A “quadratura do círculo” europeu!

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Luís Barreira
Luís Barreira

Os europeus, através das resoluções tomadas pelo Conselho Europeu da semana passada, tomaram consciência do quão difícil é resolver entre si, o problema das constantes migrações que chegam à Europa, oriundas do continente africano.
No centro desta discussão estava, para uns, a política europeia de Asilo Comum dos migrantes, enquanto para outros o que estava em causa era a travagem completa dessas migrações.

Nessa reunião de todos os poderes governamentais dos países da UE ficaram patentes as enormes fracturas existentes entre uns e outros, sobre como resolver a questão das migrações, sem ferir os interesses eleitorais de cada governo e sem esvaziar os fundamentos humanistas da própria União.

De um lado: a Alemanha, a Suécia (países que mais imigrantes têm acolhido); a França, a Espanha, Portugal (entre outros), países que querem manter os princípios da solidariedade europeia. Do outro: o irritado e irritante primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte (mandatário da coligação populista da Liga Norte e M5s), a exigir mais solidariedade e a Grécia e Malta, países onde têm desembarcado as maiores vagas de imigrantes. E de um outro lado, aqueles que não querem nenhum imigrante no seu território, como é o caso da Hungria, Polónia, Republica Checa e Eslováquia, não esquecendo a Áustria.
No final, as parcas conclusões apuradas resumiram-se a várias incógnitas práticas destinadas a “salvar a honra do convento”!…

Assim, após uma longa noite de discussões e acusações colectivas, os governantes da UE admitiram a criação de centros fechados de migrantes nos Estados-membros que aceitem “voluntariamente” acolhê-los, afim de processar os pedidos de asilo e dividindo-os entre imigrantes legais (aqueles que fogem das guerras e perseguições nos seus países de origem) e imigrantes ilegais (os que chegam à europa por razões económicas). Os primeiros poderão ser aceites e os segundos são reenviados para os seus países de origem. Surgiu igualmente a “ideia” de criar esse mesmo tipo de centros de migrantes nos países do Norte de África, contando com o apoio das Nações Unidas e da Organização Internacional das Migrações. Há semelhança do “tampão” turco já existente, o Mediterrâneo passará a ser vigiado e constituído como uma espécie de fronteira fechada entre a África e a Europa.

Sendo as principais conclusões colectivas assentes no “voluntarismo” dos Estados–membros (considerando as enormes divergências existentes) e no eventual apoio das Nações Unidas, para os centros de recenseamento a instalar no Norte de África e que, ao que parece, nenhum dos países desta zona aceita instalar esses centros, parece-me que os líderes europeus chegaram a uma “não-resolução” do problema.

Talvez algumas negociações bilaterais (à margem do colectivo…) propostas pela Alemanha, seguida pela França, a Espanha, Portugal e outros, permitiram “adocicar” as resoluções o que, no final, todos considerassem terem sido dados passos importantes. Em tudo isto foi notório a ajuda dada a Angela Merkel, que enfrenta problemas com os seus parceiros de coligação do governo alemão, sobre a sua política para com a imigração.
O Primeiro-ministro português também não se inibiu de prestar esse auxílio, aceitando a reentrada em Portugal de cerca de 200 imigrantes que tinham pedido asilo ao nosso País e que depois foram para a Alemanha. Além disso, reforçou o fundo europeu de apoio a África, passando de 1,8 milhões de euros para 5 milhões, a somar aos 336 milhões de euros para a Ajuda Publica ao Desenvolvimento e alinhando assim com outros países de semelhante dimensão.

Este mundo está estranho e muito diferente de há 50 anos atrás!
Todos reconhecemos que a entrada de milhões de imigrantes económicos na Europa não resolve os problemas de pobreza nos países donde são oriundos, antes enriquece um vasto grupo de mercenários que atiram com essa gente para o mar. Mas a “guerra” a travar não é deixá-los afogar, antes ajudando a criar condições nos países de origem para que a fome também não os mate, nem que para isso se intervenha de forma “eficaz”, desafiando poderes autocráticos instalados e não receando que nos apelidem de “neocolonialistas”!
Porque o mundo está bem diferente economicamente e evoluiu substancialmente a consciência colectiva, humanitária e solidária, dos países europeus, permitindo a pacificação e desenvolvimento deste continente, é preciso impor regras no relacionamento internacional com os países africanos, que defendam o direito dos seus povos a usufruírem da riqueza criada nos seus países e não alimentem os especuladores externos, nem os corruptos internos.

Por outro lado, sabemos que a União Europeia atravessa um grave problema de demografia e que estes emigrantes, desde que integrados no mercado de trabalho, são uma ajuda a prazo para combater o nosso défice demográfico, no entanto e neste mundo estranho, há quem pense que tal constitui um perigo para a manutenção da nossa identidade, como se, neste mundo globalizado e tecnicamente evoluído, tal constitua uma fortaleza contra toda e qualquer influência externa.

Também eu sou a favor da preservação de muitos aspectos da nossa identidade europeia, mas e nomeadamente dos valores humanistas que ela encerra e de que não devemos abdicar na nossa relação com os outros povos, sejam eles europeus, asiáticos, africanos ou americanos. Se renunciamos a isto na nossa relação com os outros, estamos a meio caminho de o fazermos entre.

Luís Barreira

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