“Crónicas de Lisboa” – Os Muros da Indiferença

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A vida é um risco, para todos nós e esse risco nasce logo com o nosso próprio parto, ou mesmo antes. Assim, cada um de nós corre riscos de vida desde o nascimento até à morte, esta última como etapa final desse mesmo risco, se ela ocorrer, não por “morte natural”, mas sim por actos mais ou menos violentos. Há riscos cujas causas não dominamos e, por isso, nos ultrapassam, por mais cuidadosos que sejamos. Outros e são muitos, dependem da acção e influência de terceiros ou da própria natureza, mas, em muitas situações, descuramos os cuidados respectivos, sendo, por vezes, excessivamente temerários.

Infelizmente, no nosso país, muitas das mortes violentas e prematuras têm causas por riscos assumidos por nós próprios, alguns subavaliando os efeitos e as consequências, mas noutros, o homem desafia as diversas “leis da natureza”, em sentido lato. Às mortes provocadas por acidentes rodoviários, “autêntica guerra” que assola, há muito, o nosso país, acrescentemos as mortes prematuras e causadas por outros riscos assumidos como o consumo do tabaco, do álcool, das drogas, etc. Todos os dias, ocorrem mortes provocadas por estes riscos assumidos e os números estatísticos são assustadores, mas não fornecem matéria jornalística de interesse mediático, excepto alguns acidentes rodoviários brutais que, vitimam, predominantemente, pessoas na plenitude da vida. Há ainda muitas mortes provocadas por acidentes de trabalho, principalmente, em sectores como as pescas (este o sector com maior indíce de sinistralidade profissional), na construção civil, vítimas de homicídios por assaltos, cada vez mais violentos, tal como as mortes por violência doméstica.

No espaço de cinco meses, morreram oito jovens estudantes universitários e, talvez por isso, a morte, como perda definitiva, é mais dolorosa para os familiares, diria mesmo inimaginável a dor sentida pelos pais, até porque alguns eram filhos únicos. Aquelas mortes, profundamente mediatizadas e com matéria jornalística inesgotável, foram provocadas por causas imprevistas ou por riscos assumidos pelos jovens? Se na Universidade do Minho (UM) o causador da morte pode ser atribuída à queda dum pequeno muro, nas mortes na praia do Meco também estas podem ser imputadas, em sentido figurado, a diversos “muros”, não em queda, mas na sua vertente de fortaleza, porque as praxes da universidade lisboeta estavam bloqueadas por “muros fortificados”, cuja transponibilidade só era acessível a pessoas com mentalidades e atitudes que extravasavam a sua formação, porque a vida universitária é um local e um tempo de formação e não de diversão ou doutro predominante fim. A solidez dos “muros” era tanta que ninguém externa às COPAs conseguia ver ou imaginar o que ali se passava ou viam e assobiavam para o lado?

No caso do muro da UM, este sim visível por todos que, por várias razões, estavam ligados àquele recanto da praça, porque o perigo era visível e, por isso, já tinha havido uma acção de queixa junto da CMBraga, embora esta tenha devolvido a queixa para a entidade com responsabilidade na manutenção daquela propriedade. Uma dúvida de quem era o dono do muro? Outras pessoas, como disse um residente que ali deixou de estacionar a sua viatura, porque temia que o muro lhe caísse em cima e a danificasse, contornavam o problema, como é muito usual na nossa mentalidade, e nada fizeram. Quem, como vizinho ou mesmo familiar, não conhece ou presencia casos de violência doméstica e infantil e fecha os olhos ao que vê ou sabe, protegendo os muros da violência e da indiferença?

Não tenho dados fidedignos dos factos, nem sou juiz, para concluir se nos dois casos das mortes dos universitários se tratou de praxes ou se foram causas da natureza, num caso a “onda assassína” e noutro o pequeno “muro velho”, mas ambos os casos deveriam servir de exemplo para levar os jovens a pensarem em actividades de menor risco de vida, porque só têm uma. Aliás, estes dois factos ocorridos poderiam levar-nos a concluir que alguns estudantes universitários estão mais interessados em aplicarem as suas energias, próprias da idade, em todo o tipo de actividades lúdicas e hedonistas e não tanto na sua formação escolar e humana. E, afinal, há tantas áreas, por exemplo, voluntariado (social, da natureza, etc), prática desportiva, etc, actividades muito mais enriquecedoras do que algumas das praxes e actividades similares que eles praticam. O sucesso escolar, no tempo e em qualidade, depende muito da aplicação e dedicação de cada estudante, pelo que o desvio de tempo e energias, para certas actividades, terá os seus efeitos na vida formativa: estudar e aprender. Atente-se, por exemplo, que os Duxes são eleitos dentre os alunos que tenham mais anos de matrícula do que anos tem o respectivo curso! Não é preciso ser “doutor” para saber ler este triste status. Significa que aqueles não tiveram um aproveitamento escolar a 100% e, no caso da UM, é o contribuínte que paga esse custo real dum aluno universitário, no mínimo, o quíntuplo daquilo que ele paga, se não tiver ainda uma qualquer bolsa de estudo. Dói ver estudantes universitários, se calhar aplicados nos estudos, terem que abandonar os estudos, por incapacidade financeira das famílias, enquanto outros queimam recursos, próprios e públicos, pavoneando-se em festas de capa e batina, por vezes a “cheirarem a hábitos caducos”.

Fala-se tanto em revolução como se esta significasse um passe mágico que tudo de bom traria e tudo de mau levaria, ambas sem qualquer esforço de cada um de nós. Talvez obra dum qualquer ditador ou do esforço dos outros, mas a “revolução” nasce e vive dentro de nós, em cada dia e em cada papel que desempenhemos. Começa na família, passa pela escola/universidade e continua depois na vida activa, porque uma nação é o fruto daquilo que os seus cidadãos são e fazem por ela. De facto, necessitamos, urgentemente, duma revolução nas mentalidades e nas atitudes, para que os “muros da indiferença” não existam na nossa sociedade.

Serafim Marques

Economista

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