Samuel Bastos…um músico de eleição da Orquestra de Zurique

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Samuel Bastos
Samuel Bastos

Ganhou diversos concursos internacionais no oboé

Samuel Bastos é um nome consagrado no mundo da música, no seu instrumento, que é o oboé. Toca na Orquestra de Zurique, uma das mais afamadas de toda a Europa, fez os seus estudos na Conservatória e tirou o mestrado na Suíça, e participou em imensos concursos com muito sucesso. O último, no passado ano, nos Estados Unidos, em Chicago, veio enriquecer ainda mais o seu currículo, que é deveras invejável. Um amigo comum, Manuel Santiago, considera o Samuel Bastos o Cristiano Ronaldo no oboé, porque, de facto, é um nome consagrado e é português. O Samuel falou-nos do seu entusiasmo pela obra de Beethoven, o Fidélio, que é a única ópera deste grande compositor, que foi estreada em Viena por altura das invasões francesas; e da “Madame Buterfly” de Puccini; obras que fazem com que o Samuel procure a perfeição num mundo que infelizmente muitos não compreendem. A música é universal, mas a sublimidade de uma arte nem sempre está ao alcance de todos, mesmo se nos dias hoje é mais fácil acedermos ao fascínio e à genialidade do Homem. O Samuel tem uma paixão pelo mundo da escrita, com a sua revista Dacapo— www.dacapo.pt — juntamente com a sua irmã Sandra Bastos, que trata, como não podia deixar de ser, sobre os grandes temas da música erudita. O Samuel Bastos é natural da freguesia de Oliveira, Barcelos, e chegou à Suíça para estudar no ano de 2006. No ano de 2012, concorreu para músico efetivo da Orquestra de Zurique, onde se encontra desde então, com o seu instrumento, o oboé.

Podes fazer uma retrospetiva desde o ano de 2006 até aos dias de hoje?
Vim para aqui no 2006, com 19 anos, vim para universidade, e quando estava a terminar o meu curso, fiz a licenciatura e o mestrado, e havia uma vaga na Orquestra de Zurique. Fiz o concurso, que acaba por ser um concurso internacional para a orquestra, e qualquer pessoa se pode inscrever. Seja como for, ganhei esse concurso. Isto foi no ano de 2012, no ano em que terminei o mestrado. Fiz um ano à experiência, e nesse ano fui avaliado pelo Maestro principal e pela orquestra, em que tiveram a possibilidade de dizer se eu tinha ou não qualidades para passar a ser músico efetivo, porque podia dar-se o caso de não encaixar no espírito da orquestra. Ou seja, fiz o concurso e ainda tive o tal ano de experiência. Acho que foi o mais difícil, porque a exigência foi maior e tive de estar sempre muito bem preparado. Desde desse momento, fui participando noutros concursos que foram aparecendo…

Quer dizer que mesmo fazendo parte da Orquestra de Zurique, tens a liberdade de participar noutros projetos?
Sim, temos a liberdade de participar em muitos outros projetos, como foi o caso do concurso que ganhei nos Estados Unidos. Não temos um contrato de exclusividade única com a Orquestra de Zurique. Temos de respeitar as regras e os serviços que temos com a Orquestra, que é sempre a prioridade. Existe sempre muita atividade, mas nós não temos de tocar em todas as produções. Por exemplo, somos seis oboístas, 5 efetivos e um academista, e consoante o trabalho que vai surgindo, colaborações com outras orquestras, trabalhos por fora, concursos, etc., tentamos encaixar a nossa agenda com as nossas obrigações com a orquestra de Zurique, e isso é possível. O nosso grupo funciona muito bem e temos sempre a possibilidade de abraçar outros projetos. Todos os músicos da orquestra recebem convites de outras orquestras. Por exemplo, como português recebo alguns convites de Portugal. Ou seja, é sempre possível e existe essa flexibilidade de se participar noutras iniciativas, sempre que cumpra as obrigações da Orquestra de Zurique. Temos tempo tambémde dar formação, ao que chamamos de “master classes”, ou seja, alunos que tocam para mim, para eu avaliar como estão, são cursos de dois a três dias, chegam sempre jovens e com muito talento. Claro que falo do meu instrumento, que é o oboé. E é através destas “master classes” que estou a descobrir uma geração mais jovem com muito talento e que está a felizmente a crescer. Jovens que tocam o oboé desde muito pequenos, porque é um instrumento difícil e, quanto mais cedo começarem, melhor.

Foi no seguimento dessa flexibilidade que foste até Chicago e ganhaste um concurso no teu instrumento, o oboé?
Sim, primeiro tive de me inscrever, fazer uma gravação, e foi com essa gravação que fui aceite; aliás, foram apenas aceites cinco candidatos: dois americanos, uma japonesa, um francês e eu, português. Estes cinco são os chamados finalistas. Neste caso foi nos Estados Unidos, mas poderia ter sido num outro país, que passam à última fase do concurso. A primeira fase foi a gravação, sei que se apresentaram muitos candidatos, não sei quantos ao certo, em que foram então escolhidos os cinco para a fase final. Nessa final calharam-me cinco peças que tive de tocar, que foram desde o Barroco até à música moderna, e que acabei por vencer, e fiquei muito agradado, como é fácil de se imaginar.

O que é que este prémio acrescentou à tua carreira?
Posso dizer que este concurso e prémio foi o último, posso já adiantar. Depois deste, não tenciono concorrer a mais nenhum, e também porque a idade já não permite. Foi o último e posso dizer que acabei da melhor forma. Mas, participei em muitos outros concursos; em alguns tive êxito, em outros não, mas acabei por aprender que o fracasso acaba por ser o caminho para o sucesso, ou seja, toda esta participação nos diversos concursos foi um caminho de aprendizagem. Talvez em muitos concursos em que participei, não me preparei como deveria e, assim, aprendi a chegar longe com os erros.

Neste momento, como vês o teu futuro: a tocar na orquestra de Zurique, ou a abraçar outros projetos e até regressar a Portugal?
No geral para um músico, como é o meu caso, que faz a conservatória, o objetivo número um é conseguir um trabalho fixo numa orquestra, seja ele um violinista, violinista, um flautista, um oboísta, como é o meu caso. Eu felizmente consegui, e até pensamos que pode ser um trabalho para toda a vida, tanto mais que este Teatro é muito famoso, uma orquestra muito boa e que oferece excelentes condições. Tem sempre boas produções, bons maestros e eu tenho um contrato até ao ano 2050. Claro está que posso ir para outra orquestra, mas teria de passar uma vez mais por todo o processo que já passei aqui, quando passei o ano de prova. Se estivesse numa orquestra com menor dimensão, e não gostasse da cidade… mas não, gosto muito da cidade, gosto muitos dos meus colegas e gosto muito da orquestra de Zurique. Já vivo em Zurique há 11 anos e não faz sentido procurar outros caminhos, sinto-me muito bem aqui e é aqui que quero continuar.

Mas acabas de participar numa digressão?
Sim, exatamente, além dos concursos que fui fazendo, desde quando estudava até aos dias de hoje, sou convidado a participar com outras orquestras, como foi o caso da Coreia no passado mês de outubro, com a orquestra coreana, uma atuação na Alemanha, na Áustria e na República Checa.

Quer dizer que estão a aparecer novas oportunidades, mas todas essas produções exigem também uma aprendizagem pela tua parte?
Para que entendam, um músico precisa de estudar e aprender permanentemente, como tem de tocar o seu instrumento todos os dias. As partituras, estudar as produções, os concertos, responder aos convites e devo dizer que tenho a minha agenda muito preenchida. Por agora dá para atender a quase todas as solicitações, mas, no futuro, terei de moderar todo o meu entusiasmo e coordenar o meu tempo disponível com a Orquestra de Zurique.

No teu instrumento, o oboé, qual é o compositor que gostas mais de tocar?
Há duas obras que são as obras primas, para o repertório de oboé, que é o concerto de Mozart e concerto de Strauss, são as duas obras emblemáticas. Já tive a oportunidade de tocar Strauss na Rússia, com o Maestro João Santos, um maestro português que vive também na cidade de Zurique, no mês de janeiro do corrente ano, e foi um momento inesquecível. Toquei também o concerto de Strauss em Zurique. Tocar Mozart e Strauss para um oboísta é sempre algo especial; são as duas obras mais difíceis do mundo e são as mais emblemáticas e que motivam a estudar e leva anos a aperfeiçoar ainda mais.

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