O “Muro de Berlim” caiu?

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Luís Barreira
Luís Barreira

Ao escrever hoje este breve apontamento ainda pensei que nos poderíamos divertir com as (não) histórias do recente Congresso do PSD, nomeadamente aquelas que envolveram o súbito aparecimento do Professor Marcelo Rebelo de Sousa (a “estrela”, designada pelo seu presidente como o “catavento das ideias erráticas”) no recinto das “promoções a candidatos”, o “desenterrar” do “imprescindível” Relvas (cereja no topo do bolo de aniversário do PSD), ou ainda a proposta do seu “Grande Líder”, ao decidir criar mais uma comissão (entre as mais de 200 que já criou para dar trabalho ao seu eleitorado próximo), para inverter a baixa natalidade do nosso País, depois de arruinar e destruturar as nossas famílias em idade de reprodução!…

Poderíamos ainda, com alguma dose de sarcasmo, especular sobre a recente nomeação de Vitor Gaspar (anterior Ministro das Finanças deste Governo) para o cargo de Director do FMI, quando há poucos meses era responsável por defender os interesses de Portugal, face às exigências desse membro da “troika”!…

No entanto, há assuntos que, pela sua gravidade e impacto na vida desta Europa e do mundo, que devem merecer muito mais a nossa atenção. Refiro-me aos acontecimentos que todos os dias se desenvolvem na Ucrânia!

O mundo assistiu, em directo, a uma revolução popular contra os dirigentes corruptos de um país europeu, que parecia ter culminado com a vitória dos revoltosos e a expulsão dos antigos dirigentes.

Sendo a Ucrânia um enorme desconhecido da maioria dos povos europeus do Ocidente e nomeadamente dos portugueses (pese embora a enorme comunidade de ucranianos que residem e trabalham em Portugal), esta revolta, pelos motivos que estavam na sua génese e por se tratar de um povo que defendia valores que nos são gratos e a aproximação à União Europeia, foi sendo vista por nós, com simpatia e apoio. No entanto, e desde logo, se percebia que se tratava de algo muito difícil de atingir, não só porque: o novo poder transitório dos revoltodos não assentava “na ponta das espingardas”; o País se situava na zona geo-estratégica de influência da Rússia (com as suas várias bases militares na Crimeia); os países da União Europeia, actualmente mais preocupados em arrumar as suas casas do que a ajudar a casa dos vizinhos, não estariam na disposição de “despejar” na Ucrânia alguns milhões de dólares, para a salvar da bancarrota ou tentar fazê-lo por “imperativos” de alargamento de mercado, arriscando-se a um conflito bélico em larga escala e os EUA, para além da retórica habitual de circunstância, não parecem querer alargar as zonas de guerra em que já estão envolvidos.

Nestas condições, foi com visível impotência que vimos o exército russo invadir (por agora…) a Crimeia, tal como a URSS o fez na antiga Checoslováquia e a evocar a salvaguarda do bem estar dos cidadãos russos que residem em algumas regiões ucranianas, como é o caso da Crimeia, com o mesmo tipo de razões aparentes que levaram Hitler a anexar a Áustria, durante a II Guerra Mundial!

Embora a situação interna ucraniana continue confusa, mas cada vez mais difícil de sustentar para aqueles que, com “paus”, se oposeram à dependência política da Rússia, mas que continuam a depender fortemente das relações económicas com esse País, o futuro desta contestação parece jogar-se agora nas “negociatas” entre o “Urso” , o “Tio Sam” e a débil União Europeia, que conduzirão uns a salvar a sua zona de “protecção”, outros a salvar a “face” e outros a salvar a “pele”. Quem não se salvará desta tutela de interesses será o povo ucraniano, cujo “sonho” esbarrou com uma realidade desfavorável!

É cruel adivinharmos o que se vai passar e talvez os media ocidentais recebam “ordens”, para nos desviar a atenção do desenrolar dos acontecimentos, que expressam a inutilidade de tantos tratados, leis internacionais e fóruns criados para manter a paz, quando o que está em jogo afecta interesses económicos e militares das grandes potências.

Os princípios e os valores em que assentou a reconstrução desta velha Europa (e que alguns querem desvirtuar a seu belo prazer…), criaram excessivas expectativas ao povo ucraniano, levando-os a uma aventura que, esperamos, não se torne demasiado trágica.

Em jeito de conclusão, que espero ser errada, parece que em pleno Século 21, regressámos a meados do Século 20. Será que o “Muro de Berlim” caiu?

Luis Barreira

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