José Alberto Mar e o seu livro o “Inventário do Sal”

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José Alberto Mar é o pseudónimo de José Alberto Postiga, nascido em 1977 na Póvoa do Varzim. Provém de uma família humilde de pescadores residente no lugar de Caxinas. Abandonou o mundo da pesca com 22 anos de idade, depois de alguns incidentes no mar em que quase perdeu a vida. Continua a nutrir uma paixão incomensurável pelo mar, que sente de uma forma muito peculiar. O José Alberto Mar vive no cantão de Obwalden com a família e falou-nos deste seu segundo livro, o “Inventário do Sal”.

Fala-nos do teu percurso.
José Alberto Mar – Cheguei à Suíça no ano de 2005 numa conjugação de vários fatores. Anos antes, abandonei a pesca e comecei a gerir uma peixaria em Portugal, que geri durante cinco anos, e os momentos áureos do negócio estavam a ir abaixo, e decidi trespassar. Fiquei, assim, sem trabalho e houve um vazio de tempo que coincidiu com a morte do meu sogro. Os meus cunhados, que trabalham na Suíça, foram ao funeral, e sabendo eles de que estava sem trabalho convidaram-me e ajudaram-me a vir até este país. Aceitei. Foi um desafio dado que conhecia muito bem a arte da pesca, do negócio do peixe, mas de verdade dnenhuma outra profissão. Mas como sou uma pessoa que gosta de evoluir, frequentei cinco cursos de alemão, três cursos laborais e nos dias de hoje sinto-me realizado a nível profissional.

Como é que a aparece a escrita?
José Alberto Mar – A escrita aparece da leitura. Há uma ponte que não é muito longa. A partir dos meus vinte anos de idade transformei-me num devorador de livros. Essa sede de leitura, anexada a alguma solidão na primeira fase quando vim para a Suíça, fez com que eu deixasse de apenas ler, para escrever também. Quase posso dizer que começou como uma espécie de confessionário. Confessava-me, de alguma forma, para o papel. Com o tempo, a escrita transformou-se numa necessidade.

Fala-nos do teu primeiro livro.
José Alberto Mar – As “Palavras sem Preço” são desabafos. Quase posso dizer que é uma espécie de revolta contra a sociedade, com o mundo, contra o destino… apesar de pessoalmente não gostar desta palavra. Não gosto desta palavra “destino”, porque pressupõe que existe uma força oculta que nos gere, e não estou nada de acordo…

Não são as nossas decisões que fazem o nosso destino?
José Alberto Mar – Sim, somos nós próprios que fazemos o nosso próprio destino, sim, vai por aí. Mas quando me apresentam o destino como algo que foge ao nosso domínio, à nossa capacidade e ao nosso controle, chega-me a assustar a palavra destino. Assim sendo, leva-me pensar mais profundamente em problemas mais prementes desta sociedade, que é o reflexo da minha primeira obra, que apenas é um conjunto de pensamentos, uma espécie de um ensaio, em que eu me apresento aos leitores, em cem páginas, e quem o ler vai perceber muito da minha pessoa.

São escritos autobiográficos?
José Alberto Mar – Sem o quiserem, até o são. Mesmo que por vezes me custe reconhecê-lo, aceito que o sejam. Embora, tenho de o dizer, alguns pensamentos fogem um pouco da realidade.

Entretanto aparece a tua segunda obra, o “Inventário do Sal”?
José Alberto Mar – Sim, e a mesma foi apresentada em Portugal, a convite duma corrente literária que se chama “Correntes de Escrita”, na Póvoa do Varzim, em que participaram cerca de 70 escritores de 13 nacionalidades. É um evento que se estende por 3 dias, concentrado no Cine Teatro Garrett, na Póvoa do Varzim, um espaço renovado, em que 5 escritores, por cada painel– existem vários ao dia–, debatem temas pré escolhidos, com um moderador, e ao mesmo são lançados os livros. É um evento em que os autores vão às escolas, os poetas declamam as suas poesias nas ruas, no comboio turístico, na praça do peixe, é um movimento e um evento muito dinâmico, interativo e que se revelou ser um grande sucesso. Com este evento, digo em tom de brincadeira que a Póvoa do Varzim é única cidade da europa e do mundo em que a primavera chega um mês mais cedo, porque chega através da palavra, através destas correntes de pensamento, e para quem gosta de literatura são, de verdade, dias únicos. Assim, a convite da organização, surgiu a oportunidade lançar este meu segundo livro, o “Inventário do Sal”, neste evento “Correntes de Escrita”, dado que estou perto de casa, sou natural de Caxinas, porque é na realidade um movimento literário muito importante e muito bem organizado. É, de facto, uma montra única para qualquer escritor, e para mim e para o livro. Depois sinto o ar de casa, nasci no Hospital da Póvoa, vivi em Vila do Conde, nas Caxinas, até aos 21 anos, portanto, este “Correntes de Escrita” está, de uma certa forma, associados intrinsecamente à minha pessoa.

Falas muito do Mar. Aliás, o teu nome literário tem a palavra mar. Mas, dá a sensação de ser uma relação complicada, quase de amor e ódio. Será assim?
José Alberto Mar – Enquanto pessoa não existiria, pelo menos da mesma forma, sem o mar. Eu sou o mar. O primeiro poema desta obra, que se chama “Medula”, é o meu algemar ao mar, que não consigo distanciar da minha personalidade. Nasci colado à praia, o meu pai é pescador, o meu irmão é pescador, eu próprio fui pescador, no entanto, o meu sonho de ser pescador aos 19 anos tornou-se num pesadelo, num acidente no mar, que me deixou zangado e muito temeroso, mas, mesmo assim, não consigo afastar-me dele. Este livro foca esse mar…e penso que vai estar sempre presente nas minhas obras.

Vives na Suíça, vives no cantão de Obwalden, e pergunto-te se achas se existe literatura, formas de tertúlias, formas de se falar sobre palavras e sobre sentimentos através da poesia e de livros na nossa comunidade?
José Alberto Mar – Depois de participar num evento literário da dimensão do “Correntes de Escrita”, e regressar a Suíça, é voltar a uma realidade difícil, quase como atravessar um deserto literário, não existe uma cultura de leitura na nossa comunidade, de facto a cultura das palavras e das correntes literárias não faz parte do léxico dos portugueses que vivem na Suíça. Ou antes, faz apenas parte de um número insignificante.

Tens alguns escritores que sejam uma referência para ti?
José Alberto Mar – Sim, gosto de alguns escritores, mas não sinto que tenham influência direta na forma em como escrevo. Gosto muito de Laurent Gaudé, Sebastian Clissot, Valter Hugo Mãe, gosto muito da poesia de Jaime Rocha, Ivo Machado, entre outros, mas não deixo que estes escritores me influenciem, mas pelo menos faço esse esforço.

A poesia pode sobreviver nos dias de hoje?
José Alberto Mar – A poesia sobrevive nos dias de hoje. A prova disso são os eventos todas as quintas-feiras, de pequena dimensão, é certo, mas que cada vez mais ganham mais adeptos por todo Portugal. Existe uma procura pela via da poesia, é um facto e ainda bem que é assim. A poesia existe em todo o lado, o que é preciso é ter a capacidade de a observar e transformá-las em palavras. A poesia está em todo o lado. A poesia por vezes não é bonita, pode ser até cruel e dura, mas está em todo o lado.
José Alberto Mar pediu-me para lhe dar a minha opinião sobre esta sua obra, “O Inventário do Sal”. Tive, assim, de mergulhar no mundo das suas palavras, das suas paixões, dos seus receios, das suas apreensões, das suas visões e dos seus encantos pela vida. Não foi fácil. Tenho de confessar. E não foi fácil, porque as palavras do José Alberto escondem sentimentos, escondem momentos e escondem mágoas. Quando parece fácil, numa primeira leitura, temos de voltar atrás, e reler de novo. O mar, esse, pano de fundo em quase todas as palavras do seu livro, mesmo se subtilmente subentendidas em palavras bem articuladas, bem ornamentadas, lá aparece de forma altiva e, de alguma forma, também temeroso. Um ditador em todo o seu ser. Mas também sofredor dos ataques infligidos e repetidos ao longo dos anos pelo homem. E é esta contradição pelo mar, o respeito e o amor intrínseco, que encanta neste livro de José Alberto Mar. De verdade que gostei, e talvez porque o mar também é a almofada dos meus sonhos.

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