Quem se lembra?

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Luís Barreira

Após 42 anos a viver sem restrições da liberdade de expressão, quem se lembra de como era antes?
Que recordações ainda vagueiam na nossa memória colectiva sobre a vida de outros tempos?
Aqueles tempos de um obscurantismo barroco, de gente cinzenta e sorrisos hipócritas, das vaidades restritas e ostentativas das oligarquias económicas, das obediências cegas a estúpidos carrascos, da miséria humana transformada em orgulho nacional, da pobreza das gentes com o analfabetismo promovido a pilar do sistema, da sensação de viver aprisionado no seu próprio País, do medo dos esbirros e dos bufos, do deserto sanitário para além das fronteiras citadinas, dos salários miseráveis pagos à jorna, dos milhares e milhares de jovens sacrificados numa guerra politicamente perdida e uma descolonização teimosamente adiada e dos milhares e milhares dos nossos “refugiados” que, a “salto”, fugiam a caminho de França, da Alemanha ou qualquer “buraco” onde fosse possível sobreviver!
Quem se lembra?
De uma forma geral, uma geração que caminha agora rapidamente para os 50 e que hoje se encontra à frente dos destinos das nossas empresas, das instituições e do Estado não tem, nem pode ter, memória sensível desses tempos. Sabem o que leram, os que o fizeram!?…Os que viram imagens televisivas, quais e quantas imagens!?…O que lhes contaram, mal ou bem, se é que compreenderam!?…
Esta geração e a que se lhe seguiu não pode, não deve, ignorar uma parte da nossa história tão recente, sobe pena de se sentir desenquadrada e incompreendida no processo evolutivo do País. Situação que pode conduzi-la à indiferença de pertença a uma nação!
Estes homens e mulheres, rapazes e raparigas, que hoje constituem a essência da população activa nacional, independentemente das “estórias” que ouviram ou leram, não podem desprezar o conhecimento das suas origens, porque é “velho”, ou porque consideram que Portugal “nasce” com eles. Opiniões que comprometem a solidariedade para com as gerações mais velhas!
Por muita pressão e influência que esteja actualmente a ser exercida sobre elas, o estudo e o conhecimento técnico das novas gerações, pelo alto valor de mercado que podem propiciar aos seus detentores, não podem constituir-se, só por si, como o único activo das suas personalidades. A ser assim, destituídos do conhecimento sobre a história da sua própria sociedade e dos valores nela contidos, tornar-se-ão facilmente mercenários ao serviço das causas que melhor os remunerem, independentemente da justeza das mesmas e dos interesses que servem!
A nossa história mais recente, que está na origem dos nossos sucessos e insucessos actuais, continua a ser difundida apenas em episódios comemorativos anuais, salientando os factos ocorridos a 25 de Abril de 1974 e o período conturbado que se lhe seguiu, mas ignorando toda a anterior situação da população portuguesa que, afinal, foi um dos factores que mais contribuiu para a vitória da nossa democracia.
Se é bem verdade que muitos dos actores dessa história ainda estão vivos e as ideias que os separavam continuam a reproduzir-se socialmente, suscitando empatias ideológicas na análise histórica, tendentes a pulverizar concepções sobre os acontecimentos após 74 e a uma diversidade de leituras históricas, trazer aos bancos da escola e aos programas televisivos a realidade de Portugal antes do 25 de Abril não merece contestação. É portanto um imperativo nacional e educativo fazê-lo, permitindo uma muito melhor compreensão das razões que estiveram na base do comportamento dos portugueses, nessa data histórica que agora comemorou 42 anos de existência!
Os que viveram esses momentos difíceis e que felizmente ainda estão vivos para contar como era, não esquecem o passado, nem condenam o presente! Não estão disponíveis para aceitar qualquer revisionismo histórico daqueles que ainda hoje pensam que “antigamente é que era bom…”, ou que as transformações sociais ocorridas com o 25 de Abril resolveram todos os problemas dos portugueses.
Entre um passado e um presente, na distância destes poucos 42 anos e apesar de todas as dificuldades passadas, presentes e futuras, o resultado foi muito positivo!
Por tudo isso…Viva o 25 de Abril!

Luis Barreira

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