Entrevista a Mariana Mendes, contadora de histórias para crianças em Nyon

0
472

Mariana Mendes, portuguesa, natural de Lisboa, licenciada em Relações Internacionais, vive há 11 anos na Suíça onde criou e executou um projeto de promoção da comunidade feminina portuguesa de Nyon e desenvolve atividades de leitura, interpretação, declamação e teatralização de histórias, contos e poemas,   principalmente para crianças, incentivando-as à leitura e ao gosto pelos livros através da sua rubrica “As   estórias da Mariana” no programa “Portugalidades” da “Radio Cité Genève”. Esta atividade relacionada com os livros infantis e a sua experiência de emigração levaram-na a escrever fábulas e contos baseados na sua vivência destes últimos anos.

—Como teve início a tua paixão pelo mundo dos livros?

— Sou filha de uma Bibliotecária e de um Professor de História do Ensino Secundário. Toda a minha vida me vi rodeada de livros. Em nossa casa a Biblioteca era numerosa e embora em pequena lesse os meus livros infantis e juvenis e não lesse os livros para adultos que tínhamos nas estantes da sala, adorava ver as capas e lombadas e sabia de cor títulos e autores. Mais tarde fui lendo muitos desses livros e na adolescência deixei-me encantar pelos escritores existencialistas e por alguns filósofos, e adorava ler as escritoras M. Duras e M.Yourcenar… Passei também uma boa parte da minha infância na Biblioteca Nacional de Portugal, onde a minha mãe foi bibliotecária durante 36 anos. Sempre gostei da língua portuguesa e felizmente tive excelentes professoras de português que me souberam transmitir e cultivar o gosto pela língua, pela leitura e pelos livros. Não esqueço uma dessas professoras, a escritora Eduarda Dionísio, filha do também famoso escritor Mário Dionísio.

–Como aparece a tua paixão pelos livros infantis?

–Esta paixão pelos livros infantis cresceu com o nascimento dos meus filhos e principalmente já aqui na Suíça com a necessidade que tinha de lhes transmitir também a eles o gosto pela leitura e pela aprendizagem das línguas quer francesa quer portuguesa. Fui procurando livros infantis, pesquisando autores e ilustradores, para lhes ler em voz alta e ia com eles às horas do conto a livrarias e bibliotecas como já o fazia em Lisboa. Quando viemos para a Suíça continuei a fazê-lo e foi uma excelente forma de eles irem tendo contacto com a língua francesa mesmo antes de entrarem para a escola e foi uma excelente forma de integração para mim e para eles. E depois comecei a apaixonar-me pela simplicidade, sensibilidade, profundidade e moralidade das histórias infantis que são grandes ensinamentos para crianças, mas também para os adultos. E como gosto também muito de desenho e pintura… comecei ainda a admirar também as ilustrações e a compreender que a literatura e a ilustração infanto juvenil portuguesa é riquíssima e merece que a conheçamos e divulguemos, quer dentro quer fora de portas!

— E o teu empenho em ler histórias para os mais pequenos?

R: Sempre gostei de ler em voz alta, para os outros. Em pequena as bonecas eram as minhas ouvintes! Talvez por ser filha única! Depois com o nascimento dos meus filhos passaram a ser eles os meus ouvintes e quando os inscrevi na Escola Portuguesa em Nyon revelei este meu gosto à professora Elisabete Moreira que foi a grande responsável deste meu empenho em ler para os mais pequenos aqui na Suíça, convidando-me para leituras nas suas aulas e incentivando-me a fazê-lo também noutros contextos. Estas leituras levaram-me a procurar aperfeiçoar esta atividade, com pequenas formações para contadores de histórias, em Lisboa, com uma amiga que é Contadora de Histórias profissional e também escritora, a Elsa Serra. Este meu empenho aqui na Suíça ainda se tornou mais pertinente porque percebi que há junto da nossa comunidade uma grande falta de atividades deste género e a comunidade é também pouco interessada pelos livros. Com os adultos se calhar já não haverá muito a fazer, mas junto das crianças este empenho e insistência é fundamental para que venham a ser adultos letrados e leitores.

— E a tua participação neste livro, “As Lições da Bicharada”, com uma fábula tua, como co-autora?

–Há três anos que colaboro voluntariamente com a Helvetia Éditions, uma editora brasileira na Suíça, no “Salon du Livre de Genebra” com as minhas leituras teatralizadas de alguns dos livros infanto juvenis por ela publicados.
Com esta colaboração fui tomando conhecimento de que a Editora estava a receber contos e fábulas para a realização de antologias e como tinha já escrito alguns contos que estavam guardados no computador e tinha histórias que tinha vivido nestes últimos anos que gostava de passar à escrita, aventurei-me, enviei-as e foram aceites. E assim, humildemente, e sem qualquer pretensão de ser ou vir a ser escritora, participei orgulhosamente em 2018 com o conto “Piu… Piu…! O sinal do pardal!” na Antologia de Contos “Faz de Conto III” (em português e inglês) e este ano de 2019 na Antologia de Fábulas “As Lições da Bicharada” lançada no passado mês de junho em Genebra na “Librairie de L’île”, com a fábula “Ouriços e pavões, espinhos e riscos!” (em português e francês).

–Como vês o interesse da comunidade pela leitura e pela literatura?

–Como já disse anteriormente, o que constato é que a nossa comunidade na Suíça não tem grande interesse pelos livros. Há algumas excepções que se dedicam até à escrita e à poesia e que se tentam impor como autores, mas não é fácil, não há público, não há pessoas verdadeira e genuinamente interessadas. Há, pois, um grande trabalho a fazer junto dos mais novos! É com eles e neles que acho que se tem que investir nesta área, com leituras, divulgação de livros e autores… Em casa as crianças também não têm estes estímulos. A escola portuguesa (EPE) e as suas professoras e professores têm tido um importante papel neste incentivo e fazem-no bem, mas é preciso ainda mais, realizando atividades paralelas relacionadas com a literatura e a cultura. Com o povo português, como em muitas outras coisas, é preciso que a leitura “caia no goto”, vire moda, para despertar o interesse!

–Como teve início a tua participação no programa  da Rádio Portugalidades?

— Já fazia as leituras teatralizadas na escola portuguesa quando conheci a Cristina Rodrigues, a responsável pelo programa de rádio “Portugalidades” da “Radio Cité Genève”, e resolvi falar com ela sobre uma ideia que me tinha ocorrido de tornar as minhas leituras acessíveis a um público mais vasto através de uma rubrica de leitura de histórias na rádio. A Cristina achou a ideia interessante e convidou-me para assistir no estúdio a um programa para ver como funcionava. Fui experimentar precisamente no dia a seguir à Seleção Portuguesa de Futebol ter vencido o Euro 2016 e levei comigo a história do “Patinho Feio” para ler, em homenagem ao jogador que nos deu a vitória, o Éder. A leitura correu muito bem, todos gostaram e é assim que há 3 anos colaboro no programa, inicialmente semanal, agora quinzenal, com a minha rubrica “As estórias da Mariana” de leitura em português de histórias infantis, divulgação de livros, autores e ilustradores portugueses/lusófonos e de incentivo à leitura e ao gosto pelos livros junto da nossa comunidade mais jovem e menos jovem. E já lá vão cerca de cem livros lidos e uma vintena de entrevistas a autores e ilustradores, como Luísa Ducla Soares, Manuela Bacelar, Catarina Sobral, Ana Ventura, Rita Canas Mendes, Joana Estrela, Danuta W., Clara Macedo Cabral, Maria Assunção Ferraz de Oliveira, António Palhinha, Alberto Faria, José Francisco Rica, Júlio Isidro, entre muitos outros…Com esta atividade, constituí uma pequena biblioteca infantil, com todos os livros que li na rádio e que já foi exposta em Lucerna em abril deste ano, no evento Expo Cultura Lusa, “Os Livros da Rádio”. Gostaria de torná-la itinerante e poder levá-la, todos estes livros que li na rádio, até junto dos pequenos ouvintes para poderem vê-los, lê-los, tocá-los e manuseá-los também.

–Tens participado em muitos projetos culturais. Sentes que este é o caminho para mobilizar a comunidade pela cultura?

–Sim, acho que sim. Quando temos capacidades e qualidades para ser ativista cultural e para ser influenciador cultural e de mentalidades, devemos pô-las ao dispor da comunidade. Acho que tenho essas qualidades e capacidades e é isso que tento fazer voluntariamente, ser uma ativista cultural e divulgadora da cultura portuguesa na Suíça. Poderia fazer muito mais se tivesse apoios, nomeadamente financeiros e também se a nossa comunidade fosse mais unida, mais pro ativa e menos maldizente! E a comunidade um dia vai perceber que é pela cultura que nos impomos. Uma vez mais até já se estão a aperceber disso, Portugal caiu na Moda e os estrangeiros começam a apreciar e a valorizar a cultura portuguesa mais do que os próprios portugueses

—Um dos teus grandes projetos foi a exposição itinerante de fotografias de mulheres portuguesas. Pensas que a exposição possa ser de novo apresentada e… tens mais alguma ideia para o futuro?

–É verdade, a exposição e projeto que concebi e organizei com a colaboração da minha amiga Catarina Antunes, com fotografias de Nadir Mokdad e Carla da Silva, “Au-delà des clichés: Portraits de femmes portugaises à Nyon”, financiado pela “Ville de Nyon” em 2016 foi um projeto realmente fantástico que teve uma projeção enorme e muito sucesso. A exposição esteve patente ao público em várias cidades suíças, como Nyon, Genebra, Berna, Friburgo, Chaux de Fonds, Lucerna. Conseguimos chamar a atenção para as grandes mulheres que são as mulheres portuguesas emigradas na Suíça, alertar para os clichés que sofrem e mostrar à sociedade suíça as mais de 40 profissões diferentes que exercem as mulheres portuguesas, em Nyon, num universo de 165 mulheres fotografadas. Foi muito bonito este projeto e gostaria muito que ele ainda pudesse ser apresentado novamente, até mesmo em Portugal. Há algumas ideias, mas ainda não tomámos nenhuma decisão quanto ao futuro a dar a este acervo fotográfico e sociológico que temos em mãos.

Outros projetos? Não me faltam ideias, mas têm ainda que ser amadurecidas e trabalhadas! Boa vontade, dedicação e paixão há e já vimos que é meio caminho andado para as coisas resultarem, não há é os meios financeiros e apoios necessários para levar algumas destas ideias para a frente!

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here