A “palhaçada”!…

0
846
Luís Barreira
Luís Barreira

A recente polémica que se estabeleceu em Portugal, depois do escritor Miguel Sousa Tavares (MST) ter chamado “palhaço” a Cavaco Silva, quase unanimemente considerada uma grave ofensa ao Presidente da República e, como tal, sujeita a uma acção judicial, não deixa de me levantar algumas interrogações pela forma como interpretamos o que é dito e quem o expressa publicamente.

Ninguém até agora comentou a fraseologia utilizada, verbalmente ou em cartazes, pelos manifestantes que contestam Cavaco Silva, que se manifestam em toda a Lisboa ou, mais precisamente, junto ao palácio de Belém. Se isso tivesse algum “peso” mediático e os seus autores tivessem notoriedade pública, decerto que se encontrariam motivos ainda mais graves para uma condenação.

No entanto, num País invulgarmente classista como é o nosso, as palavras têm o valor associado aos seus autores e, serem ditas por um operário da construção civil ou por um doutor, não é a mesma coisa!

A propósito do significado das palavras mais comuns do nosso léxico, também é curioso como a sua interpretação está para além da sua representação. Se MST tivesse utilizado um outro substantivo comum para definir Cavaco Silva, como trapezista ou ilusionista, que são igualmente outras nobres profissões circenses, tenho dúvidas se alguém consideraria essa observação como uma grave ofensa mas, “palhaço”….aquele mágico personagem que faz rir crianças e adultos, isso não!…Como se num País, onde anda toda a gente de “beiça caída”, não fosse urgente que alguém nos provocasse o riso!

No entanto, também em Portugal as palavras têm sentidos perversos e, neste caso, “palhaço”, no contexto em que foi utilizado pelo seu autor, identifica pejorativamente quem faz palhaçadas, ridicularizando Cavaco Silva.

Perante o rol de acusações a que foi sujeito e a perspectiva de vir a ser alvo de um processo judicial, MST justificou inicialmente que não chamou “palhaço” ao Presidente da República, ou seja à instituição, mas sim à pessoa do seu actual inquilino, para depois fazer um claro pedido de desculpas pelo seu excesso de linguagem!…

Não sou apologista da aplicação do vocábulo mas,… sinceramente, que já vi coisas piores e, em sociedades europeias mais permissivas, até se votou massivamente num palhaço. Só que esse… era profissional e não se aborrece que o identifiquem como tal!

Para além da semântica da expressão agora tão criticada, cujo valor intrínseco e poder depreciativo é deixado à apreciação de cada um, nomeadamente do atingido, esta atitude reflecte um outro tipo de fenómeno social muito mais importante.

Há já há alguns anos que, no seio da comunidade política portuguesa e entre esta e a população, se perderam os “brandos costumes” da linguagem pública e republicana, sendo utilizados termos considerados obscenos para identificar rivais políticos ou exprimir o descontentamento popular para com responsáveis desta comunidade.

Esta atitude traduz, para além de um insultuoso vocabulário que não dignifica quem o utiliza, um outro tipo de acontecimento ainda mais grave: um completo desrespeito de uma vasta camada do nosso povo, para com os políticos profissionais que nos representam, nas mais variadas instâncias. E, se não houver uma mudança do discurso e do comportamento destes profissionais, temo que esse “desrespeito” se alargue às instituições, o que é deveras muito mais perigoso!

Naturalmente que não vale a pena procurar as razões que conduziram a este “desvio linguístico” e o que ele representa. Elas são sobejamente conhecidas de todos e estão identificadas em diversas fases do já longo trajecto da nossa democracia representativa.

O importante, aquilo do qual dependem estas e outras atitudes menos próprias de um comportamento civilizado, é que a comunidade política tome consciência dos seus deveres para com a população, da dignidade com que deve exercer as suas responsabilidades e a sua relação com o povo.

A escola política não pode ser apenas a aprendizagem de como se ganham eleições, se satisfazem as clientelas partidárias ou se projectem carreiras milionárias. O serviço público deve ser exercido com humildade e profundo respeito para com os cidadãos que, neste momento, se encontram profundamente desiludidos.

A não ser assim a nossa democracia revelar-se-à uma autêntica palhaçada!

 

Luís Barreira

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here