A TAP voou…baixinho!

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Luís Barreira
Luís Barreira

O Governo português decidiu finalmente vender a TAP a um americano abrasileirado e a um português da Barraqueiro!
Confesso que sempre tive sentimentos contraditórios acerca da privatização da nossa companhia aérea de bandeira.
Por um lado, sinto uma certa contrariedade por estarmos a vender ao desbarato todo o património do nosso Estado, desfazendo-nos apressadamente de todas as “joias da coroa”, como se tudo o que é pertença da nação estivesse num leilão, a ser vendido ao melhor preço no mercado de rua, o que, no caso da TAP e ao que parece, foi uma bagatela (10 milhões de euros)!
Por outro lado, estávamos a ficar um pouco fartos dos apelos patrióticos para a defesa desta empresa nacional, nomeadamente junto das nossas comunidades residentes no estrangeiro quando, para esses destinos, os preços praticados por esta companhia eram dos mais elevados e os serviços prestados eram dos mais deficientes, não só no cumprimento de horários, como na alimentação servida a bordo. Além disso, os prejuízos acumulados pela TAP (1060 milhões de euros) e que se espera (…) venham a ser pagos pelos seus compradores, porque só assim se justifica o baixo preço da venda, não auguravam nada de bom para o futuro próximo desta companhia, que já estava em falência técnica.
A venda, que não é imediata sem as autorizações necessárias sobre o negócio, que têm de ser dadas por algumas entidades, entre as quais Bruxelas, vai necessariamente despoletar reacções dos trabalhadores da companhia, face à intenção dos seus novos proprietários (com 61%) e do próprio Estado português (que ainda fica temporariamente com 34%) em baixar os custos da empresa. E, a esse propósito, veremos como se comportarão agora os pilotos da TAP: se contra a privatização ou se a favor da possibilidade de se tornarem accionistas, através da compra dos 5% de acções que restam!??…
Em qualquer dos casos, exceptuando eventuais interesses estratégicos nacionais que a venda da TAP coloca em causa, o contribuinte português, já antes impedido pelas normas da UE de “contribuir obrigatoriamente” para a salvação da TAP, vai colocar os aspectos sentimentais de parte e passar a escolher uma qualquer outra companhia para voar, com base nos critérios de segurança, serviço e preço, que lhe sejam mais favoráveis, sem ter em consideração a “bandeirinha” na cauda dos aviões. Aliás, o que já faz cada vez mais, utilizando as companhias de aviação low-cost e que têm vindo, sobretudo na Europa, a ocupar progressivamente o papel que antes era assegurado pela TAP!
Com mais esta privatização e segundo as suas próprias declarações, “aliviado” ficou também o Presidente Cavaco Silva, sem que se perceba muito bem o porquê do seu profundo desabafo, a não ser por algum “desarranjo”, provocado pela ingestão das declarações do partido Socialista que, para o caso da TAP, apresentava outra ementa “gasto-económica”!… Ainda bem que o Sr. Presidente expeliu esta declaração a bordo de um avião da TAP, no regresso de uma sua viagem à Bulgária demonstrando, com esta atitude, a sua clara e visceral argumentação, para com a solução encontrada e deixando no ar uma última “sólida recordação” de viagem na (ainda) “nossa” empresa de aviação!
Se a TAP não anda boa (ou voa…), restava saber a origem dos seus problemas, nomeadamente dos seus processos de gestão. Não porque isso nos incomode muito, agora que tem outros proprietários, mas para que outras empresas lucrativas do Estado não comecem a ficar deficitárias (preparadas…), para a “salvação privada”!
Está neste caso a venda da concessão de exploração do Oceanário de Lisboa que, em 2014, teve lucros de 1,49 milhões de euros e recebeu quase um milhão de visitantes e que já abriu o “apetite” a cinco “tubarões” (dois portugueses, dois espanhois e um francês).
Como os peixinhos não podem sair do aquário para protestar o que quer que seja, nem correm o risco de ir para o desemprego, para diminuir os custos do capital a ser investido pelos privados, a solução parece pacífica para os aquáticos residentes.
Só não é pacífico para os portugueses, verem esvaziar o “tanque” das empresas nacionais em terra, no ar e no mar, ficando ao sabor das “torneiras” estrangeiras que, em função dos seus próprios interesses, nos podem deixar ficar sem água para nadar!…

Luis Barreira

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