“Crónicas de Lisboa” – Voltou o futebol, graças a Deus !

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O relativo sucesso que a selecção nacional de futebol ia conseguindo no Euro2012 anestesiou os portugueses, levando-os a esquecer a crise e muita gente a fazer figura de rico, com destaque para a Federação de Futebol (FPF) que tratou dos seus “operários” (os jogadores) com luxos muito acima das selecções de outros países mais ricos do que o nosso (as despesas de alojamento na Polónia eram as mais caras de todas as dezasseis selecções participantes!). Face às críticas desse esbanjamento e que poderia ofender milhares de portugueses a passarem por dificuldades, a direcção da FPF veio dizer que tudo aquilo não custava um cêntimo aos impostos dos portugueses, porque a federação tinha obtido, com a sua participação no torneio muitos milhões para os cofres da instituição. Falou verdade o porta-voz da FPF, mas isso não retira argumentos morais e fundamento das críticas, porque, de facto, assim é, mas acabamos por ter uma FPF rica num país pobre e cujo futebol vai penando por falta de recursos financeiros que lhe permita a sustentabilidade e a sobrevivência, até para formar jogadores portugueses  para servirem a selecção. Aliás, um influente dirigente dum clube grande, tinha dito algum tempo antes que a FPF era a única instituição/empresa portuguesa que se dava ao luxo de ter milhões de euros em depósitos a prazo na banca. Acrescentou ainda que gerava essa riqueza sem ter operários ou fábricas pois estes (os jogadores) pertenciam aos clubes. Contudo, estas criticas e os seus eventuais incómodos amenizaram com a oferta de viagens e estadias para assistirem a alguns dos jogos da selecção.

A selecção “morreu na praia” pois o terceiro lugar soube a pouco para quem (os portugueses habituados a exageros no futebol) tinham expectativas elevadas, isto é, sermos campeões. Só perdemos com dois colossos (económica e futebolistica – Alemanha e Espanha) e ganhámos a três selecções de países semelhantes ao nosso (Dinamarca, Holanda e Rep. Checa). As “contendas” desportivas, através das selecções nacionais, representam hoje as batalhas de outros tempos travadas entre os exércitos nacionais tal os exacerbados nacionalismos que envolvem os adeptos de cada país, nem sempre de forma pacífica, porque uma derrota num jogo é equiparada a uma batalha perdida contra a nação rival, ainda mais se as feridas das guerras reais ainda não estiverem saradas. É claro que há bons e maus exemplos, isto é, povos com um elevado “fair play” e outros no oposto, embora as “batalhas” mais violentas sejam perpetradas por hooligans, aqueles a quem as batalhas reais de outros tempos fazem falta para os amansar. Ali poderiam manifestar a sua bravura e heroísmo.

Enquanto o futebol dava os primeiros pontapés da nova época, começaram os jogos olímpicos (JO), este sim o maior acontecimento desportivo a nível mundial, pois nele participaram atletas de mais de duzentos países, embora com enormes desigualdades, mais correlacionadas com a riqueza e desenvolvimento e não tanto com a dimensão geográfica e populacional de cada país. É nos desportos individuais que o espírito olímpico (“Citius, Altius, Fortius”, que significa mais rápido, mais alto e mais forte) é levado ao extremo e onde os exemplos de coragem, competência e perfeição mostram as diversas faces do desporto. Lágrimas de alegria reveladoras dos sacrifícios passados para conseguir o êxito e a glória, mas também de tristeza. Muitas são as lições que esses “heróis” (“os nossos heróis”- chavão muito utilizado pela nossa imprensa, sempre pródiga no aproveitamento emocional destes acontecimentos) nos deram, por vezes praticantes de modalidades das quais só ouvimos falar nos JO, e que voltarão ao seu anonimato, porque vivemos no “país da bola” que monopoliza a nossa imprensa desportiva e generalista. E depois são os mesmos que dizem que não temos desporto em Portugal. A culpa desta triste realidade é de muitos, mas a da imprensa é bem maior. Voltou o futebol, graças a Deus, e assim, pobres de nós, já temos com que nos entreter com a suas “guerras”, porque os aspectos negativos superam os positivos do futebol português.

Na actualidade, os JO são muito mais do que manifestações desportivas, e acima de tudo exibição do poder das nações mais ricas. São como uma “guerra” cujas vitórias nas batalhas se medem pelo número de medalhas ganhas, para gáudio da imprensa que, no nosso país, até fez chacota pelo facto dum só atleta americano já ter ganho mais medalhas do que Portugal, desde que participa nos JO. É uma realidade, reveladora não só da nossa dimensão, mas da nossa “pobreza desportiva”. Mas fazer chacota disso é baixo jornalismo e também ela sinónimo doutro tipo de pobreza nacional.

Serafim Marques – Economista

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