Embaixador de Portugal em Berna deseja ser um embaixador de proximidade e sempre presente

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Dr. António Ricoca Freire

O novo Embaixador de Portugal em Berna entrou em funções oficiais no passado dia 16 de janeiro, quando entregou as suas credencias ao presidente da confederação, Alain Berset. Natural de Lisboa, com raízes familiares no norte litoral, é uma pessoa afável, atenta aos problemas e já com um conhecimento profundo sobre a comunidade portuguesa que vive na Suíça. O Dr. António Ricoca Freire deseja, acima de tudo, ser um embaixador presente e pronto a partilhar ideias que possam enaltecer os valores lusitanos em terras helvéticas. A nosso pedido, concedeu-nos uma entrevista em que nos dá a conhecer, sobretudo, um embaixador que deseja ser mais um elemento da nossa comunidade, com o sentido elevado da responsabilidade que tem em servir Portugal no seu trabalho como diplomata na Suíça.

Seria possível conhecermos o seu percurso como embaixador?
Iniciei a carreira diplomática ao serviço do Estado Português no ano de 1984, há quase 34 anos. Tenho tido uma carreira diversificada, embora com uma forte componente em África, de que muito me orgulho: servi na Embaixada em Luanda; fui Cônsul-Geral em Joanesburgo, o meu primeiro posto como Embaixador foi na Guiné-Bissau, num período de grande instabilidade política e acabo de chegar da África do Sul, onde fui Embaixador durante cinco anos. Também exerci funções, como conselheiro da embaixada, na Missão de Portugal junto das Nações Unidas em Nova Iorque, de 1995-1999, período em que Portugal foi eleito para o Conselho de Segurança. Imediatamente depois, passei 4 anos intensos e muito interessantes na Embaixada de Portugal em Washington, quando da transição do Presidente Clinton para o primeiro mandato de George W. Bush e os ataques terroristas a 11 de setembro de 2001. Este é, assim, o meu primeiro posto na Europa. Cheguei no dia 4 de dezembro à Suíça, tendo apresentado as minhas cartas credenciais ao presidente da Confederação, Alain Berset, no passado 16 de janeiro, data em que assumi oficialmente a plenitude das minhas funções de Embaixador. Como Embaixador de Portugal, considero serem igualmente importantes e estimulantes todas as áreas e temas que terei a meu cargo, designadamente as respeitantes à vasta e diversificada comunidade portuguesa neste país, sem esquecer o seu relacionamento com o país de origem.

Então, qual vai ser o papel do Senhor Embaixador num país como a Suíça?
De acordo com o mandato que recebi, devo trabalhar para o incremento e reforço das relações bilaterais entre Portugal e a Suíça, com um forte enfoque na componente económica, visando o incremento das relações comerciais e também a captação de mais investimentos no nosso país. No domínio comercial, Portugal tem tido um bom desempenho, com as nossas exportações a subirem cerca de 10% no ano de 2017 e uma balança comercial que nos é manifestamente favorável. Aquando da recente visita a Portugal da Presidente da Confederação Doris Leuthard, nos dias 28 e 29 de novembro passado, foi também reconhecido haver um clima de oportunidade para alargar e reforçar a cooperação bilateral, designadamente na área do desenvolvimento científico e tecnológico, em que Portugal tem realizado grandes progressos e ocupação uma posição de destaque no contexto da União Europeia. São dignas de menção as energias renováveis e as tecnologias de informação e comunicação, designadamente na modernização administrativa. Uma outra área que é muito importante é a da proteção e serviço da comunidade portuguesa – muito vasta e dispersa geograficamente, mas também, é preciso dizê-lo, dividida em pequenos núcleos locais. É minha intenção e meu projeto ser um embaixador presente e próximo desta comunidade, nos seus diversos setores e manifestações. Não poderei, naturalmente, ir a todo o lado mas procurarei participar nos eventos mas significativos e fazê-lo de uma forma abrangente, inclusiva e nunca discriminatória. Gostaria mesmo muito de trabalhar com a comunidade, no sentido de ajudar o movimento associativo a abrir-se mais para uma maior partilha de boas experiências entre as diversas associações e de modo a aproveitar sinergias na realização de projetos conjuntos e de maior envergadura. Em minha opinião, urge também trabalhar no sentido da modernização do movimento associativo e da sua abertura às mulheres e aos jovens. Julgo ter sido o Papa Paulo VI quem afirmou que “a Igreja só seria jovem, quando os jovens fossem Igreja”. No mesmo sentido, é importante que se criem condições para que os jovens se sintam mais atraídos e sintam parte do movimento associativo, como seja na renovação dos seus quadros associativos e nas eleições para os corpos sociais.

Estou a ver que já tem uma ideia da nossa comunidade…
Sempre me interessou e apaixonou trabalhar com as comunidades, como fiz como Consul-Geral em Joanesburgo e Embaixador em Pretória. Para poder participar e agir, é fundamental conhecer. Apesar de haver problemas específicos de cada comunidade, há outros que são transversais a toda a nossa diáspora. É fundamental que as organizações comunitárias sejam locais onde as pessoas se sintam acolhidas, se sintam bem – é importante estarmos num ambiente que sentimos como nosso e em que nos reconhecemos completamente. Mas é igualmente muito importante encorajar as associações a serem veículos de integração – sobretudo dos mais isolados e dos recém-chegados – na sociedade suíça, no país de acolhimento. Ou seja, as associações não podem ser apenas um refúgio e espaço de acolhimento mas devem também desenvolver projetos que sirvam o objetivo da integração, em articulação com as entidades e autoridades comunais e cantonais.

Mas a Suíça é um país muito complexo, até pela diversidade das línguas oficiais . Na sua opinião, como podemos apelar aos jovens para se envolverem no movimento associativo?
Claro que existem diferenças entre as pessoas que vivem na região francófona e as da região alemã, e também entre as da região italiana. Ainda não tenho um conhecimento profundo da comunidade para ser mais afirmativo, mas posso falar-vos da minha experiência na África do Sul, que empreendeu projetos concretos de envolvimento de toda comunidade, designadamente no acompanhamento e assistência dos setores mais carenciados. Há sempre espeço para ideias que possam aglutinar as pessoas em projetos comuns. Nesse sentido, reafirmo o meu propósito de ser um embaixador próximo e atento, com o inestimável apoio dos meus colaboradores, designadamente da Adida Social, a Dra. Ester Vargas – estaremos sempre prontos a colaborar, a trabalhar convosco.

Qual a importância do ensino do português, na sua perspetiva?
Estou determinado a dar a minha melhor atenção ao ensono da Língua Portuguesa; é uma área onde o Governo português, mais em concretamente o Instituto Camões (CICL), tem investido muito esforço e dinheiro. Portugal mantém um corpo de 78 professores em toda a Suíça, o que significa a cobertura de mais de 600 escolas e um universo de cerca de 10 mil alunos, das mais diversas idades, até ao final do ensino secundário. Gostaria que o Português viesse a ser integrado no ensino suíço, como uma língua estrangeira de opção. Hoje os destinatários do ensino de português são sobretudo as crianças e jovens da comunidade portuguesa, filhos de portugueses – há, por isso, muito trabalho ainda a fazer. Gostaria aqui de expressar o meu orgulho e apreço aos pais da comunidade portuguesa na Suíça, que se mostram tão empenhados em manter uma ligação próxima e forte dos seus filhos com Portugal. Estive recentemente em Biel, numa cerimónia onde foram entregues 80 certificados de Português a alunos que chegaram ao nível C1, que é o nível máximo de aprendizagem no estrangeiro. Registe-se também que foi criado um centro de apoio com vista a ajudar os pais a ultrapassarem as dificuldades de integração e desempenho dos filhos a nível do ensino e, com isso, a reduzir os casos de insucesso escolar. Apelo aos pais para que não deixem de falar Português em casa e para que mantenham os filhos no ensino da nossa língua, ainda que com as dificuldades e o esforço acrescido do ensino paralelo.

Que mensagem final gostaria de deixar à comunidade portuguesa residente na Suíça?
Para terminar, gostaria de reafirmar a toda a Comunidade Portuguesa quanto me sinto honrado por ser o Embaixador de Portugal na Suíça; gostaria que a comunidade soubesse que vou ser um embaixador próximo e presente junto dela. Ao assumir esta atitude de disponibilidade, estou a dar a todos os portugueses um sinal de apoio na proteção dos seus interesses, juntamente com o meu firme propósito de, na medida das minhas possibilidades, dar resposta às suas preocupações e anseios. Comove-me a ligação dos portugueses ao nosso Portugal, mas também o testemunho que tenho recebido das autoridades helvéticas, a nível nacional, cantonal e comunal, segundo o qual a comunidade portuguesa é respeitada e reconhecida, pelo seu trabalho honesto e pela sua capacidade de se integrar e interagir. Tenho um enorme orgulho e apreço pela nossa diáspora, neste caso concreto, pelas centenas de milhar de portugueses que vivem na Suíça mas não deixam nunca de ter Portugal no seu pensamento e no seu coração.

Dr. António Ricoca Freire
Dr. António Ricoca Freire
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