José Martinho e o seu empenho social em Lausanne

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José Martinho
José Martinho

Membro ativo do Partido PDC helvético

José Martinho tem 47 anos de idade, natural de Mirandela, e vive na Suíça desde o ano de 1991. É secretario geral do partido PDC helvético no cantão de Vaud, voluntário da Missão católica. É tradutor reconhecido pelas instâncias competentes em francês, como é ainda Conselheiro da comunidade portuguesa. O José Martinho tem um enorme sentido para partilhar os valores sociais e empenhou-se na política helvética para que pudesse, de alguma forma, poder dar voz aos problemas da comunidade portuguesa, e de todos os outros que encontram obstáculos nesta sociedade de acolhimento organizada, mas muito exigente. Falámos com o José Martinho.

Fale-nos da sua atividade como tradutor, assistente social numa cidade como a de Lausanne, e ainda colaborador da Missão Católica Portuguesa.
Sim, é verdade, podemos dizer que tento estar presente quando é necessário, faz parte da minha pessoa, desde que me conheço partilhei sempre os valores da solidariedade e da dignidade humana, e quando vim para a Suíça sempre me interessei pela causa pública. Integrei-me com muita facilidade nesta sociedade de acolhimento, mas estou em crer que ainda existe um grande défice na nossa comunidade por uma plena integração. Isso ainda não aconteceu com muitos portugueses. Com o passar do tempo, as pessoas aperceberam-se de que eu tinha os conhecimentos necessários de como funciona o sistema helvético, a nível das instituições, comecei a ser solicitado e podemos dizer que foi assim que teve início a minha atividade.

Depois aparece a política através do partido PDC. Porquê o PDC e esta entrada no mundo da política helvética?
Porque o PDC é um partido do centro com o qual me identifico. Já em Portugal estava envolvido no mundo da política, uma forma de participarmos na vida ativa de uma sociedade. O PDC não é um partido dogmático, por vezes podemos votar à esquerda, outras à direita, tudo depende dos interesses das pessoas e daquilo em que acreditamos e pensamos ser a melhor política.

Mas o PDC nunca teve o apoio da comunidade estrangeira, pelo menos de uma forma mais visível?
Não, até à data é verdade que os portugueses estão um pouco afastados na vida política helvética. Mas vem ao encontro do que se falou da falta de integração e da falta de interesse. Mas devemos dizer que começam a aparecer muitos nomes de portugueses nas listas das freguesias em diversos cantões. Temos aqui o exemplo da Sandra e em Genebra temos muitos portugueses bem colocados nas assembleias das suas freguesias. Os portugueses têm o direito ao voto desde 2006, no cantão de Vaud, como todos os outros estrangeiros, a nível de freguesia, e a verdade é que a maior parte dos portugueses não se interessam nem abrem os envelopes quando são chamados a votar. Votamos por correspondência. Tudo isto fez-me abraçar a causa pública através de um Partido, que neste caso é o PDC.

Muitos dizem que o PDC defende apenas os interesses dos ricos, como tal é um partido de ricos. Tens essa ideia e opinião?
Não escondo que tenho a consciência de que as pessoas têm essa ideia do nosso partido, mas a verdade é que nas questões sociais temos políticas que defendem as pessoas e são muito à esquerda, ou mais próximo do PS. Mas aceito que em algumas iniciativas do nosso partido as pessoas fiquem com essa ideia. Mas somos claramente um partido que defende o bem-estar social, ou se quisermos um equilíbrio económico e social. Depois, existem sempre muitas questões que são fraturantes, como agora a questão do referendo para o aumento da idade da reforma para as mulheres e o aumento do IVA, para colmatar o encargo que a Segurança Social vai ter. Como em todos os partidos existem diversas correntes, e o nosso Partido não foge à regra. Temos as nossas ideias. Mas deixe-me dizer-lhe que no seio do nosso partido discutimos ideias, e não as pessoas.

Como vê o problema da integração no cantão de Vaud?
Há um défice de interesse por parte das pessoas de quererem realmente integrarem-se na sociedade helvética. Claramente, e não podemos escamotear estes assuntos. Também é verdade que se podia fazer muito mais a nível político para as ditas políticas de integração. Também estou de acordo.

Mas cada vez mais existem pessoas que dependem das instituições sociais?
Sim, é verdade, muitos são problemas económicos e há muita falta de informação, dado que as pessoas chegam aqui sem qualquer condição e sem terem acautelado os seus interesses. Muitos também trabalham de uma forma precária e sem estabilidade laboral. Outros, sem trabalho. E tantos outros que não sabem como devem proceder junto das instituições, e é aí que tenho sido mais solicitado. Quer queiramos ou não a Suíça tem regras diferentes e um modus operandi diferente do que existe em Portugal.

Como vê o referendo no próximo dia 24 de setembro?
Deixe-me dizer que é o PDC que lidera a campanha no próximo dia 24 de setembro, como tal, vêm ao de cima os interesses sociais e a tal dita estabilidade do sistema. A nossa campanha é pelo «sim», claro está, porque pensamos que de verdade vai dar uma maior estabilidade e uma garantia para o futuro da AVS/AHV, a todos os pensionistas, mas sabemos que muitos não estão de acordo. Mas vivemos numa democracia.

Muitas mulheres dizem ser uma injustiça aumentarem a idade da reforma para os 65 anos.
Compreendo, mas também devem dizer que vão ter um aumento de 70 CHF por mês, mas repare, já há muitos anos que não havia aumentos das reformas, como tal, sim, é verdade que se aumenta um ano a reforma às mulheres, mas, por outro, têm mais dinheiro e pensámos que se vai conseguir uma maior estabilidade para os futuros pensionistas.

Em que outras políticas de relevo o PDC está envolvido?
Acabámos de ganhar uma iniciativa sobre a estratégia energética, ou seja, parar com as centrais nucleares e apostar mais nas energias renováveis, o PDC é por natureza o partido da família, estamos muito empenhados no bem-estar da família para a qual levamos a referendo duas iniciativas que infelizmente não passaram, uma para que o abono de família não seja mais sujeito a carga fiscal, o que consideramos ser uma injustiça. A outra tem que ver com a pensão da reforma para os casais que são penalizados e só recebem 150%, quando ambos descontaram para o sistema. Também não passou e tenta-se neste referendo equilibrar com o aumento para 155% para os casais, mas que mesmo assim está muito aquém do que se deseja. Veremos no futuro, talvez nas eleições nacionais no ano de 2019.

Como vê a nossa comunidade no cantão de Vaud?
Bem, sei que muitos estão a preparar o seu regresso a Portugal, muitos influenciados por uma má informação acerca do acordo de troca de informações entre os países signatários, mas estou em crer que será sempre sustentada por um grande número de portugueses e que cada vez mais vão criando as suas raízes em terras helvéticas.

José Martinho
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