A “barafunda” europeia!

0
1035

Um pouco “enfastiado“ dos casos que animam a imprensa portuguesa, nomeadamente os inquéritos judiciais e comissões parlamentares, a propósito dos sms da CGD, dos offshores de Paulo Núncio, das trafulhices de Ricardo Salgado ou ainda a adiada acusação a José Sócrates, julgo que o que aconteceu esta semana na Holanda é, pelas suas implicações na agenda eleitoral europeia e na vida de todos os europeus, onde nos integramos, o facto mais relevante para reflexão.
O presidente turco Erdogan, não satisfeito com a purga que realizou no seu país, após um “golpe de Estado” que mais parece ter sido “fabricado” para lhe permitir fazer uma “limpeza” de todos aqueles que se opõem aos seus propósitos, decidiu promover uma alteração constitucional que lhe permita amplos poderes, criando um poderoso sistema presidencial, onde ele governará por mais uns longos anos.
Assim, decidiu referendar a sua proposta constitucional pelos turcos residentes no País e em outros 53 países estrangeiros, onde os turcos estão imigrados, preparando comícios em várias cidades desses países.
Alguns deles, a Alemanha (com 3 milhões de turcos) e a Holanda (com 400 mil turcos), opuseram várias reservas a essas manifestações do poder político turco, sendo que a Holanda decidiu impedir que alguns ministros turcos viessem ao seu país, para participarem nos referidos comícios, alegando que tal iria perturbar a ordem pública, face a contra-manifestações que estavam a ser previstas.
Até aqui tudo bem! A Holanda é um país soberano e tem todo o direito de proibir manifestações políticas de um país estrangeiro no seu próprio território.
Quem não esteve pelos ajustes foi o “candidato a sultão” Erdogan, que não se coibiu de reagir imediatamente, insultando os holandeses de “nazis” e “fascistas” e prometendo sanções (????) à Holanda.
Esta história, que poderia à partida ter sido amenizada pelos canais diplomáticos, se fosse apenas isto, está longe de ser resolvida.
Para o governo holandês, a dias de afrontar o candidato do PVV, Geert Wilders, em eleições esta semana, personagem que tem uma campanha cuja única retórica é o anti-Islão, sem que ninguém saiba ao certo que é que ele quer para a economia, a saúde ou a segurança social, esta disputa aguda com os turcos, poderá vir a favorecer o candidato politico mais islamofóbico da Europa.
Para Erdogan, que quer que a Turquia surja como uma grande potência da região, face ao desmembramento politico e militar dos seus vizinhos Iraque e Síria e cujo o seu país faz parte integrante da NATO, tal como a Holanda, este diferendo pode ocultar outras intenções, considerando que tem ultimamente desenvolvido laços de aproximação com a Rússia de Putin, que poderão não ter só a ver com os seus inimigos históricos, os curdos!…
Se adicionarmos a isto as eleições presidenciais em França, entre 23 de Abril e 7 de Maio, associadas aos escândalos do candidato republicano Fillon, as dúvidas sobre o resultado do novo centrista Macron, os candidatos socialistas a braços com efeito negativo de Hollande e o endurecimento da campanha anti-imigração da eterna favorita da extrema-direita Marine Le Pen, a situação da França, no quadro actual da crise dos refugiados e do medo do terrorismo, acaba por criar um sentimento de insegurança que pode levar os cidadãos, num contexto das actuais dificuldades económicas, a recear que o Estado não tenha capacidade para apoiar todos, acabando por dar vantagens suplementares à política da extrema-direita francesa.
Também a Alemanha vai a votos em Setembro e, também neste País, um candidato da extrema-direita, Frauke Petry, líder da AfD, tentará tirar dividendos da actual situação europeia e internacional, ao que não é alheia a influência Trump. No entanto, a popularidade da candidata Merkel, que conseguiu uma plataforma de acordo entre a CDU e CSU e de Martins Schulz, pelos social-democratas e verdes, podem ser um garante contra a vitória do populismo.
Mas a Europa não está em ansiedade apenas pela proximidade de eleições legislativas no eixo franco-alemão. Noutras paragens, mais a Oeste, a primeira-ministra escocesa não aceita o brexit e confirmou pedir ao Parlamento, na próxima semana, a realização de um novo referendo sobre a permanência, ou não, no Reino-Unido o que, se o não for aceite, passará a ser “Reino Meio-Unido”!…
Para culminar esta barafunda europeia, o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, decidiu ajudar os Estados a definir o caminho para a União Europeia, apresentando 5 alternativas para o seu futuro, embora “só uma é que é válida”, aquela que já foi escolhida pelos grandes países da União: uma Europa a duas velocidades! Os que vão de TGV e os que têm de embarcar no comboio do Tua!…
O que é curioso, é que quase todos os países, Portugal incluído, querem ir no TGV!
Mas, pelo sim, pelo não, o Governo português já mandou activar a linha do Tua, porque é nossa e atrai muitos turistas: o nosso verdadeiro futuro na UE (senão se alterarem as regras do euro e do tratado orçamental…)!

Luís Barreira
Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here