As “bestas” e os “bestiais”!

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Luís Barreira
Luís Barreira

Não há muito tempo (algumas semanas,…para ser mais correcto), a “troika” acusava-nos de não estarmos a cumprir os pressupostos do “memorando”, ao ser aumentado o salário mínimo nacional em uns ridículos “tostões”, para já não falar das críticas que lhes mereceram as previsões económicas de inverno, feitas pelo Governo.

Na semana passada, no dia em que as instituições europeias “encostaram a Grécia à parede”, naquilo que foi considerado um ultimato, Portugal foi elogiado pelo presidente do Eurogrupo, o Ministro das Finanças alemão e a directora do FMI “como um País se consegue rapidamente voltar a pôr de pé”!…Além disso e para que a “moldura dourada” ficasse mais completa, Maria Luis, a nossa Ministra das Finanças, foi convidada pelo seu homólogo alemão a ir a Berlim, mostrar aos alemães e ao resto dos europeus e do mundo, de como os portugueses e os alemães estão unidos nesta “cruzada” contra os “infieis” gregos, que não querem seguir o “bom exemplo” dos portugueses.

No espaço de poucas semanas, os portugueses, antes acusados pelos média alemães de trabalharem poucas horas (mas mais do que os alemães…), de terem muitos feriados (mas menos do que os alemães…), de terem salários e pensões elevadas (mas muito inferiores aos dos alemães…) e de passarem o tempo nas praias (que se enchem de alemães no verão…), passaram de “bestas a bestiais”!

Quando aqui há uns dias atrás o actual Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, veio a público declarar que “pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e, muitas vezes da Irlanda também” e de que as instituições europeias têm de “aprender as lições do passado” e “não repetir os mesmos erros”, toda a gente pensou: até que enfim,…haja alguém com peso nas decisões, que assuma os erros cometidos pela ‘troika’ em relação a nós e não volte a cometê-los no caso grego!

Mas, após estas declarações de Juncker, e curiosamente,.. o nosso ministro português da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Luis Marques Guedes, veio a público afirmar que essas declarações de Juncker foram “infelizes”!??…Ao mesmo tempo e contraditoriamente, o Vice-Primeiro Ministro, Paulo Portas, referindo-se a essas declarações, considerou que “sempre disse a mesma coisa”!??…

Bem certo que Juncker, ao dizer o que disse, também afirmou que, pelo facto de antes ter desempenhado o lugar de presidente do Eurogrupo, as suas declarações podiam parecer “estúpidas”, mas não me parece ter assumido que, o que agora disse, tenha sido uma “besteira”!

Assim e após esta polémica, ficámos todos bastante “confusos” por não percebermos concretamente quem são as “bestas” e quem são os “bestiais”!…

É evidente que o “caso grego”, a resolver-se ou não a bem das partes, tem provocado “ondas de choque” no sistema político europeu, ao qual, Portugal e os seus políticos não escapam! Mas parece que, face à proximidade das eleições legislativas portuguesas e considerando o insucesso da austeridade na resolução dos nossos problemas da dívida, os nossos governantes andam de cabeça perdida para justificar, segundo o Ministro das Finanças alemão, o nosso “caso de sucesso”.

No caso dos gregos conseguirem melhores condições, na aplicação da extensão do seu programa de apoio financeiro, será que quem sempre defendeu que a austeridade que nos foi aplicada, “custe o que custar”, é a melhor solução para os nossos problemas económicos ou, no caso da Grécia obter condições mais vantajosas, vão exigir que se apliquem também a Portugal?…

Alguns membros do Governo português, pela forma como atacam as pretensões gregas e com receio de “dar o dito por não dito”, tão perto das eleições, parece-me que recusarão!?..Digo: “parece-me”,… porque já vi “tanta coisa” que já nada é absurdo!…

Mas outros, talvez porque não acreditam na vitória eleitoral, parecem dispostos a exigir as melhores condições que, porventura, a Grécia obtenha. Como é o caso do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros que, segundo ele e nesse caso, Portugal teria direito a “reparações”!…

Perante tanta confusão destas “ginásticas narrativas” entre “bestas e bestiais”, só me resta desejar que um dia, na procura de obter alguns benefícios na compra de petróleo, ninguém do Governo venha a afirmar que: “ a terra não anda à volta do Sol porque, na verdade, está parada”, tal como afirmou recentemente o líder religioso saudita, Bandar al-Khaibari.

Se isso acontecer não terei dúvidas em saber onde está a “besta”!…

Luis Barreira

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