Sandra Pernet, uma mulher de convicções fortes que tem assento na assembleia em Lausanne

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Sandra Pernet
Sandra Pernet

Sandra Pernet é uma mulher de família, multifacetada, empenhada em diversas organizações e foi eleita para a assembleia municipal da cidade de Lausanne. Sandra Pernet é mãe de 3 filhos, presidente do partido PDC de Lausanne, tem 41 anos de idade e é natural do Porto. Faz parte ainda Comissão escolar do colégio Belverdere, da associação da Ajuda a Pai, pelo poder paternal e foi eleita para a assembleia da cidade de Lausanne. Mas o seu trajeto ascendente começou com o seu trabalho independente em criar o perfil de criminosos e vítimas. Um trabalho que mereceu menções e elogios por diversas organizações, tanto que a Sandra foi vítima também de abusos quando chegou à Suíça no ano de 1987, apenas com 11 anos de idade. Perdeu a mãe com 13 anos de idade, quando já vivia numa instituição, e sente conforto quando recorda esse apoio institucional, dado que, com a sua progenitora gravemente doente, o seu pai não tinha condições para tomar conta da Sandra. Casou-se com um suíço que sempre a apoiou em tudo e em todas as suas atividades. A sua história de vida serviu de exemplo e a Sandra deu a cara por todas aquelas pessoas que sofreram violações e ficaram mais desprotegidas e tiveram dificuldade em encontrar apoio no seio da sociedade. Mas, a nossa conversa teve mais que ver com a sua atividade política e com as suas ideias em relação à Suíça e à comunidade portuguesa.

Como é possível a Sandra conciliar todas as suas atividade e empenhos, tendo uma família e uma agenda apertada?
Em primeiro lugar, é ter um marido como eu tenho que me apoia em tudo o que faço; sem dúvida nenhuma, dado que é uma pessoa que me ajuda sempre com os filhos, posso dizer mesmo que desde que os nossos filhos chegaram, ele teve sempre a preocupação de ser ele a dar-lhes de comer e o banho à noite; como tal, saía do emprego e vinha logo para casa para me ajudar nestas tarefas. Agora os meus filhos são grandes e as tarefas são outras. Assim, sempre que estou fora nas minhas atividades políticas e sociais, é o meu marido que se ocupa em casa, e claro que esta confiança e apoio me dá uma outra tranquilidade.

Como é que a Sandra chegou à política?
Por duas razões; em primeiro lugar porque verifiquei que poderia ser útil à sociedade dado que tenho uma enorme consciência política e social, até pelo meu trabalho. Sinto que um maior empenho junto da sociedade nos pode levar a um equilíbrio, independentemente das ideias de cada um, mas que é necessário um maior interesse e mobilização pelos diversos problemas que a todos nos dizem respeito. Depois, em segundo lugar, por todos aqueles que necessitam de ajuda social e que se sentem diferentes, de algum modo. Talvez tenha a ver com a minha condição de saúde, dado que nasci com uma deficiência genética rara, que me limita em muitas situações do meu dia-a-dia, que transmiti ao meu filho, dado que padece dessa mesma doença…

Mas como foi essa entrada no mundo da política e o porquê?
Entrei com a consciência e com a intenção de dar voz a todas as pessoas. Não interessa a nacionalidade ou as suas origens. Dar voz às pessoas que vivem na cidade de Lausanne e que têm muitos obstáculos a ultrapassar no seu dia a dia. Claro que sou portuguesa e não me posso esquecer da nossa comunidade. Tento ser próxima da nossa comunidade, mesmo se fui eleita por todos os eleitores da cidade de Lausanne, que têm problemas que lhes dizem respeito.

A Suíça é um país é muito particular com o seu sistema regional de cantões e de democracia direta. Muitas das decisões importantes dizem mais respeito ao cantão do que ao Palácio Federal em Berna. Assim sendo, na cidade de Lausanne, como vê a política de integração junto da comunidade estrangeira?
Mas será que a política de integração deverá ser apenas da responsabilidade única e exclusiva do cantão, ou do Palácio Federal? Acho que não. Penso que deve também haver um maior empenho e participação por parte dos estrangeiros, e isso não se vê muito. Então no seio da comunidade portuguesa vê-se muito pouco. Claro que tem de haver medidas no âmbito politica que favoreçam a integração, sejamos claros, mas isso só por si não chega.

Mas em Lausanne, por exemplo, o movimento associativo passou para locais privados e pouco de associativo?
Sim, claro, mas o movimento associativo que existia será que era um bom exemplo de integração? Muito sinceramente, acho que não. Agora, os tempos levaram a uma privatização dos locais onde maioritariamente a comunidade portuguesa marca encontro. Mas integração na sociedade de acolhimento é muito mais do que isso. Não nos podemos esquecer de que a Suíça é um país multicultural, existe uma riqueza de proveniências e costumes que coabitam na sociedade. Mas a Suíça tem também as suas regras, cultura e um sistema que todos que aqui chegam devem aprender a conhecer e respeitar. A integração passa pelo empenho de todos. Seja a nível politica, ou por parte dos estrangeiros, e o primeiro passo passa pela aprendizagem da língua de uma forma capaz e eficiente.

Então, quais são as maiores preocupações da Sandra para a cidade de Lausanne?
Sim, as minhas preocupações para a cidade de Lausanne é ainda o imenso trabalho que tem de ser realizado no âmbito das pessoas com deficiências, a família, existem ainda muitas lacunas para proteger os valores da família, e foi esse um dos maiores motivos que me levou a aderir ao PDC. Há muitas famílias com imensas dificuldades tanto a nível financeiro, saúde e de estruturação, que leva muitas vezes a desequilíbrios que podem ser mesmo terríveis. Portanto, tem de haver um maior apoio a estas famílias pouco estruturadas.

A Sandra é também conhecida pelo seu trabalho a nível de investigação da violência doméstica. Existe violência doméstica na Suíça?
Para falar da violência doméstica, precisaríamos de muitas páginas do seu jornal. Sim, existe violência doméstica na Suíça, infelizmente, sim, e fala-se muito pouco sobre esse tema. No seio da comunidade portuguesa esse problema ainda é maior, e a realidade é que ninguém fala ou fala-se muito pouco. E o problema vem de há muitos anos e é também um problema cultural. Na sociedade portuguesa sempre se ouviu “entre o homem e a mulher ninguém mete a colher”, e como tal muitos não falam desse mesmo problema. Sim, existem muitos casos de violência doméstica. Bem há pouco tempo um português matou a mulher em Genebra por problemas conjugais. O problema é real e infelizmente no seio da nossa comunidade é muito difuso. Também é verdade que a mentalidade está a mudar e começa a haver uma maior abertura para se resolverem os problemas, mas ainda falta muito para se fazer… Outro problema de que poucos falam é o de mandarem vir jovens da terra para cuidarem dos filhos, com a promessa de que irão estudar e depois não só tomavam conta dos filhos como tomavam conta do patrão também… Há uns anos uma adolescente tentou matar o cunhado por tentativa de abuso…

Como vai ser o futuro da Sandra?
Continuar a aprender e tentar fazer o meu melhor na política local. Há muito trabalho pela frente nos diversos campos das lacunas sociais de quem mais precisa de ajuda. A nível pessoal, dado que os meus filhos são grandes, tentar aproveitar o maior tempo possível com o meu marido, dado que ele me tem ajudado muito nesta minha caminhada na vida…

Sandra Pernet
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