“Estava previsto” ou a ironia na previsão política!

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Luís Barreira
Luís Barreira

Um dos aspectos que mais tem marcado a governação de Pedro Passos Coelho é a sua contantemente reafirmada capacidade de previsão. Algo que já vem detrás, quando eleitoralmente se propôs resolver os problemas do País, cortando apenas nas famosas “gorduras” do Estado. Tal não aconteceu mas,… “estava previsto”!

Como assistimos hoje a uma macabra dança negativa de números:

-O desemprego continua a subir, com mais de 1 milhão de pessoas à procura de emprego e, o que é que o Governo diz?…”Estava previsto”!
-As exportações têm vindo a diminuir e, o que é que o Governo diz?… “Estava previsto”!
-A economia acentua a sua recessão e, o que é que o Governo diz?…”Estava previsto”!
-As receitas do Estado, por via dos impostos, continuam a descer e, o que é que o Governo diz?…”Estava previsto”!
-O orçamento do Estado para 2013, que há nascença merecia críticas de utópico, vai ter que sofrer rectificações e, o que é que o Governo diz?…”Estava previsto”!

Poderia continuar até à exaustão que, o Governo, teria sempre o mesmo grau de precisão nas suas respostas…”estava tudo previsto”!
E isso tem deixado os portugueses mais descansados!…Afinal, acreditando que tudo o que de mal nos tem acontecido estava previsto, pressupõe-se que o actual Governo tem cura para todos estes (previsíveis) problemas graves que nos afectam!…Além disso, mesmo que existissem dúvidas sobre a capacidade e a visão dos nossos dirigentes, o Governo está em completa sintonia com a “troika” e, estes últimos, são consideradas pessoas de elevada estatura técnico profissional, “não erram”!…Tem havido alguns “problemazitos” com algumas das suas (in)decisões na Europa e nos Estados Unidos, mas isso é no “estrangeiro”. Em Portugal eles não falham o “que estava previsto”!

Por outro lado, que interessa falar sobre a extrema pobreza dos mais pobres, com uma classe média a caminho e uma juventude sem futuro. “Eles (nós) aguentam…”, dizia há dias um ilustre banqueiro, mostrando que também ele estava convencido das soluções previstas, nomeadamente depois do seu banco ter recebido um chorudo empréstimo do Estado (nós), para recapitalizar o seu negócio. Também todos os outros banqueiros são gente de boas falas e melhores previsões, capazes de se adaptarem à crise do crédito às famílias e empresas, apostando na dívida pública e cobrando juros muito mais altos do que aqueles a que obtiveram o dinheiro para o fazer. Além disso têm “ajudado” os “ricos” a não viverem acima das suas possibilidades, retirando-lhes as casas, sem esquecer os juros, vendendo-as depois aos “antes ricos”, a preços de saldo, em leilões que promovem. Uma autêntica “socialização” do capital!
No entanto, e voltando ao Governo, este não se limita a acertar nas previsões do que “já aconteceu” e vai mais longe, antecipando (…) as suas previsões para o futuro. Os tais 4 mil milhões que o Governo se comprometeu a cortar nas despesas do Estado, que mais não são do que cortar nas despesas com o pessoal, parecem estar a ser previstas com aplicação “à la longue” e, se na próxima semana a “troika” aceitar e a oposição vier com um chorrilho de acusações ao Governo, por este ter errado os cálculos, ele pode sempre dizer que… “Estava previsto”!…
Podem raramente acontecer alguns imprevistos, alguma coisa que não corra conforme os desejos do nosso executivo. Mas, se tal se verificar, não tem nada a ver com deficientes previsões do Governo, a culpa é do Sócrates!…
Com este nível de “infabilidade”, o Governo e os governados, podem estar perfeitamente tranquilos, no final (2020,…2030,…ou…) os portugueses vão ter finalmente terra para cavar e,… quem não quiser, “cave”!
Se a terra não der suficiente batata, que tem muita vitamina C e um poderoso efeito calmante (essencial para os nervos “em franja”), podemos sempre recorrer à pesca, comprando o nosso peixe aos espanhóis, japoneses e outros, que pescam nas nossas 200 milhas porque, como “estava previsto”, não fiscalizamos as nossas águas territoriais e até já nem sabemos o que fazer com tanta “água”! Talvez, com um pouco de nostalgia, possamos agora afirmar que, o nosso melhor período histórico, foi quando “fugimos” para o mar!….
Por isso,…icem as “velas”, para que os actuais “ventos” não nos conduzam ao Mar Morto!

Luis Barreira

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