A trágico-comédia “Saída limpa”!….

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Luís Barreira
Luís Barreira

À hora certa, o pano abriu e, no grande palco institucional, à frente de um numeroso elenco de actores e perante a “enorme” ansiedade dos espectadores a quem, à porta do teatro, tinham oferecido um saquinho fechado com fitinhas laranja e azul, o actor principal proclamou, com o seu melhor ar solene: “Meus amigos, tenho o prazer de vos anunciar o último acto da peça ‘Saída limpa’ ”!

Na primeira fila da plateia, a dos convidados que gratuitamente assistiam a esta representação, entre os quais se podiam identificar: banqueiros, donos de grandes empresas que multiplicaram os seus lucros nestes últimos três anos, especuladores financeiros, jotinhas e membros da guarda pretoriana, todos se ergueram, aplaudindo e gritando: “Bravo!…Muito bem!…Bravo!..”.

Perante tal onda de contentamento, o actor ergueu os braços em glória, fez o V de vitória e disse…”Conseguimos,.. esta é uma data histórica,… expulsámos a troika”!…

Alguém, ao fundo da plateia, sussurou interrogando-se: “mas então,… eles não continuam a vigiar-nos, pelo menos até 2036?..

O actor principal, com uma indisfarçável satisfação, continuou: “A ‘saída limpa’ só foi possível graças ao nosso empenho e à ajuda dos nossos amigos europeus”!…

Numa coxia recuada, uma senhora de meia idade dirigiu-se ao marido: “Olha lá Zé, estes amigos não foram aqueles do norte da Europa, que disseram que já não nos emprestavam mais dinheiro para programas cautelares?”, ao que o marido respondeu: “Pois,… por isso são nossos amigos”!…

Indiferente ao silêncio provocado pelas suas palavras no resto da sala, o actor afirmou: “Como podem ver, os mercados agora acreditam em nós, os juros continuam a baixar”!..

Um velhote, sentado no segundo balcão, junto de amigos reformados, retorquiu sorrindo ironicamente: ” Não te esqueças que os juros também baixaram para a Espanha, a Itália e até a Grécia”!…

O actor franziu o sobrolho e, olhando por cima das lentes, fixou o velhote e disse com firmeza: ”Conseguimos baixar a dívida e o déficite”!…

Aí,…alguém deu uma gargalhada e clamou: “Isso é que era bom! Desde que a troika chegou a Portugal a dívida pública não baixou, antes aumentou 35 pontos percentuais e, além disso, o déficite era para ser de 3% em 2013 e agora só é previsível em 2015, repito… pre…vi…sível”!…

Entre o burburinho que entretanto se instalou na sala e as exclamações de “Chamem a segurança e ponham a oposição na rua!”, vindos da primeira fila da plateia, o actor principal tentou apaziguar os ânimos, declarando em tom coloquial: “A nossa situação económica melhorou bastante e os portugueses vão ser aliviados na austeridade que tivemos de implementar”!

Foi então que um coro de protestos irrompeu na sala: “Mentiroso! Aumentaste mais os impostos, tornaste os cortes provisórios em definitivos e prometeste à troika mais despedimentos na função pública”!…

Incapaz de continuar o monólogo, o actor começou a ripostar agressivamente:

-“Tomámos medidas que vão permitir baixar os impostos sobre as reformas”;

-“Pois, pois,… baixaste os impostos sobre as reformas milionárias”,..gritaram alguns;

-“Vamos aumentar o salário mínimo”,…dizia estonteado o actor;

-“O aumento do IVA e da taxa para a Segurança Social, já comeu o aumento!”, respondiam os espectadores assanhados;

-“Em 2015, vamos repôr o poder de compra”, gritava o actor;

-“Antes ou depois das eleições?”, perguntavam os outros em risada estridente;

-“Temos a certeza de contar convosco outra vez, para uma nova maioria e um novo Presidente!”, balbuciava desesperado o actor principal.

Foi então que, inesperadamente, alguém se lembrou de abrir os saquinhos e uma nuvem açucarada de pastéis de Belém desabou sobre o palco, levando a troupe de actores a um frenesim de lambidelas à estrela da companhia.

Foi nessa altura que se ouviu alguém gritar: “Todos ao Marquês!”, seguindo-se uma saída abrupta da multidão que assistia ao espectáculo.

Ainda pensei que fossem festejar mais uma vitória do Benfica mas, quando passei à rotunda, constatei que se tratava de outro tipo de manifestação.

O Marquês ostentava um barrete jacobino, o leáo tinha uma pele de coelho entre os dentes e uma enorme faixa, voltada para a avenida da Liberdade, apresentava os seguintes dizeres: “SAÍMOS LIMPOS (nos bolsos!…)”

Luis Barreira

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