril em Chippis/Sierre no Valais. Não perca essa oportunidade! 

À conversa com Pedro Mestre

A viola campaniça hoje

“Há alunos meus, muito bons, que já estão a ensinar a tocar a viola campaniça. Fiz workshops em festivais e tive alunos que desenvolveram a viola e estão a tocar todos os dias em concerto, com aquela viola fizeram a sua profissão, é o seu ganha-pão, têm concertos, discos e ensinam. Uns deles mais instrumentais, outros menos, outros com o cante, outros sem o cante. O que é certo é que existem hoje dezenas de tocadores, e não sei dizer exatamente quantos, em que a base é toda trabalho meu. Eu conheço a maioria, mas há muitos que estão a tocar e com quem não tive um contacto direto. Tenho muitos vídeos na Internet, no YouTube. Eles pesquisam e a história está toda divulgada e está nos sítios certos. E há muita gente a fazer trabalho sobre a viola campaniça que vai à Internet. Há um livro que saiu em 2001 e esgotou. Este livro tem uma vantagem, saiu com músicas em 2 CD’s, com sessenta modas. O mestre Manuel Bento formou o Grupo Violas Campaniças de Castro Verde, fui o seguidor e mantenho o grupo ainda hoje. Esse grupo teve várias formações. E há também “O Campaniça Trio” que eu formei.

Desde 1998 sempre a subir ao palco 

Senti a necessidade de criar um espetáculo maior, eu criei assim o meu espetáculo. Formo vários grupos corais, ensino muitos grupos, dou apoio ao cante. Faço as duas coisas, cantar e tocar, com muito prazer. Monto um espetáculo meu, enquanto Pedro Mestre como artista que não só dá apoio à tradição mas Pedro Mestre como artista em que convida outros artistas para ter uma abordagem diferente. Desde 1998 sempre a subir ao palco. Participei em numerosos festivais internacionais, como o Festival 7 sóis 7 luas, encontros no Brasil, na Itália, na Grécia, na França, na Espanha, na Alemanha, na Suíça. Uma vez fui convidado num concerto dos Madredeus em Viena. O fado tornou-se comercial e o cante está a seguir o mesmo caminho. Mas o cante tem uma desvantagem. A logística é muito grande. Daí que eu passo a ter facilidade porque eu começo a apresentar o cante sozinho, com a viola ou com duas ou três pessoas. E aí torna-se uma vantagem para nós, a logística é menor, há menos despesas. E à semelhança daquilo que se faz com o fado. Agora um coral são trinta pessoas, é complicado para viajar. Mas mesmo assim, esses corais têm viajado pelo mundo. A maioria dos grupos são muito fiéis à tradição e mantêm-se ainda num passado sofrido. O cante pode ser até da tradição mas temos que ir buscar o cante ligeiro, de bailes de convívio, que é animado, vivo e bonito. Não só o cante do trabalho. A maioria dos grupos querem manter este cante mais dolente em vez do cante divertido. Mas isso explica-se.

O cante como educação

Às tantas, o cante foi também uma forma de educação. O povo no Alentejo foi educado a sofrer, foi preparado para sofrer. No Alentejo tu ainda não tinhas nascido e já tinhas que estar preparado para trabalhar, tu tens que fazer isso, tens que lutar todos os dias. A geração mais antiga mantém ainda essa parte da vida e depois manifesta cantando. Quando comecei a ir para fora aqui valorizaram mais. Para já a nossa música é muito apreciada fora, no estrangeiro gosta-se muito da nossa cultura. Quando tu sais para fora, cá dentro tu és valorizado de outra maneira. Eu acho que Portugal tem este defeito. Só valoriza depois dos outros valorizarem. A sensação que eu tive é que estava no caminho certo, estava a fazer um trabalho importantíssimo para a cultura local. Com todo este movimento que eu estava a desenvolver, eu tinha a certeza que iam surgir mais pessoas.

E se esta questão do cante património mundial aconteceu no Alentejo, eu considero que “tive muita culpa” nisso porque, se o cante passou a ser das outras gerações, se começou a ficar conhecido além-fronteira, eu fui um dos que o levaram para fora do país.

Quando comecei a cantar não havia jovens nos grupos corais, eu era uma exceção e eu aparecia no meio dos velhos e houve muita juventude a vir para o cante porque viam a satisfação que havia dos poucos que existiam. Porque é possível eu estar no meio dos velhos e cantar e ser feliz. Eu considero que fiz a ponte a uma série de questões da nossa tradição.”

Entrevista: Clément Puippe

Fotos: André Roque

N.B.

Já está à venda o novo trabalho discográfico de Pedro Mestre Mercado dos Amores, que assinala 25 anos do seu percurso musical a “Cantar o  Alentejo e Outros Cantos do Sul à Viola Campaniça”. 

Site de Pedro Mestre com informações sobre os próximos concertos

http://www.pedromestre.com.pt

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