Carlos Ramos recebeu a Medalha de Mérito e é um homem do Movimento Associativo

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Carlos Ramos nasceu no dia 10 de novembro de 1958 e viveu momentos trágicos  no acidente ferroviário no dia 11 de setembro de 1985 de Alcafache. Noto dirigente associativo no cantão de Neuchâtel, secretário coordenador do Núcleo do Partido Socialista, foi conselheiro das Comunidades, e está sempre presente, no que diz respeito ao movimento associativo. Recebeu das mãos do Presidente da República a Ordem de Mérito pelo seu ato de coragem no ano de 1985, dado que conseguiu salvar três pessoas; mais não conseguiu, dado que o seu corpo sofreu graves queimaduras. O Carlos falou-nos do Movimento Associativo e do acidente no ano de 1985.

–Fazes parte do Movimento Associativo há muitos anos, como vês a atual situação?

–Quando cheguei a Suíça no ano de 1993, o Movimento Associativo era muito diferente do que é nos dias de hoje, por diferentes razões. Naquele tempo, havia necessidades que não existem nos dias de hoje. O Movimento Associativo está em decadência, pela minha experiência própria, muitas pessoas até já desistiram e outras estão a viver grandes problemas. Se posso falar do Centro Português de Neuchatel, que é a coletividade a que estou mais ligado, embora também seja presidente da Assembleia da Casa do Benfica em Neuchatel, mas, no caso do Centro Português, estr vive com grandes dificuldades a nível de sócios e de atividades associativas, o que faz com que  se esteja a passar por problemas, mesmo se a parte da restauração está a funcionar bem, com muito movimento, mas em termos de atividades e do interesse dos sócios, parece-me que as pessoas não se interessam mais pela coletividade. Esta é a minha opinião; como presidente da mesa da assembleia, posso-me permitir em dar a minha opinião e sinto-me triste que as pessoas não tenham o devido interesse pela vida associativa em Neuchâtel. Claro que a direção tem a legitimidade para fazer o seu melhor, mas parece-me que não chega. O Movimento Associativo necessita de passar por uma regeneração de quadros; muitos de nós, que temos mais de 55 anos de idade, já não temos a mesma vontade de quando começámos há 30 anos, e ninguém se interessa pelo verdadeiro movimento associativo, e este tende a desaparecer em alguns anos. Muitas associações já desapareceram, e as que existem ou passam a restaurantes privados, ou vão desistir também. Temos de continuar a lutar, mesmo se sei que é muito difícil inverter a situação.

–Houve uma campanha para apoiar o Movimento Associativo, por parte das entidades portugueses, mas ao que sei é muito complicado aceder a esses apoios. O que nos podes dizer sobre este tema?

Carlos Ramos –  Como sabes, sou membro do Conselho consultivo em Berna, e quando foi apresentado esse vídeo, mesmo na embaixada, intervim a lamentar a forma de como o projeto foi apresentado, o que até dá a sensação de que as nossas instituições nos estão a oferecer gato por lebre. O que parece é que estão a complicar o que deveria ser mais fácil para o Movimento Associativo, neste caso as associações, poderem apresentar os seus projetos para serem avaliados e sujeitos, então, a um possível apoio. Os doutores em Lisboa têm de entender que nós somos pessoas do povo, não somos letrados para nos engulharem normas técnicas que ninguém.  Parece que o projeto é para intelectuais e técnicos administrativos, e parecem existirem muitos nas instituições. Bem, é melhor esquecer que essa iniciativa não vai levar a lado nenhum. Muito complicado…

— Tu fazes parte do Partido Socialista; vês alguma melhoria do relacionamento da tal “geringonça” com as comunidades?

Carlos Ramos — Muito sinceramente, acho que houve uma abertura, mesmo se há muito a fazer. Não posso dizer que esteja tudo bem. As políticas em relação à emigração estão longe de estarem bem. Repara que o governo português esteve muito mal, quando se assinou o acordo para a declaração das contas bancárias, e ninguém da Secretaria de Estado emitiu um comunicado e explicou o que se estava a passar. Foi uma rebaldaria o que aconteceu, com informações erradas nas redes sociais e os suíços a exporem a situação. Os suíços estão muito contentes. A Secretaria de Estado deixou-nos ao deus dará. O acordo abrange apenas quem é titular de uma conta bancária num dos países signatários. Se te recordas da reunião no Centro de Neuchatel, foi algo que não deveria ter sucedido naquelas condições e com aquela moldura humana exaltada. Nem tudo está bem. Sou do Partido Socialista, mas sei ver as coisas. Mas também reconheço que existe uma abertura para novas políticas sobre a emigração. Não nos podemos esquecer de que muitos portugueses estão a deixar a Suíça devido a esse tal acordo.

–Há 32 anos aconteceu algo que te marcou para sempre…

Carlos Ramos– Sim, no dia 11 de setembro de 1985, pelas 6h40, vinha para a Suíça, e aconteceu um fatídico acidente ferroviário: dois comboios chocaram na linha da Beira Alta, entre Nelas e Mangualde, mais propriamente, em Alcafache. Perderam a vida 150 pessoas, entre estas, 70 ficaram carbonizadas. Todos os anos reunimo-nos em memória das vítimas desse dia 11 de setembro, para que não esqueçam quem perdeu a vida neste trágico acidente. Posso dizer que 70% do meu corpo ficou queimado, consegui salvar duas pessoas, mesmo ferido, e quando tentei salvar a terceira pessoa não resisti e tive de fugir do local, dado que as chamas eram assombradoras. Foi um erro humano. Para toda a minha vida, faço parte dos vivos daquele fatídico dia. Não me esqueço do terror e do que as pessoas sofreram naquele dia.

–E assim veio a tal Medalha de Mérito?

Carlos Ramos — Não escondo que fiquei contente com esta medalha, mas acho que chegou muito tarde, mesmo se me sinto reconhecido, dado que salvei pessoas e coloquei a minha vida em risco. Fui levado no dia seguinte para o hospital em Lisboa de helicóptero pelo General Ramalho Eanes, e é daí que vem a minha amizade e reconhecimento por este General que aprendi a admirar. Em poucos meses, fui submetido a 31 operações cirúrgicas, estive em conflito mais de 4 anos com a CP para receber 4 mil contos de indemnização. Sinto uma revolta por tudo o que me aconteceu. Como tal, sinto-me honrado pela medalha que recebi das mãos do Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

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