Reto Monico, o historiador suíço mais português da Suíça

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A escrita é uma paixão e um desafio

Reto Monico deve ser o historiador suíço mais português da Suíça. Fala o português fluente, é casado com uma portuguesa, e tem um vasto percurso literário sobre acontecimentos entre Portugal e a Suíça desde o princípio do século XIX. Nunca hesita em participar em acontecimentos culturais para falar das relações entre Portugal e a Suíça, pois é um profundo conhecedor da História de Portugal. Professor reformado do secundário, lecionou toda a sua vida de docente em Genebra, nasceu no Ticino, e adotou Portugal para o seu refúgio literário e de investigador.

–Fale-nos um pouco de si e do seu percurso.

Reto Monico –Nasci no Ticino e fui para Genebra com 19 anos, já com os estudos da maturidade e com a recruta cumprida. Nasci em Aquarossa, no norte do Ticino. Em Genebra estudei História e, mais tarde, especializei-me em História contemporânea.

-Então, quando apareceu o interesse por Portugal?

Reto Monico – No ano de 1981. Visitei Portugal no mês de julho de 1981.  A partir desse momento, senti-me bem, senti simpatia, e frequentei a nível particular as aulas de português e cheguei rápido ao nível 3, no curso de verão. Lembro-me de que na altura me apareceu a palavra “turma” e eu não percebia, mas devo dizer que eu tive uma professora fantástica, a Teresa Meneses, aprendi mesmo muito com ela. No ano seguinte, cheguei ao nível superior.

–Depois de aprenderes o português, aparece esta procura intensa pela História de Portugal?

Reto Monico – Isso foi mais tarde. Participei no ano de 1998 num curso no Instituto da Defesa Nacional, subordinado ao tema “Portugal e as guerras europeias”, em que encontrei o Prof. Fernando Rosas, o Prof Severiano Teixeira, entre muitos outros. Foi quando ao telefone o Prof. Severiano me disse para estudar as relações da Suíça com Portugal durante o período da primeira república, que foi quando esteve na Suíça o Guerra Junqueiro. Assim, fiz uma tese de pré-doutoramento sobre “A Revolução republicana vista pela Suíça”.  Chegamos à conclusão de que não havia relações entre os países, mas que existiam muitos documentos portugueses que falavam da Suíça e muitos documentos suíços que falavam de Portugal. Fala-se de Portugal na Suíça quando acontecia algo, como a revolução republicana, a entrada na 1.ª guerra mundial, o assassinato do príncipe real, entre muitos outros temas, enquanto Portugal falava da Suíça como modelo de civismo e de organização. Eu consegui escrever quase 500 páginas sobre dois países em que quase não havia relações. Havia 147 portugueses na Suíça no ano de 1910. Posso dizer que o Guerra Junqueiro reuniu no dia de Camões, no ano de 1912, um terço da colónia portuguesa, 50 portugueses em Berna.

–Tudo isto que está a dizer foi publicado?

Reto Monico –Esta foi a minha tese de doutoramento, que mais tarde foi publicada em livro. Este livro foi subsidiado pelo cantão do Ticino e de Genebra, felizmente, dado que foi muito dispendioso na altura.

–Sei que está reformado, mas foi Professor Universitário?

Reto Monico—Fui toda a vida professor no secundário, do 7.º ao 9.° ano em Genebra. Mas, como dizia, este livro foi publicado… e só depois deste é que vieram todos os outros. Eu tinha visto uma coleção em França em que estavam reunidos documentos sobre vários acontecimentos, como, por exemplo, a separação do Estado e da igreja, o que me levou à ideia de publicar também um livro sobre documentos de Portugal. Foi nesse momento que contactei o Joaquim Vieira, que escreveu a História de Portugal no século XX e, em imagens, escreveu, também, uma bibliografia sobre o Mário Soares, também sobre o Saramago e também sobre o Pinto Balsemão. O Mário Soares não ficou muito contente, dado que ele tinha uma vida privada muito intensa e variada, e o Joaquim abordou essa faceta e ele não ficou muito contente. Bem, mas em conjunto fizemos um livro sobre o regicídio. E isto porque no dia 7 de outubro o jornal em Genebra publica 7 editoriais, durante várias semanas, sobre Portugal. Nunca tinha acontecido antes, naquele tempo, um jornal suíço publicar tantos artigos sobre um acontecimento em Portugal. Sob ideia do Joaquim, fizemos outro livro sobre o 25 de abril e o PREC. Cerca de 95% da pesquisa deste livro foi feita por mim. Temos uma excelente relação e colaboração. Como participei, também, num colóquio nos Açores no ano de 2011. Nesse colóquio conheci um brasileiro, especialista da imprensa do século XIX, e combinámos escrever em conjunto e, assim, já foram publicados 4 livros. Um é sobre a queda de D. Pedro, como Imperador que teve de sair, outro sobre o golpe de 1904, sempre com base em relatos da imprensa helvética da altura, que se chama “Brasil 1904, ecos do golpe no mundo”, e temos outro que fala das ruturas das relações de Portugal e do Brasil em 1894, visto pela imprensa internacional. Muito deste material está digitalizado e em sites de imprensa online.

–Será que se pode aprender para o dia de hoje, ou seja no presente, com os relatos do passado?

Reto Monico –A sociedade moderna (pausa)… acho que ao conhecermos o passado sabemos até onde poderemos ir. A História pode ajudar-nos a compreender as sociedades nos dias de hoje. Sabe, quando era professor, um dos exercícios que fazia era o de pedir aos meus alunos que colocassem pioneses num mapa-mundo da origem dos seus avós, tanto maternos como paternos. No final, o mapa tinha pioneses espalhados por todo o mundo. Curioso, não é? Ou seja, a nossa origem vem detrás, com factos e acontecimentos. A minha história também se mistura com Portugal, dado que me casei com uma portuguesa e tenho filhos, netos, com descendência lusitana. Tenho um neto que nasceu em Portugal, outro que nasceu no Ticino, outro em Genebra e outro na Bélgica.

–Está reformado há 6 anos, e a escrita nos dias de hoje tornou-se numa necessidade?

Reto Monico – Sim, nos dias de hoje há uma grande necessidade de escrever todos os dias, sempre que me seja possível. Sempre tive a ideia de escrever um conto, em 3 línguas, não sei se vou conseguir, mas a ideia existe e a vontade também. Sim, escrever é uma grande necessidade faz parte intrínseca da minha pessoa em pesquisar e escrever. A escrita é uma paixão e um desafio.

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