O realizador José Vieira esteve em Genebra

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“O cineasta do país onde nunca se regressa”

No seguimento das comemorações do 25 de abril, pela Associação 25 de Abril de Genebra, nos passados dias 1 e 2 de junho, o realizador José Vieira esteve em Genebra para falar dos seus filmes, no cinema Spoutnik, e dar a conhecer um ciclo de 3 filmes, que foram apresentados. Um destes serviu de debate com o realizador. O realizador nasceu em Portugal no ano de 1957 e chegou, ainda criança, nos anos 60, a França, na região de Paris. Formado em Sociologia, sempre se interessou pelas temáticas da emigração e da imigração, dois fenómenos com vertentes bem definidas e interligadas pelas motivações, se bem que com implicações diferentes. Assim sendo, todos os filmes tratam da emigração nos anos 60, em que milhares de portugueses chegaram a França para fugir à miséria, à guerra colonial e à repressão do regime de então.  Tivemos a oportunidade de falar com o realizador José Vieira em Genebra.

–Quando se diz que o José Vieira é o cineasta do país onde nunca se regressa, é mesmo assim?

José Vieira –Para mim, claro, é mesmo assim. Quer dizer, para mim regressar a Portugal não é tema de atualidade, como se diz. Mas bem, mais a sério, o problema é que as pessoas saíram de um país que em 40 anos mudou completamente, as pessoas nunca regressam ao país que se deixou, simplesmente é a isto que me refiro. Ao lugar onde se regressa, as pessoas mudaram, nós também somos outras pessoas, portanto não há regresso, as pessoas podem ir outra vez para Portugal, mas o regresso ao país que se deixou, não existe, porque, entretanto, com os anos, tudo mudou; mudaram as pessoas, o país e nós também mudámos. Por isso é porque as pessoas muitas vezes não conseguem adaptar-se, porque emigraram novas e regressam a Portugal com uma certa idade. Sim, posso ser o cineasta do país onde nunca se regressa, sim.

— Como cineasta, para si, as memórias fazem parte do passado ou do presente?

José Vieira—O filósofo St. Augustin dizia que a memória é o presente do passado. Para mim é exatamente isto o que representam as memórias. Quando se fala do passado, se não há uma ressonância no presente, então não vale a pena de falar-se e reviver as memórias. Erguem-se estátuas em nome dos emigrantes, mas por vezes não se fala dos problemas por que passaram os emigrantes, e tudo o que passou em torno do fenómeno da emigração. Sim, as memórias são o presente do passado.

–Mas os problemas dos dias de hoje são diferentes dos anos 60?

José Vieira – Completamente, sim. Os problemas são diferentes e as pessoas também já não pensam da mesma forma nos dias de hoje. As aldeias também são muito diferentes do que eram nos anos 60.

–. Revê-se no conceito da emigração da “mala de cartão”, como foi conhecida a emigração para França, nos anos 60, e que foi mais ou menos quando o José Vieira foi ter com os seus pais a França com 7 anos de idade?

José Viera –Sim, completamente. Mas devo confessar que não gosto muito da ideia da “mala do cartão”, claro que se revê tal na cantora Linda de Souza, que reconheço que teve um papel importante no seio da comunidade portuguesa em França. Mas o que caracteriza os anos 60 é o “salto”. Pessoas sem mala, justamente, sem nada e que deram o salto para fugir da guerra e foram para França. Foram milhares de pessoas que foram para França sem bagagem, portanto sem mala. Eu cheguei a França no ano de 1965, numa altura em que havia poucas famílias reunidas, morei cinco anos num bairro de lata perto de Paris, vivi uma emigração um pouco complicada, digamos assim.

–Sei que regressou a esses bairros de lata para fazer um documentário com os romenos?

José Vieira – Não foi com a intenção de fazer qualquer tipo de comparação que regressei a esses bairros para falar com os romenos.  São situações diferentes e são emigrações diferentes também. Nós emigrámos para França num período em que o país precisava muito de mão de obra, hoje essa necessidade é menos evidente. Claro que ainda existe essa necessidade, mas não é tão evidente. Mas, nos dias de hoje, politicamente, é muito mais complicado. O que fiz foi andar a filmar, durante dois anos romenos nos bairros de lata na região de Paris, um grupo de cerca 200 pessoas, então, quando estava a fazer o filme, senti os tempos quando vivi também no bairro de lata. Posso dizer que faço cruzamento das histórias do que eu vivi com as dos romenos nos dias de hoje. Posso dizer que a filmar os romenos reencontrei a minha história quando vivi no bairro de lata. Senti sensações de quando era pequeno.

–Pode falar-nos do seu próximo projeto?

José Vieira—Sim, claro, não tenho nada em segredo. É um filme em que estou a trabalhar sobre a fronteira, a passagem da fronteira entre Irun e Hendaya, e o filme começa com os portugueses e vai cruzar histórias de emigrações diferentes , ou seja, começa com os portugueses e depois cruza com os africanos que estão a chegar a essa fronteira nos dias de hoje, e depois os espanhóis passaram por lá… um cruzamento de histórias e de vidas de diversas gerações e nos dias de hoje são os africanos… Já estou no terreno, encontrei pessoas do Mali, Sudão, Eritreia, entre outros, e as razões são um pouco as mesmas de há muitos anos; guerras, ditaduras, repressões e miséria. Se ouvirmos os portugueses que fizeram o “salto”, aquando da guerra colonial, e os africanos que têm uma tarefa muito mais difícil nos dias de hoje, têm de passar o deserto, o mediterrâneo, etc., Líbia, Argélia e Marrocos…, mas as palavras são as mesmas, dizem a mesma coisa; e no filme vamos ver as mesmas expressões. Este processo é um ciclo.

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