De Sion, José Fangueiro, o fotógrafo com visão do mundo real

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José Fangueiro

José Fangueiro vive em Sion desde o ano de 1981. Natural de Ovar, veio para a Suíça com apenas 18 anos de idade e cultivou desde sempre o gosto e a paixão pelo mundo da fotografia. Realizou já diversas exposições, e mereceu as honras da cidade de Ovar pelo trabalho que realizou sobre a Tanoaria, a arte de se construir os Pipos, que infelizmente se está a perder com o passar do tempo. Há 6 anos que se dedica a tempo inteiro à fotografia, e muitos das suas fotos vão para além-fronteiras e o seu primeiro trabalho foi sobre as vinhas no Valais. O José Fangueiro é casado, tem uma filha, e vai continuar a procurar aquele momento, aquela foto que pode valer a eternidade, como são o caso de muitas fotos que são intemporais. Expôs no Museu da Bairrada na Anadia, em Espinho, em Ovar e a sua exposição continua em forma itinerante para dar conta da vida e do trabalho de um tanoeiro. Nesta reportagem são publicadas três fotos dessa mesma exposição, que o José Fangueiro gentilmente nos cedeu para esta reportagem.

Como despertou o teu interesse pelo mundo da fotografia?
Venho de uma família muito humilde, e naqueles tempos de juventude já sentia uma imensa curiosidade pelo mundo da fotografia, apesar de que nem podia pensar em ter uma máquina fotográfica. Mas, a fotografia, para mim, é mais uma ferramenta para poder contar uma história.

Queres tu dizer que contas histórias através da fotografia?
Sim, é isso mesmo. Claro que muitos dos trabalhos que executo são encomendas e o cliente é que pede. Mas, no espaço que dedico à criatividade, procuro contar uma história através da fotografia. Muitos clientes, como conhecem o meu trabalho, pedem para eu fazer à minha maneira, e, sim, procuro transmitir sempre algo que por vezes se descobre apenas na fotografia.

Como foi o caso, então, das fotos das vinhas?
Sim, mas posso dizer que tive sorte naquele tempo, ao entrar num clube, em que aprendi diversas técnicas da fotografia, mesmo na parte da revelação. Fazíamos diversas exposições, aqui em Sion, infelizmente esse clube deixou de existir e tinha diversas atividades culturais, entre as quais também o teatro. Quando cheguei a Sion, havia poucos portugueses na região e comecei a colaborar e a conviver com muitos suíços…

Ainda te lembras de qual foi a tua primeira máquina fotográfica?
Sim, claro, e muito bem. Foi uma Yaschika, depois passei para a Nikon, e creio que ainda a tenho em casa.

Quer dizer que esse desejo foi sempre crescendo?
Claro, nunca parou. Houve apenas um episódio na minha vida em que não estive muito bem, por diversas razões, e nesse tempo deixei de ter vontade em fotografar, mas foi por um breve período de tempo, dado que essa mesma força voltou a aparecer.

O que é que procuras na fotografia?
Bom, em primeiro lugar, adoro viajar e encontrar pessoas, sobretudo pessoas artesãs, pela sua arte e por tudo aquilo que estas pessoas transportam na sua sabedoria ao longo dos tempos. Gosto de passar, caso seja possível, algum tempo com essas pessoas, não gosto de tirar uma ou duas fotos e ir-me embora. Não; gosto de falar, de conhecer essa pessoa e que então ela me deixe penetrar com a minha máquina fotográfica no seu ser, na sua arte… Não gosto mesmo de tirar fotos e vir-me embora. Não; gosto de gastar algum tempo. Tenho um pequeno episódio com um artesão aqui no Valais, em Sion, de uma pessoa que faz os sinos para as vacas à mão, mas que herdou essa mesma firma do pai. O pai, ainda vivo, ninguém conseguia falar com ele nem menos tirar-lhe fotografias. Pois bem, depois de falar muito com ele, de conviver, consegui fazer um trabalho fotográfico impressionante sobre esse artesão e quando mostrei as fotos ao filho, este nem queria acreditar que o tinha conseguido. Como tal, muitas vezes é preciso tempo para se conseguir a confiança necessária para se fotografar. Tudo deve acontecer naturalmente.

Qual foi o trabalho que mais te marcou?
Claro que foi sobre a Tanoaria e sobre os tanoeiros sobreviventes. Esta arte vem comigo desde a minha infância. Sempre adorei o ambiente de uma Tanoaria.

Esse trabalho foi exposto em Ovar?
Sim, foi exposto em Ovar e até aqui em Sion já fiz uma exposição sobre a Tanoaria. Corresponde a cerca de 40 fotos impressas sobre a arte do tanoeiro, mas tenho ainda muito mais material que poderia dar a conhecer. Mas para se contar uma história, chegam 40 fotos.

Esse trabalho valeu-te diversos prémios?
Sim, é verdade. Foi um trabalho que mereceu a atenção da autarquia de Ovar e fui premiado, o que me deixou muito feliz. Fui condecorado com a medalha do município de Ovar no passado dia 15 de julho. A exposição foi levada a diversos países, não as fotos todas, mas algumas delas, como foi o caso da Espanha, Estados Unidos, entre outros.

A fotografia sublime, aquela especial, acontece por acaso, ou procura-se?
Pode acontecer por acaso. A máquina fotográfica faz parte do meu dia a dia, tudo pode acontecer a qualquer momento, como um facto meteorológico anormal, mas pode acontecer; mas também é verdade que um fotógrafo está sempre à procura de algo especial.

Qual é a diferença entre uma foto a cor e a preto e branco? Pergunto, porque muitas das tuas fotos são a preto e branco…
Depende, uma foto a preto e branco pode acentuar um certo dramatismo. Depende da atividade da pessoa que estamos a fotografar; se essa pessoa faz trabalhos duros, pesados, pode criar-se uma certa atmosfera com uma foto a preto e branco. Uma certa carga emocional e dramática. A cor pode dar mais a harmonia, mais consensual, mas para mim uma foto é a preto e branco. Também fiz um outro trabalho sobre uma tanoaria em Esmoriz e foi um trabalho a cores. Mas, bem, tudo depende; a exposição inicial que fiz sobre a tanoaria foi a preto e branco e condiz com a história que que quis contar e acho que consegui.

É difícil ser-se fotógrafo na Suíça?
É complicado na Suíça como em qualquer lado. Apesar de ser autodidata, mas, sim, é muito complicado. Por exemplo, a área da reportagem é muito difícil, porque é um mercado muito exigente, mas vamos fazendo sempre algo.

Para se ser um grande fotógrafo é preciso ter uma grande máquina fotográfica?
Não. Não é preciso teres uma grande máquina, agora a verdade é que ajuda. Ajuda para se trabalhar a imagem, a nível de qualidade, entre outros fatores, mas uma grande foto pode também tirar-se até com o telemóvel. Tenho boas fotos com o telemóvel, muitas vezes é o momento que faz a diferença. Mas claro que uma boa máquina ajuda.

José Fangueiro
José Fangueiro
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