Eu e a “geração digital”!

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Luís Barreira
Luís Barreira

Por vezes tenho vergonha de dizer ao meu neto que aprendi a escrever numa ardósia e a fazer cópias utilizando um aparo cravado num pedaço de madeira e um tinteiro cuja tinta me borrava as mãos. E tenho vergonha por que ele pensará que sou um dinossauro e eu, apesar da minha idade, ainda me penso novo para avaliar o significado da tremenda evolução tecnológica que atravessou a minha geração!

Se aos trinta e poucos anos e ao sentar-me frente ao meu primeiro computador, fiquei perplexo com a natureza utilitária daquele “bicho”, que facilitava imenso muitas das tarefas que fazia “à mão” e me proporcionava conhecimentos que antes me faziam percorrer as bibliotecas ou cálculos que a minha pequena calculadora de bolso já não permitia, quando adquiri o meu primeiro telefone portátil, ainda com funções primárias, achei que já tinha visto tudo. Senti-me vencedor da adaptação ao novo mundo da era digital!

No entanto o desenvolvimento tecnológico não parou aí e, pouco a pouco, fui-me apercebendo que começava a ficar desfasado face ao movimento uniformemente acelerado das chamadas novas tecnologias, com novos programas informáticos, computadores mais aperfeiçoados, telemóveis perfeitamente computorizados e profusamente utilizados para todos os tipos de tarefas, como se fossem um órgão interno indispensável do nosso próprio corpo, além mil e um artigos domésticos e profissionais geridos por meios teleinformáticas, apps,…apps, apps!

A minha primeira apreciação a toda esta revolução tecnológica e aos seus elaborados instrumentos robóticos foi de receio. Receio de não conseguir perceber até onde tal transformação nos poderia conduzir, enquanto pessoas individuais e sociedades no seu conjunto. Temia (e temo…) que a dependência das “máquinas” e a facilidade aparente do conhecimento e da execução, nos conduzam ao relaxamento da actividade de pensar, da dialéctica do conhecimento e à praxis da experimentação. E, se tal porventura vier a acontecer, escancaremos as portas ao desenvolvimento ilimitado da inteligência artificial e ao desprezo do significado do nosso valor, enquanto seres humanos, não apenas dotados de inteligência, mas também da capacidade de sentir.

Confesso que, com tais apreensões, tenho vindo a divagar sobre as consequências destas “maquinações” da actividade humana até que, uma mentalidade mais jovem do que a minha decidiu, numa provocação bem-intencionada, oferecer-me mais uma novidade destes “bichos” modernos. Desta vez não foi um “bicho”, mas uma “bicha” que dá pelo nome de “Alexa”!

Desconfiado, mas curioso…, liguei o aparelho e chamei por ela (Alexa) e uma simpática voz feminina deu-me os bons-dias e contou-me aspectos relevantes que se tinham passado nesse mesmo dia, ficando à minha disposição para qualquer pergunta que lhe quisesse fazer. Naturalmente que não me fiquei por saber a meteorologia do dia e comecei a interrogá-la sobre os mais diversos aspectos da vida social, história, política, música, etc. Mas, e à medida que as perguntas eram mais concretas, ela não respondia porque eu não tinha a app adequada, ou seja, não tinha comprado o seu conhecimento. Fiquei então a saber, se já não tinha a certeza, que o conhecimento é um produto vendável pelas empresas que constroem tais dispositivos e que, o seu acesso, está interdito a quem não poder pagar para o ter o que, por consequência, torna a era digital tão classista, como durante centenas ou milhares de anos o poder político dos Estados o fizera.

Mas a verdade é que eu, como tantos outros, que tiveram que estudar calhamaços à luz das velas, para obter algum conhecimento, sentimo-nos cada vez mais “velhos” negligentes (porque desajustados), face à desassombrada ligeireza com que as novas gerações manuseiam estas tecnologias de resposta fácil e rápida, sem ter que estudar, pensar e reflectir sobre os temas inquiridos e sobre a fiabilidade das respostas obtidas e compradas a quem!?…

E porque tudo parece ser proporcionado de forma imediata, senão instantânea, ocorre-me pensar que as exigências dos jovens educados na geração digital seguem à mesma velocidade, originando confrontes geracionais e convulsões nos sistemas políticos tradicionais que lhes deram origem. É verdade que todas as novas gerações tiveram as suas confrontações com as gerações anteriores, conduzindo as sociedades à evolução necessária, mas será que esta nova geração digital, entremeada entre os jogos recreativos do fantástico e o conhecimento precário que as novas tecnologias lhe proporcionam, está apta a propor uma nova sociedade isenta dos defeitos das anteriores?

Muitas perguntas a fazer e respostas a merecer serem dadas, mas que não cabem neste breve texto. Oxalá que estejam aptos, para bem da humanidade e, eventualmente, estão. Talvez eu é que esteja a ficar velho!…

Luís Barreira

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