Jorge Ribas volta a renascer com o seu novo livro, “Vocação para amar”

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Jorge Ribas, nome literário – o seu nome é Jorge Esteves -, é natural de Castro D’ Aire, nasceu em abril de 1963, estando a viver na Suíça desde o ano de 1983, e acaba de lançar o seu segundo romance, “Vocação para Amar”. É um homem multifacetado no mundo das artes, é também pintor e escultor, e falou-nos abertamente sobre o seu percurso literário. Vive no cantão de Luzerna.

— Fala-nos um pouco do teu percurso e do teu interesse pelo mundo das letras.

Jorge Ribas—Em Portugal, estudei até ao dia em que vim para a Suíça. Deixei Lisboa com 20 anos de idade, estudei nos últimos dois anos na capital, num seminário Comboniano, e a minha vocação inicialmente era a de ir como missionário para África. Estudei Teologia em Lisboa, línguas greco-romanas, com o grego antigo e o latim estudei durante 4 anos. Mas a vida em Lisboa era muito cara, trabalhava de dia e estudava de noite, vivi momentos difíceis, e decidi ligar ao meu irmão que trabalhava na altura em Zermatt, e finalmente vim, como tantos outros, e fiquei durante uns anos por lá. Em Zermatt estive, então, durante 4 anos, com o famoso Permis A, 4 vezes 9 meses. Trabalhei sempre em grandes hotéis, até que vim para Luzerna, para o hotel Cartlon, e foi nesse momento que fiquei na Suíça central. No ano de 1988, fui trabalhar para uma empresa têxtil, de fio técnico para a indústria, e acabei por ser instrutor e, nos dias de hoje, sou controlador de qualidade; não faço controlo ao produto, mas aos sistemas de qualidade. Tudo o que tem que ver com as normas de qualidade da produção desta empresa. Estou neste setor há cerca de 10 anos. Em relação ao mundo das letras, tive sempre um interesse muito especial em escrever, e lembro-me de que, quando a professora falava em escrever uma composição, eu ficava em êxtase, porque me sentia mesmo bem e lembro-me ainda de que as minhas composições eram sempre muito longas. Escrevi, também, colunas durante muitos anos para o jornal de Castro D `Aire; sempre gostei de escrever…

–Em relação ao teu primeiro livro, tem algo de autobiográfico?

Jorge Ribas –Não, absolutamente. Tem memórias que são o meu património, e tem passagens que são universais a todos os emigrantes. Posso dizer que, nos primeiros 3, 4 capítulos, há muito das vivências da minha infância, uma infância muito feliz, mas muito pobre, nas montanhas de Castro D’ Aire. Quando há a geminação entre Zermatt e Castro D Aire, o Presidente pediu-me que fizesse um pequeno livro técnico sobre os portugueses – quantos portugueses viviam em Zermatt, quem foi o primeiro a chegar, o que faziam, quando chegaram, como chegaram, o porquê de um grande número de portugueses serem oriundos de Castro D’ Aire e como foram todos para Zermatt… E assim fiz, quase numa base sociológica, o que me levou a falar com muitas pessoas; falei com os primeiros portugueses que vieram para Zermatt, que afinal de contas vieram do Brasil. E isto é muito curioso, porque a família Seiler, na segunda guerra mundial, fugiu para o Brasil, ela que tinha um grande hotel em Zermatt. Quando a Europa volta a ter paz, ela regressa de novo à Suíça, mas traz com ela alguns portugueses do Brasil para a Suíça, que eram naturais de Castro D’ Aire. Não vieram diretamente de Castro D’ Aire, mas sim do Brasil com esta família Seiler. Depois, sim, através dessa primeira família, começaram a vir centenas de portugueses para Zermatt, e uns trouxeram outros. Uma história muito interessante. Assim, voltei a essa década dos anos 70 a 80, em que me pude inteirar muito bem do fenómeno migratório para este local. Estas foram as bases para o meu primeiro romance que incluiu o romance, o amor, a saudade, o drama; o que queria era fugir de um estudo académico, que foi o que fiz com esse estudo para o Presidente da Câmara, para um enredo mais fluido e tipo romance, com o meu estilo de escrita, que é claramente clássico…

–Podemos dizer que esse teu primeiro livro foi o mote para te lançares num segundo livro?

Jorge Ribas—Eu escrevi e lancei esse meu primeiro romance sem a mínima expetativa de escrever um segundo. Mas, na verdade, quem me impulsionou a escrever este meu segundo livro foram as muitas mensagens de apoio, e que continuo ainda a receber, de quem leu esse meu primeiro livro. Mensagens que me sensibilizaram muito. Creio que foi a autenticidade do livro, a sua simplicidade, os seus factos históricos em relação às pessoas de Castro D` Aire, e posso dizer que o livro apaixonou mesmo algumas pessoas….

—Este teu segundo livro, “Vocação para Amar”, continua a ser um clássico?

Jorge Ribas—Sim, claro que sim. Completamente. O primeiro livro não é autobiográfico, é um livro universal, mas com uma mensagem sobre a passagem dos portugueses em Zermatt. Um enredo muito conservador, com descriçao das viagens, dos sentimentos, das vivências e da saudade em relação à terra. Muitas pessoas puderam rever-se em muitas passagens do livro. Em relação a este segundo livro, não sendo autobiográfico, tem muitas mais passagens que estão relacionadas com a minha pessoa. Isto é um facto. Tem que ver com o homem missionário, com as pessoas que dão muito de si e que ainda dormem no chão, tendo poucos haveres para se entregarem ao próximo. Tenho ainda amigos que seguiram a sua vocação e que estão em África, em missão – no Congo, em Moçambique…

–Falas muito na fé, falas muito na Missão…; quer isto dizer que todos estes anos te afastaras da fé?

Jorge Ribas – Não ando afastado da fé, mas a minha espiritualidade tem mais um espírito de missão. Não tenho nada contra o padre diocesano…; mas a minha religião são as pessoas, a natureza e os animais. No fundo, sei que peso no final 800 gramas de cinzas que se vão misturar na terra e na água…

–Mas iniciaste-te sob os auspícios e princípios religiosos católicos?

Jorge Ribas – Sim; e, de qualquer das formas, continuo agarrado a esses mesmos princípios.

–Mas vejo-te a falar de uma forma muito mais pragmática…

Jorge Ribas – Se falares com um missionário comboniano, que faz parte da Cúria Romana, simplesmente o que este pode ver é muito diferente do que vê um padre convencional, digamos assim. É um facto. Desprendidos de todo o valor material. Talvez ainda siga estes valores, dado que estudei para ser um missionário comboniano, e sempre pensei que fosse essa a minha vocação para a vida. Não foi, mas sinto ainda muito os seus princípios.

–Como tem sido a receção deste novo romance?

Jorge Ribas –Tem sido muito boa. Felizmente tem sido muito boa. Já estive em Zurique, Luzerna, Lenzburg; estive em Portugal no passado dia 29 de dezembro, e vou continuar durante o mês de fevereiro. Um ponto que que não pode falhar é em Zermatt, claro está.

–Para terminar, como vês o movimento cultural na nossa comunidade?

Jorge Ribas—Teríamos de dizer muito acerca do assunto. Mas, para ser sincero, anda muito pobre. No campo literário, teríamos muito que fazer. Na cultura em si, e se a pergunta vai no sentido de saber se o emigrante nos dias de hoje é uma pessoa culta, é muito difícil de responder. Temos alguns núcleos de portugueses que se interessam pelo saber, pela cultura portuguesa, pela cultura universal. Fui um dos fundadores da UNITRE, no setor de língua portuguesa, por que a universidade foi fundada pelos italianos e já existe há uns anos, mas nunca tive mais de 40 portugueses inscritos a frequentar esses cursos gratuitos, das diversas áreas. Hoje não faço parte, sou apenas aluno, mas isto demonstra o muito pouco interesse por parte das pessoas. Não adianta, apenas um nicho de portugueses se interessa pelo saber e pela cultura.

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