Edição Setembro 2014

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Cada vez mais os portugueses se distinguem no mundo pelo entusiasmo e pelo engenho com que ultrapassam as adversidades da vida. Seria interessante se se efetuasse um estudo, com uma base científico-sociológica, a fim de ver e analisar a evolução da comunidade portuguesa na Suíça. Sei que um estudo semelhante já foi elaborado, há uns anos, mas, na minha opinião, ficou muito aquém das expectativas. E isto porque muitos dos pontos relativos à forma como a comunidade se movimenta na sociedade helvética foram abordados, ainda que não devidamente aprofundados. Nomeadamente, o ponto sobre a estrutura organizativa helvética foi enaltecido, sem que alguns dos assuntos mais pertinentes fossem escalpelizados. Já antes da entrada do sistema democrático em Portugal, no 25 de abril de 1974, os portugueses saíam de Portugal à procura de novos rumos para a sua vida; uns por motivos económicos, outros devido à obrigatoriedade do serviço militar no ultramar e, por fim, ainda muitos por motivos políticos. Foi a geração da mala de cartão para França. A propósito, a palavra “democracia” tem origem no termo grego demokratia, que é formado por demos (“povo”) e kratia (“governo”). Trata-se, portanto, de um sistema político em que o povo governa, e não outros. Mas será mesmo assim? Muitas políticas do sistema democrático representativo levam as pessoas cada vez mais a procurar novos rumos para a sua vida. Mas, afinal, quais são os interesses da democracia representativa que levaram a um proteccionismo ousado a diversos grupos económicos? As políticas da democracia, nos dias hoje, nas sociedades ditas modernas, são elaboradas por pessoas, inseridas nos seus grupos políticos, eleitas pelo povo para esse propósito. Na ciência da sociologia, deve-se procurar a razão da origem de certos movimentos. Estou em crer que estamos perante um facto social, conforme nos deixou, no seu precioso legado, o sociólogo Émile Durkheim. Assim, no que diz respeito à Suíça, existe uma evolução da mobilidade social, já que, desde os finais dos anos 80, assistimos a um aumento constante do número de portugueses, de diferentes posições socioeconómicas, que procuram um novo rumo neste país. É também um facto que certas políticas no nosso país levam a uma desigualdade de classes, o que limita o acesso à educação e a empregos bem remunerados. Esta é, com toda a certeza, uma razão da origem dos movimentos da emigração. Existe a convicção, na sociedade helvética, de que os portugueses são apenas bons para os sectores económicos da construção, para a restauração e para as limpezas. Mas não é verdade. Somos bons em tudo; aliás, somos mesmo muito bons. Sinto um enorme regozijo com os nossos compatriotas que se afirmaram e alcançaram sucesso neste país, e que conseguiram estar inseridos no seio do movimento da tal mobilidade social. Temos capacidade para muito mais do que ter apenas braços para desempenhar um trabalho manual sob as ordens de terceiros. É claro que a dignidade do trabalho manual não tem limites e é tão nobre quanto outro. Mas somos um movimento que criou raízes, o seu próprio estatuto, ainda que, infelizmente, muitos teimem em não entender que a Suíça precisa dos portugueses – não só para a sua economia como também para o seu sistema social assim como para os seus números demográficos. Obviamente que este é apenas um pequeno apontamento, sem qualquer pretensão, para um estudo sociológico da nossa comunidade e que de certeza ir-nos-ia dar muitas mais respostas e outras tantas muitas certezas.

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