Afonso Reis e as mentes empreendedoras desejam criar uma geração de líderes

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Um projeto ambicioso que conta com a colaboração da Associação Portuguesa de Nidwalden

Afonso Reis é professor assistente na Nova Faculdade, professor e empreendedor na á
rea da Educação. Tem 33 anos de idade e viveu na Suíça desde o ano de 2008 até 2014, no programa do ensino universitário Erasmus, e colaborou com as Nações Unidas. Colaborou, também, na gestão e projetos na Fundação Aga Khan e na Swisscontact. Está empenhado em criar uma geração de líderes e quer alargar este conceito à Suíça e conta com a colaboração da Associação Portuguesa de Nidwalden.

O que são e quando surge este projeto das mentes empreendedoras?

Afonso Reis: As mentes empreendedoras surgem em 2010, quando ainda estava em Zurique, a trabalhar na Swisscontact, e, com essa proximidade com os projetos de cooperação nacional, eu aprendi na Tanzânia e no Peru que, é possível transformar a comunidade. Quando eu estava em Zurique e em Portugal, e tinha problemas, apercebi-me de que, se me continuasse a queixar e não fizesse nada, eu tornava-me a causa do problema. Eu tornava-me o gajo chato sobre o qual estava a reclamar. O que pensei foi: Portugal tem 10 milhões de pessoas a viver no país, e tem 5 milhões a viver fora. Então, por que não experimentar algo como: se cada português fizesse uma pequena iniciativa para ajudar Portugal, como é que a coisa seria? Isto foi, por assim dizer, o arranque. Comecei o projeto no ano de 2010 em Zurique, aos poucos, mas só no mês de Setembro de 2014 é que voltei para Portugal. Durante este período, eu fiz o projeto à distância. O que este projecto quer é o seguinte: eu vejo que os portugueses têm capacidade e potencial, mas depois parece que na hora da verdade a coisa nunca avança. Até parece aquela música dos Deolinda que diz; agora sim é que vamos dar a volta a isto, agora sim há sede de vencer, e no final diz; agora não que é hora do almoço, agora não que o meu pai não quer, agora não porque que agora não posso, vão à frente porque eu vou lá ter. Penso que esta música explica muito bem o estado de alma nossa, de que é o de não fazer. Penso que somos todos um pouco treinadores de bancada e todos dizem como é que deveria ser, mas ninguém se chega à frente. Ter esta ideia de que vai haver um governo central que vai conseguir mobilizar o país, quem vive na Suíça vê o quão importante são as bases. A própria Suíça é um país de baixo para cima e não ao contrário. O governo central dá umas orientações mas não mexe mais do que um tanto. São os cantões, as freguesias que metem tudo isto a mexer. Assim, o que pensei foi; vamos criar aqui um movimento de jovens que se chegam à frente pelas coisas de que gostam.

Esse público jovem está aqui na Suíça?

Afonso Reis: Estamos aqui com a Associação de Portugueses de Nidwalden, a querer replicar o projeto na Suíça, e apesar de eu estar cá, o projeto foi sempre em Portugal. A ideia foi a de trabalhar com alunos do secundário, alunos entre os 15 e os 18 anos de idade, e a ideia é a partir do 7.° ano, quando eles têm 12, 13 anos, eles começam a desenvolver biologicamente o pensamento crítico, que é uma idade em que eles não têm a pressão da universidade nem da escola profissional, existe aquele idealismo do que eu vou ser e o que eu vou fazer. É uma boa fase, porque têm algum espírito crítico para terem experiências de superação, e o que isto quer dizer? Por exemplo, a Bruna de Guimarães queria acabar com o bullying no mundo, se calhar acabar com o bullying no mundo é demasiado grande, mas então trabalhou na escola primária que ela frequentou, trabalhou com dois, três amigos, com 25 alunos, e fez 5 workshops sobre empatia, o que é ser a vitima, o que é ser o agressor, e ela conseguiu que aqueles 25 alunos percebessem qual é a importância da empatia e do risco que é o bullying e rejeitá-lo e estar disposto a preveni-lo. Ou seja, a Bruna e os seus amigos conseguiram influenciar, passar uma mensagem positiva a estes 25 anos da primária. Como por exemplo uns alunos em Tavira, o Henrique e a Mariana, que conseguiram sentar à mesa da Câmara Municipal Fundos de investimento, com o objetivo de colocar painéis solares nos telhados da escola, para que esta pudesse poupar cerca de 36 mil euros que eram gastos em eletricidade todos os anos. Ou seja, um miúdo de 17 anos começou isto e levou os seus amigos atrás. A ideia é a de que no futuro quando eles ouvirem que isso não dá, é muito difícil, eles vão levar as suas ideias a discussão e vão conseguir fazer algo, contrariando a velha norma de que não é possível, quando tudo é sempre possível. As mentes empreendedoras desejam criar cidadãos de impacto e líderes de serviços, que se movem em torno das coisas que lhes interessam, que se ficam a conhecer melhor e que desenvolvem competências: pensamento crítico, gestão de projetos, parcerias, colaboração e trabalho em equipa.

Todo este projeto das mentes empreendedoras chegou ao conhecimento da Coordenação de Ensino na Suíça?

Afonso Reis: Não, o que estamos a começar aqui com a associação de Nidwalden é um projeto piloto, é uma primeira iniciativa.

Quem financia todo este movimento?

Afonso Reis: Estamos a fazer algumas candidaturas e temos algumas Fundações aqui na Suíça. Na Suíça, apesar de tudo, existe um ecossistema de financiamento bastante positivo, mas para projetos a serem realizados cá.

Todo este movimento vai atingir um público-alvo português, qualquer que seja a ideia?

Afonso Reis: Exatamente. É isso mesmo, qualquer que seja a ideia, o processo mental é que os alunos criem um clube na escola, e na escola porque é onde os jovens estão, e têm mais contacto, e damos 7 workshops presenciais, o que no contexto português vai de novembro a maio, e aí fomenta-se a discussão para que algumas ideias e projetos possam ser postos em prática. Independentemente de qual seja essa ideia ou projeto.

Todo este projeto pode promover a auto-estima nos alunos?

Afonso Reis: Sim, é verdade. Sem qualquer dúvida. E é algo que nós acreditamos que pode acontecer aqui na comunidade portuguesa. Os portugueses são bons trabalhadores, mas no final a sensação que dá é a que estão muito fechados em si. Este tipo de abordagem pode ser uma mais-valia no contexto suíço.

Muitos alegam que os estudantes portugueses na Suíça não atingem os patamares mínimos exigidos para aceder ao ensino universitário. O Afonso estudou na Suíça durante 4 anos na universidade, será que consegue dizer o porquê de que tal assim seja?

Afonso Reis: Como trabalhei na área da educação, posso fazer a minha interpretação. Não conheço o suficiente, mas do que conheço eu diria o seguinte: a ideia que me dá é a de que as pessoas replicam as ambições dos pais, e muita da comunidade portuguesa que veio para cá foram pessoas que tiveram uma fase difícil na vida. As pessoas vieram para construir uma vida e, apesar de tudo, tiveram sucesso na base do materialismo. Na cultura portuguesa a referência familiar é muito importante, as nossas referências são os nossos pais, e se na família não forem valorizados os estudos, por alguma razão, tal pode não ajudar para que não haja mais ambição. Como pode também haver pouca auto-estima. Tenho um amigo, o Carlos, que viveu no cantão do Jura, e ele dizia que até aos 15 anos de idade sentia que era menos do que os outros, porque era estrangeiro.

Sentiu discriminação?

Afonso Reis: Ele deu-me este testemunho direto, como tal posso assim dizê-lo, mas nos dias de hoje o Carlos dá aulas no cantão de Neuchâtel e chegou ao doutoramento. À parte do caso do Carlos, este projeto de superação pode fazer bem aos alunos portugueses que vivem na Suíça. Eu próprio, quando era mais novo, e só quando consegui atingir as minhas pequenas vitórias, objetivo atrás de objetivo, foi aí que fui alimentando essa capacidade e a vontade de fazer mais. Se não temos as referências por perto, se não houver uma vontade muito forte, muito dificilmente uma pessoa poderá atingir outros patamares académicos.

Quem quiser aderir a estas mentes empreendedoras, como poderá fazê-lo?

Afonso Reis: A boa notícia é que vamos ter um site na internet muito em breve. Depois, a Associação Portuguesa de Nidwalden está completamente por dentro deste projeto, são nossos parceiros, e com eles que vamos dar os primeiros passos aqui na Suíça; além disso,podem todos escrever para afonso@mentesempreendedoras.com

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