Princesas portuguesas em Prangins (Suíça), no séc. XVII

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1872

Por Mariana Sul Mendes

Residia eu na Suíça há uns dois anos, corria o ano de 2010, quando em passeio por Prangins, uma bonita localidade do Cantão de Vaud, me deparei, num muro do largo em frente do Templo de Prangins, com uma lápide em mármore, enquadrada por uma moldura retangular e encimada como que por dois capitéis laterais que me chamou a atenção. Detive-me para ver o que dizia e fiquei surpreendida com a seguinte inscrição:

EMILIE DE NASSAU. PRINCESSE DE PORTUGAL./ BELLE-FILLE DE D. ANTONIO Ier, XVIIIme ROI / DE PORTUGAL, ACHETA LA BARONNIE DE /

PRANGINS EN 1627.

A SA MORT, EN 1629, SA FILLE AINÉE, / LA PRINCESSE MARIA-BELGIA,

ÉPOUSE DE / NOBLE JEAN–THÉODORE DE CROLL, COLONEL, / EN DEVINT PROPRIÉTAIRE.

Na parte superior entre os dois capitéis encontra-se uma outra inscrição, embora com menor relevo, cujo teor é o seguinte:

LA MUNICIPALITÈ DE PRANGINS A / POSÉ CETTE PIERRE À DEMANDE DU / VICONTE DE FARIA HISTORIEN DE DON / ANTONIO EN SEPTEMBRE 1910.

Do lado esquerdo do largo, encontra-se uma placa com a toponímia do local: Place Maria Belgia.

Tendo ficado curiosa com o conteúdo destas inscrições e querendo saber mais sobre esta presença portuguesa na Suíça, resolvi investigar.

Refere-se então esta inscrição a D. António I, XVIII rei de Portugal, ou seja, D. António, Prior do Crato, que foi um dos pretendentes à coroa portuguesa, na crise dinástica de 1580.

  1. António era filho do Infante D. Luís, irmão de D. João III. No entanto, por ter sido considerado filho ilegítimo, foi afastado da pretensão ao trono, decisão com a qual não se conformou, tendo lutado com todos os meios, de que pode dispor, pelo direito a ser rei de Portugal.

Entre os vários pretendentes, que se apresentavam, o mais poderoso era então Filipe II, rei de Espanha, filho do Imperador Carlos V e da infanta portuguesa D. Isabel, filha de D. Manuel I e de sua segunda mulher D. Maria, filha dos Reis Católicos, e para cuja pretensão se inclinava parte da nobreza em Portugal.

  1. António, porém, não desistia. Aclamado rei pelo povo em Santarém, mas vencido na batalha de Alcântara pelas forças de Filipe II, refugiou-se nos Açores onde tinha forte apoio e aí reinou durante algum tempo. Apesar de várias batalhas travadas com Espanha apoiado pelas cortes de França e Inglaterra não conseguiu sair vitorioso e Filipe II, foi aclamado rei nas Cortes de Tomar em 1581, tornando-se rei de Portugal, com o nome de Filipe I. Em 1583, D. António viu-se obrigado a exilar-se em França.

Ainda recordo dos meus tempos de estudante estes acontecimentos mais relevantes da atuação de D. António como pretendente ao trono de Portugal, mas desconhecia, porém, pormenores da sua vida particular e dos seus descendentes, que a leitura desta lápide me revelou e me fez sentir curiosidade em conhecer melhor e se possível transmitir a outros portugueses que hoje vivem e trabalham na Suíça, país que generosamente os acolhe, tal como aconteceu, e aqui se pode verificar, num passado longínquo. Conforme consta da inscrição, esta lápide foi ali colocada em Setembro de 1910, pelo que perfez, nesse ano de 2010, cem anos, que um outro português, António de Portugal de Faria, Visconde de Faria, historiador e ele próprio descendente de D. António, pugnou por perpetuar a presença de tão ilustres antepassados em terras helvéticas.

  1. António fora educado para seguir a carreira eclesiástica, a qual ele desde cedo se recusou a prosseguir por falta de vocação. Depois da morte de seu pai, D. António obteve do Papa dispensa das ordens de diácono que possuía, rompendo definitivamente com os votos que o ligavam à Igreja.
  2. António nunca se casou, mas foi pai de numerosa prole.
  3. Manuel de Portugal nasceu em 1568, filho de D. António e de Ana Barbosa e, durante o curto período em que seu pai reinou, usou o título de Príncipe herdeiro de Portugal.

Tendo acompanhado D. António no exílio para França, encontrava-se na Flandres em 1588, depois em Inglaterra entre 1590 e 1595. Após a morte de seu pai neste último ano em Paris, regressou à Flandres. E é aqui que vamos encontrar a explicação para o aparecimento do nome de Émilie de Nassau, como princesa de Portugal, na lápide de Prangins.

Segundo o Visconde de Faria, no seu livro Descendence de D. António, Prieur de Crato, XVIIIe Roi de Portugal, 2ª ed., Lausanne, 1917, (X) D. Manuel, católico, casou em segredo com Émilie de Nassau, Princesa de Orange, calvinista, que por ele se apaixonara perdidamente, na cidade de Haya, no ano de 1597. Estas diferenças religiosas, a oposição familiar e os desentendimentos relativos ao fraco empenho de D. Manuel nas pretensões ao Reino de Portugal, ainda sob o domínio espanhol, separaram o casal.

  1. Manuel, ficou com os dois filhos católicos e Émilie, doente e desiludida, procurou refúgio na Suíça, estabelecendo-se em Genebra (a cidade de Calvino), em 1626, acompanhada das seis filhas do casal, na Rua Cornavin, numa casa que tinha pertencido às Familias Viry e Gallatin e que ficou conhecida como “Château Royale”.

Mais tarde, em 1627, comprou uma casa situada entre a Rua Verdaine e a rua do Vieux Collège (atualmente o n°7 da Rua Verdaine). Em seguida comprou à família Diesbach, a Baronia de Prangins, entre Nyon e Rolle, no Cantão de Vaud.

Émilie de Nassau, que foi um modelo de fidelidade conjugal, morreu em Genebra, a 16 de março de 1629, com 60 anos, na sua casa da Rua Verdaine.

O seu testamento, com a sua assinatura, data de 22 de fevereiro de 1629.

No funeral, Genebra prestou-lhe honras de princesa e o seu caixão foi coberto com um pano de veludo que de um lado tinha as armas de Portugal e do outro as de Nassau. Foi sepultada, em 18 de março de 1629, na Catedral de Saint-Pierre, na antiga capela de Sainte Croix, que passou a ser denominada Chapelle de Portugal.

  1. Manuel notabilizou-se como militar, tendo participado em diversas batalhas em defesa dos interesses dos Países-Baixos. Posteriormente colocou-se sob a proteção do rei de Espanha, sendo muito bem recebido pela arquiduquesa Isabel que então governava os Países-Baixos, a qual lhe atribuiu uma pensão anual.

No ano seguinte ao da morte de Émilie de Nassau, D. Manuel voltou a casar com uma senhora espanhola, Luísa Osório, dama de honor da Arquiduquesa. Morreu em Bruxelas em 22 de Junho de 1638, com 70 anos de idade.

Maria-Belgia, que dá o nome ao largo fronteiro ao Templo de Prangins, era a mais velha das seis filhas do casal e, devido à sua vida atribulada, tornou-se uma figura quase lendária. Nascida em Delft, em 1599, era dotada de uma rara beleza. A sua tendência para gastos excessivos contribuiu, no entanto, para agravar a situação económica da família, cujos rendimentos não cobriam as grandes despesas. Conforme nos relata Jacques Vincent, i.e., Mme. Bory d’Arnex, no seu romance histórico Trois amoureuses ou Les châtelaines de Prangins au XVIIe siècle, reeditado em Genève, em 1986, Émilie, que se apresentara como viúva, era muito liberal e rapidamente se tornou muito popular em Prangins, tendo começado pela abolição da obrigatoriedade de trabalho gratuito nos seus domínios, seguida da renúncia a muitos dos seus privilégios.

A baronia de Prangins era uma extensa propriedade de origem medieval e feudal que cobria uma vasta região (Vich, Bursinel, Gland, Genolier, Arnex e Givrins).

Segundo Jacques Vincent, estava no destino de Émilie de Nassau, apesar de rica herdeira, encontrar-se sempre em dificuldades económicas, primeiro pelas prodigalidades de D. Manuel, depois pelas tendências gastadoras de Maria Belgia.

Émilie recusara, inclusivamente, receber a  renda que seu irmão Maurice lhe atribuira e às suas seis filhas, por dela discordar,  mantendo um contencioso com seu meio irmão, o príncipe Frédéric-Henri, relativamente aos seus direitos sucessórios.

Entretanto, Maria-Belgia apaixonara-se perdidamente por um gentil jovem alemão de condição humilde, o coronel Théodore de Croll, que fazia parte do séquito do noivo que sua mãe lhe destinara, um nobre calvinista, senhor de uma considerável fortuna. Renunciava, assim, por amor e contra a vontade de sua mãe, a um casamento economicamente muito vantajoso. Para poder realizar o seu casamento com o jovem Croll, Maria-Belgia, apesar de se sentir renegada pela família materna, e de novo contrariando sua mãe, foi à Holanda negociar com seu tio, Frédéric-Henri, com quem conseguiu estabelecer um acordo sobre os seus direitos à herança de Émilie e uma renda para si e seus herdeiros. No regresso, assistiu à morte de sua mãe, em Genebra.

Maria-Belgia, em seguida, fez um acordo com suas irmãs em que estas renunciavam à posse de Prangins a seu favor, assumindo ela todas as dívidas existentes, e regressavam à Holanda, com a criadagem holandesa que viera com sua mãe. Duas delas irão estabelecer residência em Delft, numa casa que ficou conhecida por « l’hotel des princesses de Portugal ».

Tornou-se, então, a única senhora de Prangins, propriedade que elegera para ser o seu reino, integrando-se assim, e mais tarde os seus descendentes, na sociedade da região de Vaud. Algum tempo depois, quando pretendeu, finalmente, casar com Théodore, teve de enfrentar uma situação idêntica à que fora vivida por sua mãe. Seu tio e os Estados Gerais da Holanda, em acordo com as autoridades de Berna de quem, à época, a região de Vaud dependia administrativamente, opuseram-se ao casamento, ameaçando prender o jovem coronel. Então, fugindo durante a noite através de um subterrâneo do castelo, ela foi ao seu encontro e dirigiram-se os dois a Vevey, onde os esperava a mesma oposição. Usando as suas influências, Maria-Belgia, que ao contrário de suas irmãs não era uma calvinista praticante, conseguiu, por fim, realizar o seu casamento numa igreja perto de Berna. Deste casamento nasceram seis filhos, um rapaz e cinco raparigas. A cidade de Vevey aceitou, com entusiasmo, ser madrinha do seu segundo filho, uma menina a quem chamaram Catherine-Emilie e de cuja cerimónia existe no Museu de Vevey um quadro alegórico.

Como sua mãe, o casamento, resultante de uma grande paixão, terminou com a separação, vindo o coronel a morrer assassinado, em circunstâncias misteriosas, na cidade de Veneza, para onde se retirara. Obtido o divórcio, inicialmente negado pelas autoridades de Berna, só e doente, viu-se na necessidade de vender grande parte dos seus bens para pagar as muitas dívidas. Helène-Béatrice, a terceira dos seus filhos e a mais dedicada, substituiu Maria-Belgia na administração de Prangins, até à morte de sua mãe, em 1647. Maria-Belgia foi enterrada ao lado de Émilie de Nassau, na Chapelle de Portugal, na Catedral de S. Pedro, em Genebra. Uma vez mais, à semelhança de sua mãe, a sua morte foi ignorada pela poderosa família holandesa a que pertencia e a sua memória perpetuada pela generosa cidade de adoção.

De acordo com Pascal Hoffer em Prangins: Entre campagne et château, editado em 2003, por iniciativa da municipalidade de Prangins, em 1647, no ano da morte de Maria Belgia, Prangins ficou para o seu filho mais velho Berne-Théodore, afilhado da cidade de Berna. Tendo morrido sem descendência, em 1656, as autoridades de Berna ordenaram a liquidação dos seus bens.

Helène-Béatrice casou com o jovem Louys d’Arnex, vassalo de Prangins, do qual teve um filho, Jacques, tendo morrido do parto, em 1650.

Num artigo intitulado Maria Belgia e publicado em La Tribune de Genève, a 17 e 20 de Fevereiro de 1908, Marie de Schlesinger-Thury afirma que as cinco filhas de Maria Belgia e do coronel Théodore de Croll, « toutes épousèrent de simples gentilhommes du Pays de Vaud ; ce qui fait qu’il y a chez nous un peu partout des bons bourgeois qui ont, sans toujours s’en douter, quelques gouttes de sang royal dans leurs veines républicaines. »

Mais tarde, o velho castelo feudal na posse de um novo proprietário, o barão Louis Guiguer, foi arrasado e em 1732 iniciaram-se as obras de construção do novo castelo, cujas dependências albergam, atualmente, o Musée nationale de Prangins.

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