Crónicas de Lisboa – Um “Saltillo” ao Brasil

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O futebol representa agora a “força” das nações e as suas equipas são os novos exércitos e guerreiros. Juntando-lhes o hino e a bandeira nacional, o cenário transforma-se nas maiores manifestações nacionalistas dos países em duelo, com as televisões a transmitirem toda a emoção de milhares de espectadores ali presentes. Por vezes, as vozes ficam roucas e as lágrimas ameaçam cair ou caem mesmo pela face dos presentes ou naqueles que estão em casa a assistir. Mesmo os cidadãos mais indiferentes ao fenómeno sociológico que é o futebol ou o desporto em geral, se deixam envolver nessas emoções. Quem conseguiria ser indiferente a tanta manipulação de sentimentos, emoções, paixão e nacionalismos? Tudo isto seria positivo, até porque as guerras de outrora se travam agora num estádio, sem armas de morte, se a imprensa não exagerasse na manipulação das massas e no apelo ao nacionalismo em torno dum jogo de futebol, porque não o fazem(os) noutras situações, essas sim de maior importância para a vida dos povos.

A “equipa de todos nós”, a “representação nacional”, etc, são exemplo de designações que ultrapassam os limites do bom senso e podem acicatar à “guerra” entre adeptos “inimigos”. Parece que só a “selecção” une os portugueses, independentemente da parte do globo onde vivem e que ali, por vezes longinquamente, só o futebol lhes leva “o calor da pátria”. Chega a ser arrepiante as manifestações de “portuguesismo” a que a saudade, tipicamente portuguesa, ajuda a elevar. Seria bom se isso não acontecesse só à volta do futebol (foi vergonhoso o que alguns cidadãos fizeram, na cidade da Guarda, aquando das celebrações do “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”) e, paradoxalmente, tal ocorre também quando está envolvida a equipa dum clube português, mesmo que a essa equipa seja constituída, maioritária ou quase exclusivamente, por jogadores estrangeiros. Este excesso, enfraquece o valor da “equipa nacional”, porque limita a base de selecção de jogadores portugueses, porque no futebol não há milagres, apesar de, por vezes, eles poderem acontecer. Ronaldo tem razão quando disse que que a “equipa de todos nós” é de qualidade mediana e, como tal, não poderia alimentar o sonho de ganhar a selecções muito melhores do que a nossa. Parece que “caiu o Carmo e a Trindade” por ele ter tido a coragem de dizer aquilo que poucos o dizem, preferindo alimentar falsas ilusões. Esta mania de querermos ser grandes no futebol, levando milhões de portugueses a elevarem as expectativas, acaba por redundar em frustração, se a derrota acontece, porque a realidade é essa mesmo.

Somos um povo com memória curta, porque a euforia, enquanto dura, nos leva a esquecer a realidade e a desejarmos sucessos, sem grande esforço. Olhemos para a nossa história futebolística e nela encontramos fracassos que põem a nu os nossos piores defeitos: facilitismo, improvisação, falta de rigor e profissionalismo, euforia sem sustentação, pessimismo extremo, se a derrota acontece, etc. Lembram-se os adeptos portugueses que a “nossa equipa” se apurou para estar presente no Brasil graça aos “milagres” de Ronaldo nos dois jogos do “play-off” contra a Suécia, em Novembro, porque no segundo lugar no grupo, empatou (duas vezes) com Israel e Irlanda do Norte? Tal milagre também ocorreu em 1985/86 quando no último jogo precisava, para ser apurada para o mundial no México, de ganhar na Alemanha e esperar que a então Checoslováquia ganhasse à Suécia. Era mais do que um milagre, mas tal aconteceu exactamente assim, graças ao golo que a selecção marcou à ex-RFA. Foi a euforia total e o nosso país voltaria a estar presente numa fase final dum mundial, vinte anos depois do “brilharete” de 1966, mas toda a equipa e os seus responsáveis também ficaram “bêbados” com esse êxito que caiu do céu e descuraram princípios básicos a ter em conta para quem procura o sucesso ou, no mínimo, evitar fracassos e que alguns envergonham o país. Escolheram, para “quartel general” no México, Saltillo e, fruto do amadorismo da FPF, agora com gente bem paga, tudo haveria de acontecer: ameaça de greve dos jogadores, por questões com os prémios monetários, falta de condições logísticas do local escolhido, erros na escolha de jogadores, etc. Mau de mais para uma “equipa nacional” dum país secular ou, nesse caso, já não é a “representação nacional” e os portugueses que está posta em causa? A vergonha e a má imagem que transmitiram de Portugal foi maior do que o desastre futebolístico, pelo que no regresso trouxeram com eles o famoso “caso Saltillo”, que provocou danos no nosso “mundo da bola”.

Agora no Brasil, a “equipa nacional” acabou por repetir alguns dos erros da então ida ao México, agora com maior amplitude porque as televisões “vivem com o futebol” e vasculham tudo o que ele tem de mau. Desta vez será o caso “Campinas” , tal como o foi também Saltillho e o Macau-Coreia-Japão de 2002.? Culpa de quem? “No futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola.” e a “lavagem da roupa suja” já começou ainda no Brasil e durará por muito tempo, talvez até ao regresso às vitórias, em Setembro no Portugal vs Albânia, para a fase de apuramento para o Euro2016 em França. Com Paulo Bento como seleccionador? Parece que os portugueses, não só no futebol, serão sempre muito melhores se dirigidos por estrangeiros ou trabalhando noutros países. Que o digam os nossos emigrantes que “investem” tanto no sonho de verem a “sua” equipa fazer boa figura e depois sentem-se frustrados e desiludidos. “Andamos atrás da nossa equipa e depois eles não têm consideração pelas comunidades”- dizem. Se aqui “dói”, lá longe e por vezes no próprio país que foi melhor do que nós em atitude, raça, luta, etc, ainda dói muito mais. Este mundial no Brasil foi a oportunidade única, por tudo o que une os dois países, mas foi perdida por Portugal, através da sua “equipa nacional”, de encher de orgulho os milhões de portugueses daqui e dos quatro cantos do mundo. Em vez disso, a comitiva deu um “saltillo” ao Brasil. Campeões, nós? Sim, em tudo de bom que o português tem dentro de si e não apenas no futebol porque nesse há outras grandes potências (Espanha, Itália, Inglaterra, etc) e também foram eliminadas, mas “cairam de pé”, como outras equipas nacionais. Porquê esta triste sina nossa?

Serafim Marques

Economista

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