Crónicas de Lisboa “O Barulho das Carroças Vazias”

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“Uma certa manhã, o meu pai, homem muito sensato, convidou-me a darmos um passeio pelo pinhal e que , com alegria, eu aceitei. Ele deteve-se numa clareira e depois de um pequeno silêncio, perguntou-me: filho, além do cantar dos pássaros, ouves mais alguma coisa? Apurei os ouvidos e respondi-lhe: oiço o barulho duma carroça. Isso mesmo, disse-me ele, mas é uma carroça vazia. Surpreendido, perguntei-lhe, como sabia ele que a carroça vinha vazia, se ainda não a tínhamos avistado! Respondeu-me que é muito fácil saber que uma carroça circula vazia por causa do seu barulho. Quanto mais vazia a carroça vier, maior é o barulho que ela faz”.Tornei-me adulto, e sempre que vejo uma pessoa a falar demais, gritando para intimidar os outros, com prepotência e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, lembro-me logo do que o  meu pai me disse:”Quanto mais vazia a carroça anda, mais barulho ela faz”. Aquela lição de vida, leva-me a fazer a analogia com os “barulhos ensurdecedores” ,emitidos por muitos dos nossos políticos, ex-governantes, empresários, sindicalistas,comentadores, etc, e agora também o  povo que, com razão ou sem ela, também recorre a esta forma de protesto, gritando e verbalizando ofensas graves e ameaças ao direito dos outros, sejam eles governantes eleitos ou simples cidadãos, que a democracia tolera mas que a fere nos seus princípios e valores.

Os meios de comunicação social, todos eles com papeis impriscindiveis nas sociedades modernas e democráticas, exercem um enorme poder, ou não fossem considerados o 4º. poder sobre os agentes políticos, cidadãos, etc. A concorrência entre eles, especialmente as televisões e na luta pelas audiências que lhes permite melhores contratos na obtenção das receitas financeiras, necessários à sua sobrevivência, leva-os a adoptar diversas estratégias, visando o domínio sobre os seus concorrentes. Se aos privados se compreende estas guerras, já à RTP (televisão e rádio), que tem vivido com as receitas provindas das contribuições, forçadas, dos consumidores de electricidade e das subvenções do OE (dos nossos impostos), bem como das receitas da publicidade, se exige que se norteie por outras práticas e objectivos, isto é, pela “prestação do serviço público” de rádio e televisão, duma forma isenta, informativa e também formativa. Numa palavra, que seja diferente dos outros dois operadores de televisão, estes tendo como objectivos finais a rentabilidade dos capitais investidos pelos seus accionistas. Obviamente que nem oito nem oitenta,isto é, nem como defendia Salazar (“Um Estado nacional deve vigiar a sua imprensa e conduzi-la na direcção dos interesses comuns”), nem com uma certa irresponsabilidade e manipulação das massas.

A produção televisiva, necessita também  de “vedetas” e no que aos comentadores de política diz respeito, tentam contratar os melhores “papagaios”, de modo a abafarem os seus concorrentes, com o   ”barulho” emitido pelos mesmos. Têm sido muitas as doutas personalidades que, aos longo dos anos  “botam palavra” nas televisões e por ali têm passado homens e mulheres de vários quadrantes politico e partidários, com elevado nível e isenção n esse importante papel de debate, de informação e formação, mas,  também com muito joio à mistura, isto é, alguns que ali exibem a sua incompetência, mas acima de tudo, a sua falta de ética e de isenção. Mais preocupante é ainda o facto de muitos desses comentadores terem exercido o poder e, alguns, serem também responsáveis pelo estado a que o nosso país chegou. Querem fazer crer de que são os donos da razão e do saber e em vez de (in)formarem os espectadores, convertem-se em verdadeiros intoxicadores das mentes menos preparadas, provocando-lhes estados de revolta e sofrimento, enquanto eles, pagos a peso de ouro, observam da sua cátedra dourada. É revoltante  e o cúmulo está agora a acontecer, o anúncio de que a RTP, contratou José Sócrates para voltar ali, como comentador político. Será convertido em vedeta para combater os craques da SIC e da TVI na mesma área televisiva, isto é, “botar palavra”, sem qualquer responsabilidade dos seus actos políticos passados e dos efeitos, no presente e no futuro, tal como outros o fazem nos canais privados. Mas não vem só e, pasme-se, parece que Ferreira Leite irá para a TVI! De acordo com a imprensa, Dias Loureiro terá sido convidado, mas recusou, atitude que Sócrates entendeu não fazer, porque, tal como está a situação no nosso país, não há ainda espaço para os seus comentários políticos. O que irá comentar, ele que  teria mais a que responder, em vez de comentar? Fará como os outros, vindo aumentar ”o barulho das carroças vazias” e provocar mais fracturas no espectro político português, tão carecido de consensos e duma conjugação de esforços, que a própria UE exige. Contudo, custa mais aceitar e a entender a atitude da RTP que, ou não avaliou bem os efeitos, já em efervescência, ou tem objectivos escondidos. Será para fragilizar José Seguro, ele o agitador-mor do estado social, laboral e politico-partidário?Mas há também responsáveis no PS que estão contra este regresso e consideram ”uma má ideia” ou “uma decisão pouco prudente”. Isto é mais um mau exemplo da politica à portuguesa e que o povo não merece ou será um castigo por causa da qualidade dos políticos que gera?

Serafim Marques

Economista

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