“Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o mundo de alguém”

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O Frei Fernando Ventura abraçou o projeto de solidariedade no Príncipe, em favor das crianças e dos idosos. Tem conseguido, nos últimos anos, manter o apoio mínimo necessário para que não faltem os bens existenciais. Mas é uma tarefa árdua e muito difícil. O Frei Fernando Ventura tem um percurso de abraçar causas nas quais se envolve com paixão e dedicação em favor dos mais desfavorecidos. O apelo à dignidade em nome de quem não tem nada. O Frei Fernando Ventura vem à Suíça no próximo mês de fevereiro de 2020.

— Porquê todo este empenho com a Casa Betânia, em São Tomé e Príncipe?

Frei Fernando Ventura –É o empenho pela luta e pela dignidade da gente que está na periferia da periferia da história. A ilha do Príncipe é uma ilha de uma ilha e São Tomé é uma ilha do mundo e uma ilha onde eu vi, pela primeira vez, aquilo que eu chamo de miséria sem esperança. Não me sinto bem no mundo onde há gente na miséria e muito menos miséria sem esperança. A casa Betânia é este sinal de que é possível devolver a esperança aos desesperados. É possível dar o mínimo de dignidade a gente que tem o direito de ser pessoa até ao fim.

–Estas pessoas sentem-se, de alguma forma, abandonadas?

Frei Fernando Ventura—Não completamente  abandonadas; felizmente, a grande presença, nesta ilha,  está nas mãos da Igreja católica, nas mãos de dois gigantes, de duas senhoras açorianas, de duas  religiosas, a irmã Eufregina e a irmã Maria, uma com mais de 80 anos e a outra com mais de 75 anos de idade, que são a esperança, o sorriso, a comida, o aconchego e o colo de todas aquelas pessoas da ilha, dos idosos e das crianças. São as duas faixas da população em situação de maior vulnerabilidade, até porque muitas das pessoas que podem trabalhar tentam emigrar para fora do Príncipe e nem sempre conseguem a condição para se poderem manter a si próprias, quanto mais os filhos ou os pais que ficam na ilha.

–Como é que o Frei Fernando Ventura descobriu esta realidade?

Frei Fernando Ventura – Por acaso e quase sem querer. Há dez anos que trabalho em São Tomé e caí lá por acaso. Há dez anos, no mês de janeiro, dei-me conta de que não tinha nenhum compromisso em Portugal, e eu, que já estive nos PALOP quase todos, falta-me apenas ir a Guiné Bissau,  e enviei um e-mail a oferecer os meus serviços, sou Biblista de formação, tinha pontos da TAP para gastar, não iria ficar pesado a ninguém, e o primeiro endereço que me apareceu foi o do Bispo de São Tomé, que eu nem sabia quem era no momento, mas mais tarde vim a saber que tínhamos sido colegas em Setúbal, no tempo de D. Manuel Martins. E meia-hora depois de ter enviado o e-mail, recebi um de volta a dizer “anda já amanhã”. E caí assim em São Tomé. Apercebi-me da angústia que o Bispo estava a viver nessa altura, porque o único orfanato da ilha da Cáritas, naquele tempo, só tinha leite para três semanas. E na brincadeira dissemos que fundámos um Banco numa noite de copos, e estávamos com um copo de água na mão, claro que me refiro ao Banco de Leite. Conto muitas vezes esta história. Tive a oportunidade de falar com diversos jornais, e o Expresso fez um trabalho comigo e a mensagem passou. Eu cheguei no final do mês de fevereiro desse ano, e já tinha leite até dezembro. Associaram-se diversas pessoas, das gentes das artes, e temos conseguido ao longo destes dez anos o fluxo constante de bens consumíveis para crianças e idosos de apoio ao projeto de desenvolvimento integrado, que conta com pessoas de enorme boa vontade. É a economia social a funcionar, as mais-valias geradas pelo projeto são investidas, não há contas paralelas ou sacos azuis e nos últimos dois anos, sobretudo, temos de responder a uma emergência que apareceu no Príncipe, uma ONG que lá estava saiu e ficaram abandonadas as crianças e os idosos que são estas duas irmãs religiosas  e a Cáritas e todos tentam fazer o melhor que podem.

–Quem pode ajudar?

Frei Fernando Ventura – Todos podem ajudar. Muitas vezes eu digo que gostava que alguém me desse um milhão de euros, mas preferia que tivesse um milhão de pessoas que me desse um euro. Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o mundo de alguém. Não podemos tirar a fome no mundo, mas podemos tirar alguém do mundo da fome. Isto é voltar ao evangelho, é voltar às raízes, é redescobrir a aritmética que pode salvar o mundo e a história. É dividir para multiplicar e somar sem subtrair nada a ninguém. Muitos países estão na situação de pobreza e de miséria, porque houve muita gente a somar e subtraindo tudo aquilo que podia e a multiplicar sem dividir nada por ninguém. O segredo está na reinvenção e em refazer a aritmética. Dividir para multiplicar e somar sem subtrair nada a ninguém. Isto faz-se com os pobres, só os pobres é que as entendem.

–Será que os valores como a solidariedade, a respeitabilidade, a ética ainda existem?

Frei Fernando Ventura – Existem, mas andam abafados por ideologias. Isto é um tempo solteiro de afetos, de ultimações e divorciado de compromissos. Geneticamente nós somos animais gregários e o esforço tem sido feito para nos isolarmos. Nós, divididos, somos perfeitamente manobráveis e aquilo que me dói, aquilo a que estamos a assistir, neste momento, é um pouco à revolta dos “ventres ao sol”, recordando Fernão Lopes. Não se sabe muito bem por que se grita, mas grita-se. Grita-se, acima de tudo, porque a esperança foi esmagada, e grita-se porque os messias que se anunciaram têm todos pés de barro. Estou a falar de todos os países, da América Latina, de Portugal e dos n focos de micro ou macro revoluções, que estão a acontecer por todo o lado. A gestão social ou política dos países não está a ser feita por estadistas em lado nenhum, está a ser feita por politiqueiros. Um estadista tem um horizonte de esperança para o seu país para 10, 20 ou 30 anos, um politiqueiro tem uma esperança até às eleições seguintes. Perdemos o horizonte do coletivo. Transformamo-nos em árvores queimadas por causa de afetos inconsequentes. Por causa de propagandas muito bem montadas, que nos fazem crer que a Alice ainda mora cá no país das maravilhas.

–Conhece a Suíça?

Frei Fernando Ventura –Não muito. Estive há muitos em Genebra a fazer uma semana bíblica, em St. Clotilde, com a comunidade católica, estive no CERN, por duas vezes, e não mais voltei lá. Atualmente vivo mais em Itália do que em Portugal.

–Mas voltaria?

Frei Fernando Ventura—Sim, claro que sim e com muito gosto.

https://www.gofundme.com/f/bethany-house-for-the-elderly

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