Morreu o Manuel Beja

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Morreu um amigo e um impulsionador do nosso jornal. Morreu o primeiro sindicalista português na Suíça e que deu a cara por muitas lutas pela comunidade portuguesa. O Manuel Beja foi um homem que defendeu sempre as suas ideias e convicções. Um homem de esquerda que esteve sempre ao lado de quem necessitava e de quem sentia na pele as injustiças no mundo do trabalho. Militante do PCP e membro ativo da ODN (Organização da Direção Nacional do Partido Comunista Português na Suíça). Um homem que defendeu sempre com grande firmeza a sua Associação Portuguesa de Zurique, a APZ. A APZ era a sua segunda casa e nutria uma enorme paixão por esta coletividade. Aliás, sentia com enorme pesar o desmantelamento do movimento associativo português na Suíça. Mas, foi nesta coletividade que falei com o Manuel há cerca de mês e meio. Voltei a falar ao telefone com o Manuel quando saiu do hospital em Portugal, há cerca de 4 semanas, quando me disse que tinha tido uma pneumonia. O nome do Manuel Beja irá estar sempre associado ao nosso jornal, dado que apoiou sempre a ideia de um jornal com o nosso perfil e que abordasse apenas temas da nossa comunidade. Foi ator principal em imensas peças jornalísticas, como nos concedeu uma entrevista há pouco mais de um ano. A sua preocupação era sempre o bem-estar dos portugueses, dado que ele sabia das imensas injustiças e discriminações que muitos dos nossos conterrâneos sofriam (sofrem) em terras helvéticas. Especialmente aqueles que não têm uma grande formação, ficando à mercê de todas as situações, que por vezes não são tão claras. Ele sabia e lutou sempre por uma informação direta e transparente. Fui testemunha das imensas sessões de esclarecimento que realizou um pouco por toda a Suíça, alertando os mais incautos e disponibilizando-se sempre em ajudar. Um homem que muitas vezes não foi bem compreendido levando-o a sair da vida sindical com alguma tristeza. O Manuel Beja queria continuar a estar presente e a ser uma mais-valia como foi durante décadas. Um homem que foi o fiel interlocutor da comunidade portuguesa da Suíça junto da imprensa e das instituições. Foi Conselheiro das Comunidades, fez parte do Conselho da Europa, e foi o promotor de grandes debates junto da nossa comunidade. O Manuel Beja falou-me há meses que tinha chegado o tempo de escrever as suas memórias. Honestamente não sei se chegou a fazê-lo ou não. Espero, muito sinceramente, que o tenha feito e que a família nos possa dar a conhecer o seu conteúdo, porque temos a certeza de que são um testemunho vivo, real, pragmático, histórico, da vida dos portugueses nos últimos 40 anos na Suíça. As lutas em que participou por uma reforma antecipada no setor da construção civil, pelo fim discriminatório do estatuto de sazonal que dividiu muitas famílias portuguesas durantes anos, os esclarecimentos fiscais, esta foi uma luta inglória com as autoridades portuguesas, dada a falta de transparência e a falta de informação quando o acordo assinado sobre as contas financeiras por parte da Secretaria de Estado Portuguesas, em que simplesmente não informaram nada. Muitas outras preocupações fizeram sempre parte das ideias e dos ideais do Manuel Beja. Morreu um homem bom. Morreu um homem de carácter e que amava o seu país. Morreu um homem que muitos recordarão apenas como o “Sindicalista”, mas na verdade ele foi muito mais do que isso. Morreu um homem que lutou pelas liberdades e contra os interesses instalados. Um comunicador nato, não era difícil de encetar uma conversa com o Manuel Beja. Vivia entre a cidade de Zurique e Alcobaça, a sua terra natal. Homem da Rádio, com o Espaço Português na Rádio Lora em Zurique e Comendador com a Ordem de Mérito, felizmente um reconhecimento que lhe foi atribuído há uns anos pelo governo português. Nasceu no dia 24 de fevereiro de 1944 em Alcobaça e foi estudante-trabalhador e teve como professor o Zeca Afonso. Morreu no dia 29 de setembro aos 73 anos de idade em Portugal. Por sua expressa vontade, o seu corpo será cremado e cerimónias fúnebres muito restritas apenas à sua família. À sua esposa Catarina, ao filho Francisco e ao irmão Luís, como demais família, os meus sinceros pêsames. O nosso jornal perdeu um amigo e um incondicional apoiante e leitor.

A. Sá

Manuel Beja
Manuel Beja
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