“A montanha pariu um rato”!…

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Luís Barreira

Na passada segunda-feira o mundo e, nomeadamente, os povos dos países da União Europeia, aguardavam com alguma expectativa o desenrolar das negociações entre os ministros das finanças da Grécia e os restantes países da UE, bem como do FMI. Em causa estavam as condições impostas por ambos os lados para que a Grécia sobreviva no espaço do euro.

Após muito “diz que disse” de ambas as partes, onde proliferaram todo o tipo de acusações entre gregos, alemães e congéneres, assim como alguns sinais de um possível entendimento, com base em cedências explícitas pela parte grega e alguns sussurros de boas vontades europeias, a reunião saldou-se por um fracasso!…

Ao governo grego foi dado um prazo de quatro dias para pedir uma extensão do actual resgate, situação que foi sempre rejeitada pelo actual governo grego, considerando que a austeridade provocada por este plano da troika afundará ainda mais a economia grega e um ainda maior empobrecimento do povo, o Ministro grego das Finanças respondeu que, os ultimatos, nunca resultaram em nada de bom!…

Neste braço de ferro entre quem manda na União Europeia da zona euro, a Alemanha e o filho rebelde grego, parece que (e aparentemente…) a “Frau” Merkel ganhou. Resta saber se, neste perigoso “jogo” de poker político e após a amostragem das cartas, houve lugar a “bluff”, por parte de algum dos “jogadores” ou se ele não vai dar lugar a uma “desforra” de honra, num duelo ainda mais perigoso para todos os intervenientes e para aqueles que, calando o consentiram, ou seja, uma “roleta russa”!

É do reconhecimento geral, inclusivé do governo alemão, que a situação do povo grego, que tem sido sujeito a um torniquete económico imposto pela troika e conduzido pelo seu anterior governo, com mesma coloração política do actual governo alemão, levou os gregos ao desespero de votarem num partido político, o Syriza, que nada tivesse a ver com os anteriores PASOP ou Nova Democracia que, no essencial, são a mesma coisa.

É sabido que o resgate económico da Grécia e o profundo empobrecimento da sua população e da sua economia, tem dado lucros à Alemanha muito superiores ao investimento alemão sobre a dívida grega. Não só pela falência económica das indústrias gregas, sujeitas agora às importações da Alemanha, como esses investimentos, tal como nos diz Philippe Legrain (antigo conselheiro de Durão Barroso, durante a sua presidência da Comissão Europeia), permitiram“…que os contribuintes alemães resgatassem, de forma indirecta, os bancos alemães. Esta é a tragédia”!

E, se nós sabemos isto, os gregos também o sabem! Ouvir o Ministro das Finanças alemão declarar que lamenta que os gregos tenham eleito um governo “que se comporta de maneira irresponsável” é, no mínimo, uma provocação ao orgulho de um povo desesperançado. E, quando um povo desespera e se sente fustigado por quem no passado já o escravizou, a sua atitude não encaixa nos juízos racionais desta Europa irracional para alguns!…

Também nós, portugueses e a esse propósito, teríamos alguma coisa a dizer sobre a nossa cada vez maior dependência de produtos alemães, face à insípida capacidade industrial portuguesa, a braços com endividamentos e incapacidades financeiras. O ano de 2014 enfraqueceu significativamente as nossas exportações de bens e, o défice de Portugal com a Alemanha, passou de 962 milhões, em 2013, para 1.645 milhões em 2014. A Alemanha foi assim o país que, em 2014 e no comércio de mercadorias, mais contribuiu para o decréscimo do nosso necessário crescimento económico. Que coincidência!…

Perante uma dívida pública que ascendeu a 224,5 mil milhões de euros, em 2014 e um crescimento económico que, segundo o INE, ficou em 0,9%, Portugal foi o 4° País onde a dívida mais cresceu.

Por muitas histórias (essas sim infantis…) que o governo português nos queira fazer acreditar como, por exemplo, que os mercados estão a emprestar-nos dinheiro a taxas muito baixas porque já saímos da crise, lembro que isso já se passava antes de 2007, por altura da “bolha” financeira. No entanto, nenhuma dessas “histórias” nos diz como atingirmos um crescimento económico de 3,9% que, segundo o consultor McKinsey, é o essencial para reduzirmos a dívida!

Não sei se a troika nos vai permitir vir a falhar as metas do Tratado Orçamental??…Talvez sim,… se o nosso governo afinar pelo mesmo diapasão político alemão.

Se assim não for, tal como acontece na Grécia, talvez ainda não sejamos gregos, mas… vamos a caminho!

Luis Barreira

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