Emigrar: uma solução, mas…para quem?

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Luís Barreira
Luís Barreira

Nos últimos tempos tenho seguido, com alguma curiosidade, o interesse dos média portugueses e de muita opinião pública esclarecida, pelo fenómeno da nossa emigração.
Jornais, rádios, televisões e conferências sobre o tema, têm sido frequentemente chamados a comentar a debandada dos portugueses que, por esse mundo fora, procuram a terra de oportunidades que a Pátria não lhes oferece.
Cheguei a pensar que, finalmente, os nossos cerca de 5 milhões de emigrantes passariam a ser alvo de uma atenção, que nunca lhes tinha sido concedida durante décadas, pelos orgãos de comunicação, pelos intelectuais, pelos deputados e pelos sucessivos governos de Portugal.
Mas,… afinal, a actual “dor” de ver partir os nossos homens e mulheres para o estrangeiro, está apenas focalizada nos nossos jovens licenciados, cuja formação seria importante para o nosso País.
Para trás fica o “grosso da coluna”, que se visita de vez em quando por objectivos políticos, que nunca foi objecto de uma atitude de aproximação a Portugal e a quem, rara e timidamente, lhes era concedida alguma protecção no País de acolhimento ou alguma vantagem no seu retorno, após uma vida de sacrifício, porque o seu País não foi capaz de lhes assegurar a sobrevivência.
Este silêncio mediático, agora quebrado em parte, tem a sua perversa explicação e, talvez por isso, tenha havido sempre uma certa vergonha/interesse em abordar o assunto!
De facto, para os Governos, independentemente da sua coloração partidária, a braços com um elevado número de desempregados e uma desertificação autorizada do seu interior, a emigração dos seus trabalhadores não é um desastre, mas antes um “bom negócio”: não afecta os recursos da Segurança Social, porque não recebem subsídios; enviam milhões para o País, através das suas remessas; consomem muitos produtos portugueses, o que ajuda as exportações nacionais e são muito menos a protestar em Portugal e a não votar contra quem os obrigou a partir!…
Para obter este “rendimento” sobre a “exportação” dos nossos trabalhadores, bastava os apelos à “saudade”, um ocasional elogio simpático à nossa capacidade de trabalho e sacrifício e uma ou outra referência pública daqueles que, pela “estranja”, se tinham notabilizado. A “crise” sucessiva, em que sempre temos vivido, só prolongava este “equilíbrio” sócio-económico!…
Mas agora, em relação aos jovens doutores, engenheiros ou arquitectos que partem, a consideração é diferente e eu concordo, mas por diferentes razões.
Se, num passado não muito distante me diverti, assistindo ao insucesso de uma reportagem televisiva que, numa estação de comboios em Lisboa, aguardava o regresso dos nossos emigrantes para as festas de Natal, concluindo que não vinha praticamente ninguém, porque vinham de carro ou de avião, as entrevistas que agora são feitas regularmente aos nossos jovens e recentes emigrantes, interrogando-os sobre se a sua partida foi por causa da crise nacional, obtêm respostas contraditórias para a opinião esteriotipada dos entrevistadores demonstrando, tal como antes, um profundo desconhecimento sobre os fenómenos da emigração. Se perguntassem à imensa maioria dos milhões de trabalhadores que antes partiram, não tenho dúvidas que a resposta seria afirmativa, porque foi a fome que os empurrou para esse destino.
No entanto, uma boa parte dos nossos jovens emigrantes, habilitados com cursos superiores, fronteiras abertas para viajar, conhecimentos linguísticos e técnicos, sem grandes compromissos familiares, vivendo num mundo globalizado e munidos de uma enorme ambição por conhecer o desconhecido e afirmar-se profissionalmente, as suas justificações assentam maioritariamente na falta de oportunidades de sucesso em Portugal e muito menos na luta pela sua própria sobrevivência.
Mas, são ou não são preocupante estas novas vagas de emigração? Claro que são e por diversos aspectos que não são apenas sentimentais. Estamos a perder a massa crítica que nos custou a pagar, a envelhecer ainda mais a nossa população, a contribuir para o “desastre“ económico das instituições sociais e a comprometer o capital humano necessário para o desenvolvimento económico nacional.
Se estes novos emigrantes já afirmam não querer regressar e a maioria dos “velhos” já se conformaram familiarmente em ficar por lá, quem ficará para “fechar a porta”?

 

Luis Barreira

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