Portugal Open, 2ª edição em Grône

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Portugal Open 2017 (foto Henrique Bessa) – Os organizadores e os convidados do evento num dos miradouros da cidade de Sierre

Segunda edição de Portugal Open em Grône – um evento cultural que tomou uma nova dimensão – com mais público e uma programação diversificada e de qualidade. “São dois dias que me marcaram pela positiva” confessou a escritora Olinda Beja, com entusiasmo e simpatia. O jantar-concerto de Luís Portugal ficou com lotação esgotada quase duas semanas antes do evento. E uma festa que tem ainda mais potencial para crescer junto dos suíços.

Portugal Open, 2a edição em Grône
Uma festa da cultura que entusiasmou público e convidados
Um programa cultural “exemplar” duma excecional qualidade

Na magnífica sala Recto Verso em Grône, perto de Sion, decorreu a segunda edição de Portugal Open organizada pela APS (Associação de Pais da Escola Portuguesa de Sierre). O programa com inúmeros convidados atraiu o grande público e em particular as crianças e os jovens.

Os professores de português deram uma preciosa ajuda na organização deste evento. As conferências e os debates tiveram muito sucesso bem como a feira dos livros. Durante dois dias foi possível falar de cultura e de literatura portuguesa no centro do Valais. O jantar de sábado, esgotado praticamente duas semanas antes, foi um dos grandes momentos deste evento. Mais de 500 pessoas assistiram à prestação de Luís Portugal que cantou alguns grandes sucessos, nomeadamente de Max (Nem Às Paredes Confesso), de Miguel Araújo (Pica do 7) e de Tim Timebomb (Be Yourself). Os atores José Carlos Pereira e Teresa Macedo juntaram-se a Luís Portugal e ao guitarrista Rui Vilhena num momento de grande cumplicidade.

O Sr. Cônsul-Geral de Portugal em Genebra, Dr. Miguel de Calheiros Velozo, a Adida social da Embaixada de Portugal em Berna, Dra. Ester Vargas, e a Coordenadora do Ensino de Português, Dra. Lurdes Gonçalves, mostraram um grande entusiasmo pela qualidade deste encontro cultural.

A aprendizagem da leitura, segundo António Mota, é comparável a andar de bicicleta. No início é muito difícil até doloroso. Há sempre algumas quedas, mas depois pode se andar à vontade e tudo é permitido. Escrever em 77 palavras (ver o site www.77palavras.blogspot.pt) obriga a uma síntese, segundo Margarida F. Santos, e a eliminar tudo o que é inútil. O facto de escrever exige uma grande disciplina como no universo da música. Falou-se também da importância da oralidade. Para transmitir o gosto de ler, os contadores de estórias têm um papel determinante. Afinal, a nossa vida é um conjunto de estórias. Este evento teve também presenças de relevo além dos escritores referidos: Francisco Moita Flores, Fernando Seara e Celeste Almeida. Um evento impossível de organizar sem a ajuda e a boa vontade de muitos voluntários, em particular os jovens. Parabéns pelo empenho e dedicação.

Entrevista com Olinda Beja, professora, escritora e contista

Tivemos o privilégio de encontrar Olinda Beja, escritora natural de São Tomé e Príncipe. Sempre com boa disposição e alegria falou da sua vida, da sua obra e dos seus anos vividos na Suíça, em Lausanne.

“Sou natural de São Tomé e Príncipe, a viver em Portugal e com a recordação da Suíça. Agora já estou reformada. Só costumo dizer que já não tenho casa, já não tenho sítio certo para morar. Ando pelo mundo. Porque com esta profissão… Vivo em Viseu, no interior, nas terras do frio. Vivi 10 anos aqui na Suíça, foram anos maravilhosos, foram anos que ainda hoje me trazem saudade. Tenho é que dizer que me custou a adaptar-me. Um exemplo: nos outros países da Europa e sobretudo na África estamos habituados a falar alto. Nós expressamos muito, nós rimos muito e ao chegar à Suíça notei que havia um certo silêncio neste país, a partir duma certa hora e não só. Eu vivi sempre em Lausanne, sempre na mesma rua e no mesmo prédio e de repente dei comigo no mundo do silêncio. Isto em 2005 foi complicado, mas as coisas melhoraram a partir do momento em que eu comecei a adaptar-me, a ter amigos suíços, havia colegas casadas com suíços, a partir desse momento é que eu comecei a descobrir a cultura suíça. Tenho que lhe dizer que eu li muito.”

A sua vida na Suíça

“Li alguns autores suíços mas li sobretudo livros didáticos, livros que falavam de Lausanne, da cidade e livros sobre a história da Suíça. É a história dum povo também que sofreu muito, há 100 anos atrás. Depois eu comecei a andar à procura. Por exemplo, no autocarro eu travava conhecimento com pessoas de idade, queria que me falassem da Suíça, do antigamente, como era dantes. Gosto imenso de encontros. Nós aprendemos muito na escrita, mas também muito relacionando-nos com os outros. E sobretudo quando volto à Suíça é uma alegria muito grande. Fui-me embora em 2015.

Fico contente quando venho à Suíça. Tenho saudade da Suíça e muita saudade dos transportes da Suíça: dos comboios, dos autocarros, dos barcos. O meu dia de folga era à segunda-feira. Então com o passo social, o “abonnement général”, isso foi uma autêntica liberdade. Fez-me descobrir e amar a Suíça. Deu-me um sentimento de liberdade. Isso foi maravilhoso.”

As suas obras

“Tenho 17 obras publicadas. Comecei a escrever muito jovem, aos 15-16 anos. A minha primeira publicação data de 1992. O romance “15 Dias de Regresso” teve o maior sucesso e vai passar em filme, feito no Brasil. Vai ser reeditado e penso traduzido em francês. Não tenho obras traduzidas em francês, mas tenho poemas e contos traduzidos em francês, inglês, chinês. E neste momento tenho um livro que está a ser traduzido em árabe. Contos e poemas soltos, mas não um livro. Sabe que o meu país é um país muito pequeno, um país da lusofonia que beneficia de pouca ajuda, nós vivemos com bastantes dificuldades. E isso nota-se até a nível editorial. Não temos uma editora, temos que editar em Portugal, não existe ajuda do governo. Se nós falarmos de Angola e de Moçambique, esses escritores têm condições diferentes, são países ricos.”

O que é que lhe agrada na Suíça?

“Na Suíça, depois de me ambientar, agrado-me tudo. Até a “raclette” (risos…)”

Sobre Portugal Open 2017 em Grône?

“Tenho a dizer que de todos os encontros em que eu tenho assistido na Suíça, assisti e participei a muitos encontros culturais, ao nível da cultura está a ser dos melhores. Está a ultrapassar todas as minhas expectativas. Ao nível da organização e do programa cultural. Porque, de maneira geral, a cultura portuguesa limita-se aos ranchos folclórico e mais nada. Ranchos e talvez futebol. Os organizadores souberam trazer uma cultura diferente. Vieram 5 ou 6 escritores. Não é qualquer associação de pais que se lembra que a cultura se faz com literatura e que convida uma verdadeira panóplia de escritores.”

Tem que se continuar?

“Acho que sim. Se não for todos os anos, pelo menos que seja bienal.”

E que haja uma certa continuidade. Gostaria de voltar para o ano?

“Eu gostava de voltar, sim, sim. Para mim eu estava cá sempre (risos…). Tenho saudade dos meus alunos, tenho saudade das paisagens. Aliás ontem veio aqui de propósito uma colega com os alunos para eu contar estórias para eles. Foi maravilhoso. Está a ser maravilhoso. São dois dias que me marcaram pela positiva. Tenho mais energia agora.

Engraçado, eu vou chegar a Portugal e, passado 8 dias, vou para Cabo Verde. Também para um evento cultural. Eu ontem era para ter cantado “Sodade” de Cesária Évora, mas não havia as condições necessárias. Eu era amiga da Cesária. Ela era de Cabo Verde e foi descoberta por um francês, não por um português. Uma voz lindíssima, a sua forma e maneira de estar, uma simplicidade… Aliás tenho um livro já esgotado que tem vários poemas dedicados a ela.

A mensagem que eu quero deixar? Deem livros aos filhos, incutam-lhes o gosto pela leitura, não só leitores de português mas também de francês, do país onde estão, mas que leiam muito. Quando fazemos encontros de contadores de estórias, nós apercebemo-nos que temos muito mais leitores. Ontem eu contei estórias e depois de contar houve miúdos que vieram comprar livros. A leitura é um ato solitário, mas parte da oralidade. Neste género de evento é importante convidar contadores de estórias.”

Texto e fotos Clément Puippe
www.cptraductions.wordpress.com

O concurso dos galos de Barcelos – os alunos demonstraram talentos promissores
Margarida F. Santos, uma dedicatória de último minuto no autocarro da partida – os miúdos mostraram curiosidade e interesse pela cultura portuguesa pedindo autógrafos
A sala Recto Verso em Grône – a festa foi dentro e fora durante dois dias de sol
José Carlos Pereira, mais conhecido por Zeca – a presença deste ator foi um momento forte deste acontecimento
O sorriso dos organizadores no final do evento – uma grande satisfação da APS, a sua presidente, Irene Casimiro e o vice-presidente, Luís Chaves
Neste evento houve boa literatura e também excelente música com Luís Portugal, Teresa Macedo, Zeca e Rui Vilhena – um sucesso enorme
O escritor António Mota com uma jovem leitora – uma disponibilidade e uma atenção ímpares
A atriz Teresa Macedo em conversa com duas admiradoras
Uma sala repleta com mais de 500 pessoas em Grône
Francisco Moita Flores e Ester Vargas, Adida social da Embaixada de Portugal em Berna durante a mesa redonda / foto Canal 9 www.canal9.ch
Um primeiro prémio – uma enorme satisfação para o João
Christine Pompéï durante a feira dos livros
A Tuna Helvetica e o sol brilhou no Valais
A professora Amélia Pessoa – uma dedicação de todos os instantes em prole do sucesso deste evento – com a prioridade nos alunos e nos escritores
A escritora de Lausanne, Christine Pompéï e a sua família gostou de descobrir um verdadeiro universo português no Valais e de apoiar esta nobre causa – Operação Nariz Vermelho
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