O Maestro João Tiago Santos

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Fomos ao encontro do Maestro João Tiago Santos, natural de Lisboa, 42 anos de idade, casado com uma cidadã russa, e vive na Suíça desde o ano de 2010. Assistimos a um ensaio do coro  de Illnau-Effretikon, da  Igreja  Reformada de Effretikon, que é uma igreja do modernismo pós guerra no cantão de Zurique,  da obra “ Paixão segundo São Mateus”, do autor Carl Philipp Emanuel Bach, que é dos filhos do famoso Johann Sebastian Bach, cuja obra foi escrita e apresentada na Páscoa de 1769. O coro foi acompanhado pela orquestra Sinfonietta de Zurique. E na verdade foram momentos inolvidáveis poder assistir à eloquência e ao empenho de todos elementos no ensaio para a apresentação desta obra, que foi levada ao público nos passados dias 14 e 19 de abril. O Maestro João Tiago Santos não deixou nenhum pormenor ao acaso e a concentração, a alegria, a exuberância no empenho do coro, muitos deles com uma idade muito avançada, foram notas de relevo nesta nossa reportagem. Para não falar na excelência dos músicos da Sinfonietta, alguns deles portugueses, que com o seu profissionalismo tomavam apontamentos nas suas pautas, consoante o Maestro João Tiago Santos lhes ia dando indicações, e o resultado foi sublime. No final, falámos com o Maestro.

–Pode-nos dizer como foi o seu percurso musical até aos dias de hoje?

— Desde jovem, desde muito pequeno, sempre cantei em coros de crianças, em coros juvenis, e sempre estive ligado ao canto, até porque os meus pais cantavam na altura no coro da Gulbenkian, como o meu irmão. Mais tarde, fui fazendo o meu percurso, também cantei no coro da Gulbenkian, cerca de 8 anos, e essa experiência começou a interessar-me pelo lado da direção de coros e até de orquestra. Estive ainda um ano na orquestra do Algarve e daí decidi ir para a Rússia, por recomendação de um professor que tive em Portugal. No início fui um pouco à experiência para ficar 6 anos na Rússia. Entretanto, quando terminei o curso na Rússia de direção de orquestra, coloquei a questão para onde iria a seguir. Uma pianista portuguesa que esteve na Rússia e que tinha vindo para a Suíça é que me disse que com frequência necessitavam de maestros de coro e decidi tentar e foi assim que cheguei até este país. Depois na Suíça, na escola Superior de Artes, ainda fiz mais um mestrado em direção de coro. Tinha começado em Portugal na escola Superior de Lisboa, e podemos dizer que terminei aqui na Suíça.

–Tem um projeto paralelo, o qual tem o nome de Sinfonieta, e no qual participam vários músicos portugueses. Será que a comunidade portuguesa em geral se apercebe desta realidade de elite musical?

Maestro João Tiago Santos — Talvez, mas a verdade é que quem está dentro do meio sabe que existem muitos músicos portugueses e num nível muito bom, e isso é o mais importante. É algo que me alegra imenso, tenho de dizer que os músicos portugueses que nós temos, que os tenho com imenso gosto, estão cá, não é por serem portugueses, é porque são muito bons. São muito talentosos. É uma dupla alegria. É um projeto internacional…

–Mas como teve início esse projeto?

Maestro Joao Tiago Santos – Esse projeto iniciou-se com um concerto que fizemos com a criação de Hayden, em que foi preciso juntar uma orquestra. Surgiu desse processo de juntar músicos, de forma espontânea, há cerca de cinco anos, e com o tempo temos vindo a reforçar o grupo, porque todos os músicos são freelances, assim, tenho sempre de ver a disponibilidade de cada um, mas o objetivo é criar um grupo que toque com frequência junto, porque isso cria certos automatismos, porque a qualidade é um ponto muito importante para todos nós. Na Suíça a qualidade é premiada, e como tal é fulcral que procuremos o melhor. O nosso projeto tem músicos portugueses, mas também de outras nacionalidades.

–Será que existe um défice na formação musical dos portugueses?

Maestro João Tiago Santos – Eu não diria isso. Neste momento temos portugueses a entrar para as principais orquestras da Europa. O que talvez haja, apesar de eu não ter um conhecimento muito profundo sobre o tema, mas o que reparo é que a maior parte dos músicos que aqui chegam tocam instrumentos de sopro, seja trompa, oboé, flauta, clarinete, fagote, tuba, temos músicos fantásticos. Agora chegam muitos poucos instrumentistas de cordas, mas os que chegam são de um nível fantástico. Temos, por exemplo, o Ricardo que é um músico fantástico, com o seu violino, e acaba de conseguir um lugar na orquestra de S. Gallen. Por exemplo, neste ensaio, tivemos cinco músicos portugueses, quatro de sopro e um de cordas, e acho mesmo que a proporção é essa.

–No ensaio que acabo de assistir, vejo um grupo coral de uma certa idade, mas com uma imensa qualidade e uma enorme alegria quando cantam e todos os olhos apontados na sua pessoa. Como é possível?

Maestro Joao Tiago Santos – Como dizem os alemães, nada aparece ao acaso. Se não houver um foco de atenção, o grupo perde força, como na peça que ensaiamos, em que Pilatos pergunta ao povo quem é que quer que soltem, se querem que se solte Jesus ou Barrabás  e eles gritam “ Barrabás, Barrabás”. Neste género de canto, se o grupo não estiver coeso, bem junto, se forem um pouco por si, não vão soar tão bem como estivessem juntos e em uníssono. Como tal, toda esta energia que se dá nos ensaios é muito importante e faz com que depois tudo corra bem. Ou seja, empenho, qualidade e trabalho.

–Tem algum contato com a comunidade portuguesa, e como esta se pode aperceber deste mundo totalmente diferente e tão eloquente?

Mastro Joao Tiago Santos – Já fizemos um projeto com música portuguesa. Tenho de voltar a referir que o projeto da Sinfonietta não é apenas português, é um projeto internacional. Evidente que tem uma marca portuguesa, e foi com o objetivo de levar a música portuguesa aos suíços, e na verdade não foi um projeto exclusivo para a comunidade portuguesa. Eu prefiro fazer algo com uma clara identidade, depois pode haver quem goste e pode haver quem não goste. Nós trabalhamos na área da música clássica, e claro que ficaríamos muito agradados se a comunidade portuguesa aderisse às nossas iniciativas. Mas tenho de dizer que temos uma identidade musical clara e definida. Trabalhamos em projetos de excelência, e felizmente temos muitos portugueses que assistem aos nossos concertos. Conheço mais de 40 músicos portugueses na cidade de Zurique, claro que eles são comunidade portuguesa também.  Reconheço que estamos numa área muito específica. Em Luzerna tenho uma excelente relação com a comunidade portuguesa, um enorme carinho e como se sabe foi o Padre Aloísio Araújo que me casou, e como tal fazemos parte da comunidade portuguesa. Agora, numa área musical de excelência, espero na verdade que muitos portugueses possam vir a conhecer esta realidade.

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