“Crónicas de Lisboa” – Já Brilham as Luzes de Natal

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Sem ofensas, os engenheiros, no nosso país, são as pessoas mais dotadas técnico-profissionalmente, assim se julgam alguns deles. Dizem saber de tudo, às vezes menos de engenharia! Tivemos um Primeiro Ministro (PM) que até, por mais do que uma vez, se decidiu “dar lições de economia”, para justificar a tomada de medidas que poderiam ser contestadas pelos seus efeitos na Economia do país ou na sua oportunidade. Quem não se lembra dele ter dito, numa Conferência em Paris que: “Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei” (sic).

Noutra altura, para justificar o lançamento do Parque Escolar (PE), argumentou que, face à crise que se iniciava, era necessário injectar dinheiro na economia do país para combater essa recessão. Igualmente para defender, quase a raiar a vitimização e quando a corda da bancarrota já estava para ser atada ao pescoço do país, perdão, ao nosso, a prossecução do TGV (Porto e Madrid), nova Ponte sobre o Tejo, novo Aeroporto de Lisboa, etc, usou os mesmos argumentos da “economia do senhor engenheiro”. Mas esqueceu-se de citar algumas das variáveis básicas que se aprendem nas aulas de Economia ou Gestão, por exemplo Rendimento (Rd); Consumo (Público e Privado); Investimento (I) e Financiamento (F), Receitas; Despesas; Procura (Interna e Externa – exportações), Défice, etc, porque a Economia é uma ciência viva e interactiva, isto é, as variáveis, através dos agentes económicos a que se destinam, influenciam-se e interagem. Esqueceu-se de dizer, na altura da sua acalorada defesa de tais investimentos (ou elefantes brancos?), quem, como e quando esses investimentos públicos seriam pagos e o efeito que teriam na nossa elevada Divida Pública, Juros, défice crónico, hipotecando o futuro dos nossos filhos e netos, etc. Soubemos, depois, que ele não se esqueceu, porque na atrás citada palestra apara jovens ele disse que “as dívidas públicas não são para pagar mas para serem geridas, qualquer estudante sabe isso, acrescentou”(sic). Aliás, esta “aula” foi agora, aquando da sua prisão preventiva, exibida várias vezes na televisão!

Imagine-se que tais projectos megalómanos teriam avançado mais do que já estavam, sim porque já havia estudos que tiveram que ser pagos, a austeridade que nos foi imposta pela “Troika” seria ainda mais severa para nós, não tenhamos dúvidas. E depois dizem, os “herdeiros” do ex-PM, que a austeridade é um castigo dos Deuses ou do governo que lhe sucedeu, depois da ameaça de bancarrota a que o país esteve em risco de cair, com terríveis efeitos na nossa economia e na nossa sociedade.

De facto “qualquer estudante de economia sabe” que à Despesa (mais o I) corresponde sempre uma Receita, pelo que um euro que um cidadão ou uma empresa gaste, vai para o “bolso” de alguém como Receita e que , parte dele , pode ser seu Rendimento líquido e com ele poderá fazer despesas. É assim que funciona o “circuíto económico”, pelo que parando ou sendo mais lento, surge a recessão económica, desemprego, etc, como qualquer cidadão sabe. Por isso, tinha “razão” o nosso PM de então ao argumentar que o Estado tinha que fazer despesa e investimento como aquelas obras, para combater a recessão que se anunciava, tal como já tinha feito ao lançar o programa de renovação do PE, este sim mais gerador de valor interno dos que os outros, onde a componente externa foi mais elevada. Mas infelizmente, o programa deixou maus exemplos e foi, como algum disse, um “forrobodó” e desnorte nos gastos dos dinheiros públicos. Aliás, a sua então então Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, chamada, mais tarde, ao parlamento para justificar os problemas da empresa PE, criada para gerir o programa, “calou” os deputados, dizendo que o “o programa foi um êxito e de festa para as escolas, para os alunos, para os arquitectos, para os construtores e para a economia portuguesa”, (sic) . O povo ficou espantado com a palavra “festa”, porque sabe que enquanto o dinheiro durou, e as derrapagens orçamentais não fugiram à regra, fizeram-se escolas com muitos luxos ou desperdícios, mas para outras, essas mais carenciadas, o dinheiro não chegou, porque o programa foi suspenso.

Vem tudo isto a propósito por causa das luzes de Natal que enchem algumas das ruas e praças das nossas cidades, vilas ou simples freguesias, como é aquela em que vivo, em Lisboa, e que, diga-se, está linda a zona central da freguesia. É uma obra de Junta que, de acordo com as “lições do engenheiro”, está a fazer despesa que, obviamente, será receita de outros e embora com alguns recursos humanos da edilidade (face ao novo sistema de delegação de tarefas feitas pelas câmaras nas juntas de freguesia), mas com materiais produzidos algures, talvez parte o seja na China. Não se discute se a opção dos muitos promotores e financiadores da luzes de Natal por esta despesa é a melhor, mas é certo que a factura terá que ser paga e, espera-se que algumas das autarquias “falidas” não tenham caído nesta idílica tentação, embora os efeitos psicológicos, junto dos consumidores, seja também uma variável económica muito importante para combater a crise de consumo e, deste modo, agradar aos agentes económicos. Haja festa e porque é Natal, mas temo que, voltando a uma certa euforia consumista, alimentada em muito por bens importados, se esteja a querer antecipar o fim da crise, palavras ditas e reeditas por muitos agentes se for do seu agrado dizer isso, “vislumbrando-se já a luz ao fundo do tunel”? Mas, depois da “desmontagem do circo natalício”, assente cada vez mais no “consumismo”, como se não houvesse, pelos visto já não há para muita gente, outros valores em que o período natalício deveria assentar. Depois se verá quem paga, mas, normalmente, é o cidadão contribuinte que paga, porque “não há almoços grátis”.

Serafim Marques

Economista

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