“Crónicas de Lisboa” – Greves nos Transportes? Contribuínte Paga

0
747

A “revolução industrial”, aqui com num significado contrário ao termo histórico, ocorrida no nosso país, nestes últimos anos, levou à agonia de sindicatos outrora poderosos, por exemplo dos metalúrgicos, etc, pelo que os sindicatos mais fortes, na actualidade, representam, essencialmente, os trabalhadores do Estado e das Empresas Públicas (EPs), estas essencialmente do sector dos transportes. Greves nas empresas privadas são muito raras, embora as greves dos trabalhadores da cerâmica de Valadares, cuja partidarização foi demais evidente, seja quase uma excepção. Nas empresas privadas, com aquela triste excepção e que, pelos vistos, não impedirá a morte duma empresa de referência no seu sector, não acontecem porque as negociações não chegam a esse ponto extremista ou porque a força dos trabalhadores é muito reduzida e a sua capacidade para suportarem os custos duma greve surtiria um efeito ainda pior nos seus rendimentos. Mesmo aquelas que ocorrem, são, normalmente, por salários em atraso e que, desgraçadamente, vão acontecendo e cujas justificações nem sempre são claras ou, pelos menos, são desresponsabilizadas os seus administradores. Há, nalguns encerramentos de empresas, histórias mal contadas e que deveriam ser objecto de averiguação de eventuais responsabilidades dos seus administradores e as consequentes penalidades.

Por que não criar, na lei, a impossibilidade de exercer negócios, por contra própria ou alheia, a todos aqueles que fossem responsabilizados, em dolo ou negligência, por falências?

Talvez muita coisa mudasse no nosso tecido empresarial e clarificaria muita coisa na concorrência.

Ora não é esse cenário que acontece no Estado e EPs, onde não há salários em atraso, não há encerramentos de empresas e os salários, globais, se incluirmos os vários benefícios, estão muito acima da maioria dos trabalhadores do sector privado, o tal onde os protestos não têm força ou a mentalidade é muito diferente.

Aqui, tudo serve para fazer greves, recorrendo agora às greves parciais, cujas perdas para as empresas são maiores, (por exemplo, têm que pagar o salário àqueles que não aderem mas não podem produzir, porque outros estão em greve) mas para os trabalhadores envolvidos a perda é menor.

Mesmo podendo ser acusado de reaccionário, termo muito usado pelos revolucionários, donos da razão e possuidores de todas as virtudes, eu chamaria a isto pouca vergonha, porque para protestarem contra algo que os afecta ou insatisfação, nalguns casos, no corte dalgumas regalias de privilegiados, não hesitam em recorrer à greve.

A “greve é um arma” ao dispor dos trabalhadores e, como todas as armas, deve ser usada em último recurso, mas, infelizmente, as greves no sector dos transportes (CP, Metro, etc) já fazem parte do dia a dia de cada português, sofrendo-lhe as consequências de forma directa e indirecta.

As administrações das EPs não conseguem impedir as greves, porque cedendo às reivindicações ficariam manietadas?

Os custos dessas greves são elevados e que, desgraçadamente, contribuem para engrossar os enormes prejuízos do sector e que acabam por ser pagos com os nossos impostos. Recentemente, as administrações do Metro de Lisboa e dos STCP (Porto) apresentaram os seus resultados contabilisticos, evidenciando os enormes prejuízos do período, fortemente influenciados pelos juros das dívidas acumuladas dessas empresas, obviamente referentes a capitais de investimentos mas também para cobertura de prejuízos  passados. Com estes problemas estruturais e que os trabalhadores das EPs dos transportes, todas elas fortemente deficitárias, conhecem bem, aliados à crise que o nosso país atravessa e cujos sacrifícios são pedidos também aos utilizadores dos transportes (aumentos das passagens) e/ou meros contribuintes,

o egoísmo de milhares de trabalhadores sobrepõem-se a tudo, mostrando-nos que a solidariedade entre trabalhadores é uma utopia que os românticos ideólogos nos tentaram impingir. Cada um “puxa a brasa à sua sardinha”, mas ganham sempre aqueles que tiverem a tenaz maior ou se os outros a não tiverem.

Aliás, em período de greve, muitas são as vítimas que dizem “palavras tolas” de apoio aos grevistas, e não entendem que eles são egoístas. Aos reformados (nos quais me incluo) e aos trabalhadores do Estado, foram retirados direitos (reformas e salários), para alem de muitos outros, mas comuns a todos ou quase contribuintes/consumidores, mas não temos “armas” para lutar contra a nossa entidade patronal, o Estado. Se tivéssemos a mesma força, faríamos também uma greve. Eu que trabalhei, no sector privado, cinquenta anos, nunca fiz greve,

pelo que me custa a “engolir” as greves banais dos tempos de hoje e ainda mais num período de austeridade. Assim não pagaria, mas, indefeso, terei que ser solidário, à força, porque o Estado “roubar-me-à”, para cobrir os erros e as reivindicações de outros. Basta.

Serafim Marques – Economista

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here