Michael Teixeira, a sua vida é a música

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Michael Teixeira nasceu na Alemanha e regressou a Portugal aos 16 anos de idade. Aprendeu música na Casa Pia em Lisboa, é músico profissional e é representante oficial da Korg, com o apoio da Musicland do Alberto Pessoa. As suas origens estão em Nelas, Viseu, e vive na Suíça desde o ano de 2001. Aos 45 anos de idade sente que a sua vida  é a música e de outra forma nada fazia sentido. Vê com alguma apreensão o panorama musical na comunidade, e sente que muito poucos estão habilitados para esse desempenho nas melhores condições. Mas, como ele próprio reconhece, tudo faz parte de um processo de consumismo e de oportunidades aliado ao avanço da tecnologia. Tem algumas canções suas registadas na Sociedade de Autores e tem 3 trabalhos discográficos editados, sendo o último editado no ano 2008.

Vale a pena ser músico na comunidade portuguesa?
Não, não vale a pena.

Porquê?
Porque os verdadeiros músicos não estão a ser valorizados.

Todos os que estão na cena musical da comunidade portuguesa são músicos?
Não, não creio. Creio que muitos deles nem sabem o que é uma nota musical. Não sabem. O meu início foi na Casa Pia de Lisboa, onde tive um processo de aprendizagem muito meticuloso, estudei música, mas a verdade é que estas novas tecnologias trazem tanto de bom como de mau. Os novos aparelhos deixam “tocar”, e eu falo contra mim, porque eu vendo desses aparelhos, sou representante da Korg. Mas a verdade é que os novos aparelhos fazem quase tudo, ritmos já feitos, deixam o aparelho tocar e uma pessoa só tem de dar a voz. Digamos que fazem um playback muito bem elaborado.

Essa concorrência baixa o valor no mercado?
Claro, por isso é que se vê muitos a tocar por 150 francos numa matiné, ou por 300 numa noite, e coisas assim parecidas. Eu não posso fazer isso. O mercado está completamente alterado…

Já tiveste um duo….
Esse projeto ainda existe, com o Rui, apenas ele foi para África, digamos que o projeto está suspenso, ele era o baixo do Quim Barreiros, e eu próprio ainda andei com eles…

O que é preciso ter neste mundo da música: sorte, cunhas ou talento?
Eu acho que de tudo um pouco. Mas acho que acima de tudo uma pessoa deve ter as bases e talento… porque senão anda a enganar-se a ele próprio.

Mas nota-se que muitos que andam por aí não têm alicerces musicais?
Sim, é verdade que muitos, mesmo muitos, são muito limitados.

Não te faz alguma impressão?
Não, não faz. Faz parte do consumismo do mercado. Posso dizer-te que há uns anos era preciso ser encartado, ou seja, possuir uma carta de músico que atestasse a sua competência. Tínhamos uma associação, para a qual se pagava quotas, para poder tocar ao vivo, coisa que ninguém sabe o que é isso nos dias de hoje. O mercado ficou descontrolado e totalmente aberto. Não da melhor forma, segundo a minha opinião.

Dá-me a sensação de que todos tocam os mesmos ritmos, ou é tudo muito parecido, será assim?
Pois, existem as modas, como foi o caso dos pimbas; existe, de facto, uma linha que não define um verdeiro estilo da música nos últimos tempos, são muitos que fazem o mesmo, mudando muito pouco, quase que se poderia dizer que é a música a metro.  Vê que há alguns anos eram as editoras que pagavam a um artista para editar um trabalho discográfico, hoje em dia são os artistas, ou os ditos, que pagam para gravar um trabalho discográfico. Isto já diz muito. Também é verdade que com o avanço da tecnologia os custos de produção baixaram substancialmente, hoje em dia não é muito caro produzir um trabalho, com alguma qualidade. Qualquer um grava um trabalho em casa.

Pensas que existe nos dias de hoje a possibilidade de aparecer um segundo Toni Carreira nas comunidades?
Não, não creio. E não creio porque são muitos atrás do mesmo, e o mercado nos dias de hoje está muito diferente de quando ele iniciou. Teria de ter uma máquina de promoção, a uma escala quase nacional, para poder fazer algo de verdade que fosse importante. Não creio mesmo que isso possa acontecer nos dias de hoje.

As televisões também não apostam nos novos valores?
Hoje em dia quem quiser ir a televisão tem de pagar. Apenas os músicos conceituados é que são pagos para irem à televisão. Repara que não existem programas de televisão que apostem nos novos artistas nem no mercado das canções em Portugal. Não existe mesmo nenhum programa de televisão de música portuguesa.

Não te sentes de uma certa forma alguma frustração com tudo isto?
Não, na verdade não. Se formos a ver eu tenho a consciência de que faço parte do sistema, de uma certa forma, dado que as produções eu vendo-as, e, como tal, também lucro. Faço parte do sistema, porque vendo esses mesmos aparelhos e tenho formação profissional para ensinar a trabalhar com esses mesmos aparelhos. Sim, tenho de reconhecer que estou integrado no sistema.

Mas música é barulho? Ou seja, música é tocarem muito alto?
(risos) Não, música não é isso. Temos de ver qual o estilo e temos de ter a noção sobre onde estamos e ter também o bom senso de se criar um bom ambiente. Tudo tem de ser bem feito, tudo tem de ser bem controlado, desde os compressores, a tudo o resto.

Achas que existem bons músicos no seio da nossa comunidade?
Sim, felizmente existem. Nem tudo é mau. Mas sim, temos ainda bons músicos, mas….

Mas achas que o mercado dá para todos?
Acho que não. Ou perdem dinheiro, ou quem tem talento dedicou-se ao Karaoke que é mais barato e dá mais rendimento. Sejamos realistas, não dá para todos. Depois, de todos os que conheço, apenas 5% é que estão coletados. Mas, claro que dá para muitos irem brincando e entreterem-se com a música. E eu, vou tentando ensinar com a minha competência, tocar na base dos meus conhecimentos e vendendo com o meu profissionalismo. Estou pronto e aberto para ensinar e esclarecer todos, mesmo aqueles que não entendam muito bem o que é uma nota musical.

Como vês o futuro da música na comunidade?
Penso que vai dar uma grande volta, e isto porque sei que as autoridades vão começar a controlar todos os cartazes e quem toca na comunidade. Como tal, algo vai ter de mudar.

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