Entrevista com José Duarte de Bienne

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Conhecemos há muitos anos o José Duarte, muito conhecido pelos nossos compatriotas da região de Bienne-Seeland e não só, mas muitos não conhecem o percurso de vida e o seu empenho na área da escrita e da política.

–A primeira questão que lhe ponho é há quantos anos está na Suíça?

–Estou a residir na Suíça há 50 anos; depois de ter trabalhado em Portugal e feito o serviço militar em Angola, regressei a Portugal continental, terminei a formação da Escola Hoteleira e vim para a Suíça fazer um estágio na hotelaria e fiquei aqui alguns anos; depois do 25 de abril voltei e fui patrão de um restaurante em Lisboa e outro no Porto, mas passados dois anos por motivos familiares voltei para a Suíça (Bienne) aonde fiquei até agora.

–Sabemos que sempre se interessou pela política no Cantão de Berne.

–Sim, fiz durante muitos anos uma política ativa, fui candidato várias vezes ao Parlamento Cantonal de Berna e ao conselho nacional suíço, mas nunca fui eleito! O meu objetivo foi sempre o de ajudar a lista que representava, PSR de Bienne. Mas a minha experiência política foi muito gratificante a nível de integração e conhecimentos culturais e políticos Suíços, e fui também vários anos tesoureiro do SP Brügg Be e sou membro da comissão de controlo de votações nacionais. Hoje faço ainda parte de alguns comitês políticos e sou convidado para várias discussões do partido SP Cantonal e Nacional Suíço. A minha carreira política está na fase final. Sou membro do PS Português e do PS Suíço.

–O que é que pensa do sistema Político de Portugal e da Suíça?

–O sistema Suíço é um sistema que tem mais de 800 anos, chamado Democracia Direta, e o sistema Português tem 45 anos, data depois da Revolução do 25 de abril 1974, Não se pode dizer que há um sistema perfeito em política, mas na Suíça o Povo conhece perfeitamente o sistema e vota com conhecimento. Na Suíça o poder é descentralizado e assim há uma maior justiça social. Portugal tem o governo centralizado e os governantes desconhecem na maioria os verdadeiros problemas do país, o sistema de Governo Português é orientado pelas cores políticas partidárias. Na Suíça existe uma concordância entre os partidos no Governo e os Ministros têm menos visibilidade na Suíça  do que em Portugal. Na Suíça  não existe uma Primeiro-Ministro nem  um Presidente.  O Governo Suíço é composto por sete Ministro (conselho federal) dos quais um é Presidente da Confederação que se substituem todos os anos, o presidente guarda o seu ministério. Em outros termos Portugal é uma república constitucional unitária sem presidencial, existem quatro Órgãos de Soberania, o Presidente da República (Chefe de Estado, eleito pelo povo) a Assembleia da República (parlamento unicameral), o Governo e os Tribunais. A Suíça  é uma República Democrática Confederativa na forma de uma Confederação, os Cantões detêm todos os poderes, A Assembleia Federal é composta por duas Câmaras (Conselho Nacional 200 deputados eleitos pelo Povo e Conselho de Estados, composto de 46 membros oriundos dos Cantões, deputados eleitos pelos Povos dos cantões, e o Parlamento é composto por 246 deputados. Na democracia direta, é o Povo quem mais ordena! O oovo Suíço é chamado muitas vezes por ano para decidir. Eu sou adepto do sistema Suíço, é um sistema custoso, mas mais eficaz e dá poucas possibilidades à corrupção governamental. Mas como disse anteriormente, todos os sistemas podem ser válidos, na condição de terem políticos honestos e transparentes.

–Alguns dizem, que é também voluntário para as visitas a prisioneiros no cantão de Berna.

— Sim, tenho um mandado do Tribunal Federal de Redução de Penas, mas não posso dizer nada mais.

–Aqui na ATP de Bienne estão expostos livros da sua autoria. Tem uma vertente para a escrita?

–Sou um adepto de transmissão de conhecimentos e os meus livros tocam várias áreas como a cultura, romances, e ficção, que eu tiro a partir de histórias verdadeiras; são escritos em francês e  em português. Mas, na verdade,  a maioria são livros de formação hoteleira.

–Mas se sempre trabalhou ligado à gastronomia, como abraçou o mundo da escrita?

–Sempre tive um empenho pela hotelaria e restauração, mas sempre escrevi e sempre com a ideia de um dia ser publicado.

–Então conte-nos um pouco da sua vida na Suíça. 

–A minha vida começou como muitos compatriotas nossos, numa aventura por uma vida melhor, talvez no meu caso para adquirir conhecimentos novos daqueles que eram ensinados nas escolas de turismo e hotelaria da época em Portugal; vim para a Suíça para estagiar e no final do estágio acabei por ficar, pois foi-me oferecida uma situação melhor daquela que era prevista em Portugal. A partir desta data refiz os diplomas em Suíça, e que leveialguns anos a concretizar. Fiz dois CFC. Cozinha, serviço e administração, Diplomas superiores, Diplome de Mestria Federal e no final Diploma de professor profissional o qual me deu direito a ser um professor profissional nas escolas de Hotelaria Suíça.

–Mas também foi patrão de restaurantes e hotéis?

–Sim, fui patrão, gerente, chefe de cozinha e responsável de alguns restaurantes considerados pelos conhecedores como bons restaurantes gastronómicos. Nos últimos 12 anos fui responsável hoteleiro numa clínica aonde me especializei em nutrição dietética, Ao mesmo tempo dava aulas numa escola hoteleira do cantão do Jura, o que me fazia uma carga de, trabalho cerca de 180%. Foram anos ricos em conhecimentos que pude partilhar com centenas de pacientes, alunos, famílias e colegas.

–Depois de reformado optou por ficar aqui na Suíça?

–Sou casado com 4 filhos e 4 netos, uma das fortes razões de ficar aqui! Sempre tive ligações de perto com o meu país natal, sempre acompanhei a política em Portugal, depois de aposentado escrevi um livro que se chama o Zezé do Café Central (Castelo de Paiva) aonde conto a minha história e a história do concelho de Castelo de Paiva. A minha ligação é tão grande que muitos amigos pensam que eu trabalhei no Porto e vivo na Póvoa de Varzim, cidade aonde tenho residência. Na biblioteca de Sobrado Castelo de Paiva algumas obras minhas estão à disposição dos leitores.

–Mas porque continua a trabalhar ?

–Faço voluntariado e estou sempre ao serviço dos outros sem interesses nem julgamentos. Sou consultor para a formação dos aprendizes e administração de pequenas empresas.

–Foi eleito recentemente presidente do Centro dos Trabalhadores Português de Bienne. Porquê tal empreendimento?

–Como é conhecido a ATP de Bienne atravessa uma crise de continuidade e apresentei a minha ajuda para não deixar fechar esta organização com cerca de 40 anos e de eu já fui presidente; e uma nova direção vai começar no dia 1 de maio 2019, com o objetivo de encontrar um novo local aonde se possa introduzir mais cultura lusófona e arte em geral. A missão futura da ATP é tornar-se um local de formação e conhecimentos dos costumes e hábitos Llusitanos. Eu e o conselho administrativo vamos abrir brevemente cursos de português para os jovens portugueses que nsaceram aqui na Suíça e estrangeiros que desejem melhorar ou aprender a língua de Camões. Vamos criar ateliês de palestras sobre a gastronomia portuguesa. Dois membros do conselho são designados responsáveis para organizar os eventos.

–Se tivesse de dar um conselho aos jovens imigrantes, o que lhes dizia?

–Os jovens estão muito mais preparados agora do que nos anos 70 e 80, A maioria tem uma formação educativa superior aos seus progenitores, mas limitando-se muitas das vezes a falar só inglês ou francês, Isto não é uma garantia de ter um bom emprego, eu aconselho a se formarem profissionalmente dentro das profissões de sua paixão, pois é sempre a profissão de paixão que nos garante os dias melhores! O sistema suíço oferece muitas possibilidades e ajudas para a formação contínua. Um esforço é necessário para todos os jovens que queiram melhorar a longo prazo a sua situação profissional. Hoje não se imigra para fazer uma casa ou pôr dinheiro no banco mas sim para viver uma vida melhor, e ser mais responsável. Dentro de alguns anos vamos ter deputados suíços com nomes lusitanos: isto a mim alegra-me!

–Qual são os seus passatempos que ainda não conhecemos?

–Fui um amador no passado de corridas de bicicleta e maratonas, e tenho o prazer de dizer que participei oito vezes na famosa corrida dos 100 Km de Bienne, participei também na corrida amadora de Paris Roubaix França, e agora limito-me a fazer caminhadas e passeios em bicicleta, gosto de tocar guitarra e cantar, como gosto de fazer pintura acrílica com os meus netos. Gosto de ler escrever e viajar quando posso, sou um consumidor de conhecimento e curioso da vida. Ficando sempre com a certeza de não saber nada.

–Qual é o seu próximo livro?

–Um romance ficção em francês e um livro de cozinha portuguesa.

–Qual seria a sua palavra do fim da entrevista?

–Felicidade e singeleza que é isso que todos os nossos compatriotas deviam alcançar na sua passagem pelas terras suíças.

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